
“Não fale mais sobre o perigo que eu corro,
só temo o perigo onde quero ter medo dele” – Franz Kafka, em O Processo
.
Ai ai ai ai ai. Cabô mesmo? Cabô o carnaval? Quer dizer, os dias que a gente não faz nada no carnaval? Porque, né, não dá para me imaginar sambando, certo? certo! certíssimo. Vocês sabem que tenho um pouco de pânico de gente demais. Imagina, então, gente FELIZ demais. Ow my dear lord. Não aguento tanta felicidade assim não. Sabe como é. Como diria o Wander Wildner, “eu não consigo ser alegre o tempo inteiro”. Não, não consigo.
Mas, estava aqui pensando, se tem uma coisa que me deixa alegre é ter tempo bom pra desperdiçar. Em época de adeptos da “altíssima produtividade” (blergh!), tempo ocioso, tempo desperdiçado é quase ofensa. E ó, nem tô falando de “ócio criativo”, não. Nada contra as teorias do brilhante Domenico De Masi, e seu respeito à individualidade na sociedade pós-industrial. Tô falando de fazer NADA mesmo. Sabe como é? Meu avô paterno, aquele da foto que contei outro dia, tinha um ritual. Na parte da tarde, após o almoço, gostava de tecer redes de pescar. Depois de uma, duas horas, ele parava e colocava as mãos na barrigona que tinha e ficava lá, paradinho. Parecia nem respirar.
Minha mania é diferente. De manhã, acordo, mas, não acordo. Assim: oficialmente já estou acordada, mas, agarro no travesseiro de uma tal forma que preciso ficar ali uma meia hora pensando que, finalmente, o dia começou. Ai penso na minha mãe, em Nietzsche, no que tenho que entregar ou de quem tenho que fugir, em Simone de Beauvoir, Paris, no supermercado, em Kafka, no que vou comer, em minha cachorrinha, meu pai, na dieta, e, às vezes, naquela criatura bizarra chamada Strauss-Khan que não consegue deixar o pinto dentro da calça e vive sendo preso.
Então, né. Nada muito criativo e revolucionário. Só que esse tempo no “nada”, esse tempo teoricamente desperdiçado, faz um bem tão grande pra minha sanidade que o dia que tenho que acordar e levantar correndo fico mal. Não sou mais feliz com essa coisa de “tudo rapidinho”. Pode ser a idade (veiótinha), mas, ia ser bom – assim como meu avô – ter mais desse tempo bom, pra desperdiçar. E, nesse feriado, nossa!, como desperdicei o tempo. Quero mais.
Dá até medo desse resto de fevereiro e esse Brasil que só começa depois do carnaval. Tipo: todo mundo tendo que resolver tudo, pra ontem, “como se não houvesse amanhã”. Mas, parafraseando o senhor Kafka, nem quero mais saber sobre o perigo que corro.
e você? tá com medo também? gosta de desperdiçar seu tempo como?
beijo, beijo. Voltando, com preguiça, mas, ainda assim, voltando.
.
*
Porque meu carnaval foi – longe – assim
Cícero – Ensaio sobre Ela
.
Ainda faz um tempo bom
Pra desperdiçar comigo
Podemos enfeitar domingos


