Eduarda, vem ver o rato!

Eduarda, vem ver o rato!

Eram umas 7h da manhã hoje, quando voltava pra casa, e entrei numa rua bem estreitinha. Num banquinho colado à calçada estavam uma moça e a filha. A menina, que deve ter uns quatro ou cinco anos, penteava os cabelos com um pente rosa, que tirou de uma bolsinha, também rosa. A cena me chamou a atenção porque estranhei as duas ali, tão cedo, mas, nada anormal – só um típico domingo entre mãe e filha.

Depois de passar o pente pelos cabelos, a menina arrancou um punhado de florezinhas de um canteiro e começou a andar pela rua. A mãe gritou: “Eduarda, aonde você pensa que vai?”. A menina respondeu: “Vou passear. Vem mamãe?”.  A mãe retrucou: “Nem pensar. Volte aqui, agora”. A menina: “Não” – e, continuou andando. A mãe, estranhamente, parou de esbravejar por alguns segundos. Depois, gritou mais alto ainda: “Eduarda, vem… vem ver o rato!”. Na hora achei a situação bizarra. A mãe, sem perceber, arrancou a filha do “conto de fadas” – com sua bolsa rosa, as flores, o passeio – para ver um rato que passava pela rua! Depois, me dei conta que minha mãe, meu pai, meus tios e, etc, também já me mostraram uma porção de “ratos” pelo caminho.

Por que estou dizendo isto? Porque foi só ali, diante da situação semigrotesca entre mãe e filha, que me dei conta do motivo de estar tão aborrecida esses dias. Pensei que era “só” pela chateação da mudança – com pedidos e mais pedidos de alteração de endereço, transferência de serviços, coisas que não funcionam, e etc. Burocracia sempre me aborrece. Mas, não. Acho que ando é com medo de tropeçar nos “ratos” que já topei pelo caminho.

Explico: quando sai daqui, desta cidade, deixei para trás uma série de hábitos que só tinha aqui, neste lugar, e, com as pessoas que convivia. Esporadicamente, me deparava novamente com eles, mas, logo retomava a rotina – quando voltava pra casa. Agora que minha casa é aqui, novamente, fico com medo de regredir os quase 15 anos que fiquei “ausente”. É pretensioso pensar que “evolui” e as pessoas daqui não? Claro que é. Mas, é preciso entender que não evolui junto com essas pessoas, então, minha “mente” está agarrada ao passado. Só tenho a lembrança de mais de uma década atrás, ainda preciso construir um presente novo, atual, alterado.

O medo não é que as pessoas não tenham dado um passo à frente. O medo é que eu volte quinze atrás – e torne a “enxergar ratos” que já deixei pelo caminho. Dá para entender? Mais ou menos assim: sabe quando você está se relacionando com alguém e não consegue deixar de agir de uma determinada forma porque o seu jeito, mais o jeito da outra pessoa, produzem essa maneira de ser? E, a “culpa”, afinal, não é de ninguém? Por aí. Então, as pessoas são ou não fruto do meio em que vivem? Dá para escapar?

Preciso urgente comprar uma televisão pra distrair a mente. ;) – dei a minha TV na mudança…

Tudo bem? ou surtando muito também? beijo, beijo

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*

.Porque foi a música mais tocada durante a madrugada

Suede – Saturday Night

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but it’ll be alright,
Cos tonight we’ll go drinking we’ll do silly things

32 respostas »

  1. Kazinha, já estava com saudades de você!

    Sobrevivi à mudança e também estou nesta fase, um tanto desconfortável, de tentar achar um jeito novo de viver.

    Acredito que somos extremamente influenciados pelo ambiente em que vivemos. Eu mesma já mudei muito… Conscientemente ou não, vamos criando formas de nos amoldar às circunstâncias por questão de sobrevivência mesmo.

    Quanto aos seus maus hábitos você há de lembrar que tinha quinze anos a menos. Hoje você se transformou numa mulher diferente. Os “ratos” podem reaparecer? Sim. Você pode deixá-los ficar ou não. Hoje, com mais maturidade, você pode fazer escolhas que há quinze anos atrás não conseguiria.

    Um beijo e boa sorte para nós nesta nova fase! :-)

    • Manu, linda!

      em todos os momentos que me deparo com uma situação nova em relação à mudança, me lembro de você! tipo: como será que ela está lidando com isso! louca, né??? rs rs

      já relaxei um pouco mais com as novidades, mas, ainda tem coisa pra arrumar! afe.

      beijo, fiquei feliz de saber que conseguiu sobreviver…rs.. (já está se sentindo em casa?)

  2. K aríssima

    Aquela máxima que diz que o (um parênteses: tudo bem com você? Ainda tentando se matar ao sair da cama?) homem é fruto do meio, é incontestável. Ocorre que mesmo no meio você pode se abstrair. Já vivi situações assim e o que pega mesmo, é o fato de você querer ser sociável, ou seja, ter que se inserir no contexto.

    Mas você sempre tem a opção. Já foi nômade, cigano, por forças das circunstâncias (outro parênteses: não vou contar a história, está muito quente para chorar) e isto me fez voltar a lugares por onde passei. Em alguns deles os ratos continuavam lá, mas lembrei que nunca liguei muito pra eles.

    Mas se for imprescindível fazê-lo porque não ficar com as coisas que realmente marcaram, afinal mesmo ratos são sociáveis, e algumas coisas jamais devem sair de nossas lembranças. São as nossas lições de vida, o modo que dispomos para não incorrer em erros futuros e nem de sacanear os outros como fomos sacaneados.

    Só você para me fazer escrever num dia tórrido como este.

    Beijo grande e se cuida.

    P.s.: Isto aqui me lembra muito da minha infância, da parte boa que não quero esquecer, enjoy!

    • ah… droga, adoro sacanear quem me sacaneia! tenho prazer quase desses perversos :D muito malvada?

      essa semana (tirando o calor) digamos que não pensei em morte ao acordar. E, você? está bem?

      beijos, eu adoro essa música! Me lembra das noites de paz e enamoradas dos meus pais! (porque, no resto do tempo, eles passavam jogando coisas um no outro! rs)

  3. Você sacou uma coisa super legal. E eu também sinto isso algumas vezes, quando encontro alguém do passado:

    “Mais ou menos assim: sabe quando você está se relacionando com alguém e não consegue deixar de agir de uma determinada forma porque o seu jeito, mais o jeito da outra pessoa, produzem essa maneira de ser?”

    Mas veja a coisa por outro lado:

    “Sabe quando alguém está se relacionando com você e não consegue deixar de agir de uma determinada maneira porque o jeito dela, mais o seu jeito, produzem essa maneira de ser ?”

    • (Completando, porque eu postei antes de terminar).

      Eu também mudei de cidade, e acho que – dependendo de como a coisa rola -, a gente se afasta (protocolarmente) da pessoa, ou ganhamos um novo amigo.

      • João,

        depois de todos esses dias que escrevi o texto (sorry, por responder só agora! muito trabalho) percebi que eu ando botando mais medo nas pessoas, do que as pessoas em mim. O comentário que mais escuto é: “nossa, como você mudou”. E, quer saber? Acho que não mudei tanto assim. A diferença, talvez, é que agora tenho mais maturidade para “assumir” minha personalidade.

        Vendo por outro lado, como você sugeriu, tenho buscado – sem julgamentos (o que é tãooo difícil!) – (re)conhecer novamente as pessoas, especialmente os “antigos” amigos. Tem sido uma experiência. interessante Vamos ver o “saldo” de tudo isso no futuro.

        beijo grande.

  4. Nossa,isso de ‘vem ver o rato’ me traz algumas recordações..tipo..minha mãe sempre me tirava do ‘fantátisco mundo de todas as cores’,rs..com a frase:’vem pra cá,se não o bicho-papão te pegaa’!
    E não é que a ‘velha’ estava certa,rs..pegou msmo! O bicho-papão agora vem disfarçado em algumas situações,com algumas pessoas,enfim.
    Ah,não se preocupe K..vc já chegou num estágio avançado no quesito relação interpessoal,ou seja,não há retrocessos!
    Boa sorte!

    • Gautha, linda…

      minha mãe também adorava um terrorismo! aliás, meus pais… (especialmente, aquele terrorismo católico… de “ó menina, quer ir pro inferno?”…rs).
      sobre regredir, não sou tão otimista. Acho que temos que ficar de “olho” o tempo todo. O confortável sempre me deixa com medo!

      Falando nisso, lembrei de um trecho do livro “O Castelo”, do Kafka, que li recentemente e diz assim:

      “Não ficava longe de achar sua situação satisfatória, muito embora sempre dissesse rapidamente a si mesmo, depois desses acessos de bem-estar, que o perigo estava exatamente ai”

      Beijos!

  5. Quem sabe a coisa não depende do modo (NOVO, ATUAL, PRESENTE) de olhar “o rato” (o passado)… Vou contar uma coisa, quando era bem pequena, meus amigos mais “cor de rosa” eram bichos, sempre adorei, e em particular gatos! Falava com eles, cuidava e, claro, maltratava também um pouco. Então eu morava numa casa grande com quintal enorme para onde convidava tudo quanto era gato vadio, mas isto tinha um senão… de vez em quando eles caçavam ratos e os deixavam de “presente”… eu chorava, qual madalena!, e fazia enterro aos desgraçados roedores, fazia uma cova na terra, tapava e ornava com flores… claro que na altura não tinha a mínima noção do quanto minhas exéquias poderiam estar atentando contra a saúde pública mas enfim… o mais que pode ter acontecido é eu ter contraído uma “espécie de loucura por transmissão ratosa”… portanto, rato é bicho que nunca me repugnou, ao contrário de certos insectos… pior seria se a mulher gritasse “Eduarda, anda ver a barata!”,,, ARGH! (risos) E com tudo isto eu creio que penso que o importante é o modo como cada um de nós olha para a realidade. Em 15 anos você construiu, de certo, um outro olhar, uma outra forma de estar, portanto, e também de reagir. Boa Sorte! beijo beijo

    • Peixinha,

      é justamente o que tenho tentado: esse novo olhar. É complicado porque o novo olhar vem recheado das velhas histórias (porque não há novas, é preciso construí-las), mas, ainda assim, é uma tentativa.

      Adorei a sua história sobre o quintal enorme, e os ratos! Fiquei aqui a imaginar seus enterros! (eu já enterrei também uma vez, mas foi um passarinho. Matei o pobre de tanto comer…rs. Morreu com a barriguinha estufada.. tadinho!).

      um dia mostra fotos da sua infância, do seu quintal? curiosa!

      beijo, beijo.

  6. Oi senhorita. Bem vinda ao clube dos sem TV.

    Eu nunca devaneei muito não, sempre vi os ratos no caminho. No máximo, eu imaginava eles monstros do Jaspion, hahaha.

    Hoje, a senhorita crescida, pega uma vassoura e dá na cabeça dos ratos.

    Beijos, beijos.

    • Amado,

      não resisti. comprei outra tv! (sim, essa sou eu: que dá tudo o que tem e tem que recomprar – e se individar! – de novo..rs)

      inteligente essa mocinha..rs..

      beijossssssssssssssssssss

  7. Bom dia K…

    Minha recomendação: compre um gato ou ratoeiras. Não adianta tentar socializar com ratos, e nem fazer de conta que eles não existem. ;)

    Beijos e boa semana.

    Taty.

    • Taty,

      definitivamente, eu não sou boa em socializar – e, infelizmente, não são só com os ratos!
      mas, tô melhorando… agora, um gatinho seria bem-vindo! estou sentindo falta de um puppy!!!

      beijos, beijos!

  8. Olá senhorita.

    Matar ratos, dependendo do tamanho e sagacidade do bicho, pode ser fácil. O problema é que quando um se vai, outros trinta aparecem dos mais estranhos lugares, e não há nada que possa mudar tal verdade, eles existem.

    Mas algo com certeza pode ser feito. É conhecer o inimigo e usar da estratégia para eliminá-lo.

    Esses bichos são um dos mais inteligentes que existem e são grandes observadores. Eles sabem quando é hora de desistir de explorar um determinado terreno. Sabe como ele fazem isso?
    Eles observam, um precisa ir para que o outro possa garantir a sobrevivência da prole e isso acontece mesmo se um rato de outro lugar aparecer e for solitário, eles sabem que se o parceiro não voltar, algo muito ruim aconteceu, eles sabem que se o parceiro voltar com nada nas mãos mas com o coração saindo pela boca, alguma coisa deu errado. O rato solitário é muito mais cauteloso e não oferece tanto perigo, a não ser que você facilite. Os outros vão tentar novamente, só dessa vez, uma terceira está fora de cogitação, sabem que um não vai voltar e o que voltar vai estar tremendo de medo, isso se não se acidentar pelo caminho
    .
    Nessa hora você os mata ou os afugenta. Garanto que de uma forma ou de outra você vai ver menos dessas pragas e não vai mais ter o juízo roído a não ser por você mesma.

    A culpa realmente não é de ninguém, o mundo e a vida existem para serem divididos, mesmo que sejam com ratos e baratas.

    Pela sua idade e seu tamanho, quem tem que sentir medo não é você e sim os ratos.

    Use de estratégia e da força baby. Se for preciso atirar, que seja na cabeça. Entendeu?

    Beijos
    Boa semana e se cuida. Eles estão a espreita.
    .

  9. Eu não vou dizer muita coisa hoje, até porque, estou numa época de poucas palavras: te entendo 100%.
    “É pretensioso pensar que “evolui” e as pessoas daqui não?” essa pergunta se repete em mim todos os dias, praticamente.

    Bjs!

  10. Olha só, dá pra gente parar de ter essa sintonia absurda?!
    Justamente hoje me deparei com o mesmo medo que você…
    Voltar aos 17 anos e tropeçar em todos os ratos que eu já chutei da minha vida.

    “Mais ou menos assim: sabe quando você está se relacionando com alguém e não consegue deixar de agir de uma determinada forma porque o seu jeito, mais o jeito da outra pessoa, produzem essa maneira de ser?”

    Bem por aí viu.
    E se tiver um jeito de escapar, você me ensina? Please?

    Beijos e
    chateia não… Dê tempo para burocacia e ela te dará novas possibilidades. (Paciência)

    =*****

    • Na-não, não dá não Mogzinha! :D

      eu adoro sintonias absurdas… você sabe!

      beijossssss, tô seguindo o seu conselho sobre o “tempo”. E, por isso, mais tranquila.

  11. K….não fique assim…começe a enxotar…cada um que ..aparecer..em seu ..caminho……rs….beijos.querida boa sorte

  12. Cadê a Srta. K. que estava aqui?
    O gato comeu, ou seria o rato?

    Só pra dizer que tenho saudades.

    O Incompletudes é o único blog que visito regularmente. (e você não poderia ir dormir sem saber disso! Rá!)

    • Beta, saudades também!

      o ano “começou” daquele jeito, com os “coleguinhas” loucos, sabe? Sei que sabe!
      mas, logo chega o carnaval e todo mundo some! rs rs rs pro meu alívio.

      quanto ao blog ser visitado regularmente por vc, a criança carente que mora em mim manda dizer: “ehhhhhhhhhhhhhhh” :)

      beijooooooo

    • Aninha, amada

      inventaram um montão de viagens pra eu fazer esses dias. Vou passar mais uma semana enrolada, mas, já passa!

      beijos, saudades também!!!

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