No Natal de 1956, a polícia da cidade de Herisau, na Suíça Oriental, foi chamada por crianças que tinham tropeçado no corpo de um homem congelado até a morte na neve. A polícia fez o de sempre, examinou o cadáver, buscou a identidade do homem e tirou fotos que mostravam um velho usando casaco, botas, tendo os olhos abertos e a boca quase em sinal de grito. Era Robert Walser, um dos mais brilhantes autores da literatura de língua germânica. Naquele dezembro de 56, aos 78 anos, Walser fazia mais uma de suas rotineiras e solitárias caminhadas quando sofreu um violento ataque cardíaco. Era o fim para um autor que viveu e sofreu por mais de um quarto de século em clínicas psiquiátricas. Embora já fosse conhecido, só anos mais tarde de sua morte quando seus escritos secretos foram descobertos, ficou clara a dimensão e a importância de sua obra para a literatura do século XX.  Walser tinha sido declarado incapacitado desde 1933, quando começou seu périplo por hospitais psiquiátricos que durou mais de duas décadas. Mas, surpreendentemente, em seus últimos anos de vida, o escritor, que não apresentava mais os sintomas da esquizofrenia, se recusou a deixar a clínica psiquiátrica. Optou pelo anonimato, pela reclusão da loucura, pelo exílio da insanidade, ainda que a doença estivesse reduzida.

Robert Walser (1878-1956) era suíço e foi lido, cultuado e admirado por outros grandes escritores, tendo influenciado diretamente Robert Musil, Thomas Mann, Hermann Hesse e, principalmente, Kafka. Diferente desses célebres autores, Walser não ganhou fama universal. Tronou-se um mestre, um norte, uma espécie de “escritor dos escritores”. Sua obra foi resgatada após sua morte através das pesquisas iniciadas pelo amigo, jornalista e biógrafo Carll Seelig, que assumira a conduta legal do escritor em 1944, depois que sua última irmã falecera. A vida não foi algo fácil para Walser. Algumas de suas fotos mostram a intensidade de seu sofrimento, seja pelos problemas mentais, seja por sua difícil caminhada como escritor. O autor W.G. Sebald ao ver algumas dessas fotos descreveu-as como “sete etapas fisionômicas intercaladas por uma série de catástrofes silenciosas que afetaram seu corpo e sua imagem”.

Walser não casou, não teve filhos, não conheceu a notoriedade, mas seus livros são cada vez mais traduzidos, estudados e referenciados. Embora cercado de enormes dificuldades nunca desistiu de escrever, e ajudado pelo irmão publicou ainda jovem “Jakob von Gunten” (1909), “Geschwister Tanner” (1907) e “O Ajudante” (1908), tendo também escrito textos curtos, publicados em respeitados jornais e revistas da época. Walser tematizava os acontecimentos do cotidiano, no qual encontrava a poesia e os segredos da vida. Escreveu várias obras até a década de 30, quando sua insanidade começou a dar sinais de que as limitações eram evidentes.

“O Ajudante”, publicado aqui em 2003, narra a história de Joseph, que é contratado para trabalhar em projetos excêntricos. Töbler, seu patrão, é um aventureiro que vive seus sonhos de grandeza oferecendo festas em sua casa e cortejando possíveis investidores, sem notar os dramas ocultos em sua vida familiar. Os projetos de Töbler não têm êxito. Sua atividade principal é ditar a Joseph cartas, mesclando súplica e arrogância aos seus inúmeros credores. Estes perdem a paciência, assim como Joseph, que pede demissão. Walser tinha 29 anos quando escreveu o livro, e este está carregado de elementos autobiográficos. Os lunáticos projetos de Töbler não seriam exceção, mas sim a regra, e os que neles se engajam, como Joseph, veem-se quase sempre condenados à frustração. Walser se assustava com o mundo moderno, com a correria pelo sustento, e, com as pressões que quase sempre levavam as  pessoas ao limite. “Eu não quero ter futuro, eu quero ter um presente”, disse ele certa vez.

Outra forma de conhecer Walser, e como também ficou conhecido ao longo do tempo, é através da publicação de seus microtextos: os microgramas. Laura Erber, poeta, doutora em Letras pela Universidade do Rio de Janeiro e autora de “Os Corpos e os Dias” e “Vazados e Molambos”, em seu ensaio “As Vidas Minúsculas de Robert Walser” (Revista Escrita), mostra a importância dos microgramas na literatura de Walser. Segundo ela, só muitos anos depois de sua morte soube-se que o longo e intrigante isolamento literário do autor foi na verdade marcado por uma experiência extremamente singular e proliferante. Em 1924, Walser substituiu a caneta pelo lápis, passando a escrever numa grafia incrivelmente minúscula e ilegível. Descreve a doutora Erber que os papéis ficavam cheios de textos (até quase transbordarem), e as letras não ultrapassavam dois milímetros de altura. Esses microtextos eram realizados em cartões de visita, papéis de embrulho, folhas de calendário, etc., e neles Walser se arriscava em vários gêneros (romance, crônica, poema, anotações, etc.). Os textos foram batizados de “microgramas”. Ainda segundo Laura Erber, foi o germanista Jochen Greven quem, após um meticuloso trabalho de decodificação, descobriu que não só a caligrafia deles era extremamente miniaturizada, mas que o próprio idioma empregado era a abreviação de uma antiga forma de escrita alemã (gótica) – fazendo desses manuscritos um tipo de experimentação estenográfica. “A escrita em miniatura proporcionou a Walser um poderoso campo de invenção, onde o gesto de miniaturização da letra se conjuga a um movimento de ‘diminuição’ do sujeito na narrativa”, explica Erber.

Os Microgramas (mais de 500 páginas), publicados muitos anos depois de sua morte (Microgramas 1, 2 e 3), deixaram muitas pistas sobre o pensamento de Walser e sobre como ele percebia essa impotência da civilização em conviver com a perturbadora velocidade do progresso. Talvez por isso a obra de Walser continue atual. Talvez por isso esta tenha acelerado sua esquizofrenia, e quem sabe também por isso ele tenha preferido desaparecer da vida, procurando o anonimato da loucura, como ele mesmo explicou ao final da vida:

“Estou aqui para ser louco, não para fazer literatura”.