Os dias todos

Os dias todos

A Pilar, até ao último instante (O Homem Duplicado, 2002) – A Pilar, os dias todos (Ensaio Sobre a Lucidez, 2004)
A Pilar, minha casa (As Intermitências da Morte, 2005) – A Pilar, que ainda não havia nascido,
e tanto tardou a chegar (
As Pequenas Memórias, 2006) – A Pilar, que não deixou que eu morresse
(
A Viagem do Elefante, 2008) – A Pilar, como se dissesse água (Caim, 2009)

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“A minha vida não seria aquilo que é hoje se não tivesse conhecido Pilar”. Quando se conheceram Saramago tinha 63 anos, Pilar del Rio 36. “Tanto que meus amigos diziam: vê lá o que é que vais fazer e tal, isso é perigoso, e tal”. Pilar nunca tinha ouvido falar em Samarago, quando leu o Romance Memorial do Convento. “A cada página, eu voltava atrás para certificar-me: é um contemporâneo, ai tinha a percepção de que estava diante de um clássico”. Em Lisboa, o primeiro encontro. A atração, a princípio intelectual. Os dois apaixonados pelo poeta Fernando Pessoa e pelo Marxismo. Seis meses depois, o reencontro em Sevilha. Às quatro da tarde. A hora está registrada em vários relógios da casa em Lanzarote. “É aí que começa realmente a minha segunda vida porque com 63 anos o que é que se espera que aconteça? Já não muita coisa”. Ficaram juntos por mais de 20 anos. “Eu, quando conheci o homem com quem me ia casar, soube que ia ser para sempre. Pela minha parte. E para muita gente, suponho que mesmo após 20 anos de casada, continuarei sendo uma jovenzinha, sem escrúpulos, que foi atrás de um homem mais velho. Para muitas outras pessoas, sou simplesmente Pilar”. “Eu tenho ideias para romances, e ela tem ideias para a vida. E eu não sei o que é mais importante. Pilar! Encontramo-nos noutro sítio”.

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Se você gosta de histórias de amor, por favor, veja o documentário José e Pilar. Se você prefere saber como um dos grandes gênios da literatura viveu, por favor, veja o documentário. Se você admira a simplicidade, veja o documentário. Agora, se você quiser entender realmente o que é a discrição tão necessária nestes tempos, por favor, veja o documentário. Se deseja entender o que é, para mim, viver “de verdade”, veja o documentário. Mas, se você tem ânsia por pessoas com opiniões próprias que não se furtam de dizê-las, ainda que seu país de origem passe a odiá-lo, por favor, veja o documentário. Se você gosta de exemplos de pessoas que são donas de sua própria vida e têm coragem de mudar, por favor, veja o documentário. Sobretudo, se você admira a dignidade, veja o documentário. E, além do vídeo abaixo, se quiser ouvir uma música portuguesa que gostei muito e está no filme, escute aqui.

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Eu sei que o ano está só começando, mas, não vejo outra coisa que possa me emocionar e me ensinar tanto e tão profundamente quanto esse documentário. Espero, honestamente, estar errada. Mas, duvido.

Amor – Trecho do Documentário José e Pilar

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“Ainda que pareça impossível, é este silêncio cheio de palavras não ditas que salva o que se julgava perdido. (…) Tanto na morte como na vida tudo é questão de ângulo” – José Saramago, em O homem duplicado

36 respostas »

  1. das coisas mais emocionantes que já vi, está entre elas o vídeo do final da exibição de ensaio da cegueira. são sempre 88 segundos dos mais embargados da vida. na primeira vez que assisti o nó na garganta foi sufocando tanto que corri pro quintal respirar.

    não vou cair no lugar comum de dizer que o saramago é especial.

  2. Claro que vamos ver, depois desse pedido, nem um pouco apaixonado, não tem como negar.

    [Mas, se você tem ânsia por pessoas com opiniões próprias que não se furtam de dizê-las, ainda que seu país de origem passe a odiá-lo, por favor, veja o documentário.] achei forte, este é meu motivo.

    Beijos
    E se cuida

  3. sempre que se vê fica-se com saudades. que bom que gostaste : ) tão belo e tão maravilhosamente simples como as dedicatórias e as epígrafes nos livros do saramago. “quem não tiver paciência para ler os meus livros, leia as epígrafes, contam quase tudo” obrigado por este teu post. obrigado pelo teu bom gosto, pela tua capacidade de partilha e pela tua competência cronista e literária. eu gosto muito.

    • é assim com você. Sempre tenho saudades de você.

      Sabe, eu me enrolo, muitas vezes, com os livros do Saramago. Essa coisa dele da (falta de) pontuação, de não dar respiro… já “discutimos” muito.. (claro, tudo na minha cabeça…). Mas, tenho uma profunda admiração por ele, pelo “pensador”, por discutir coisas importantes pra humanidade (ainda que nem sempre concorde). Só por isso, esse homem não merece jamais ser esquecido.

      e, eu quem agradeço você vir aqui. É sempre uma coisa boa.

      beijo.

  4. Diante de um pedido desses… vi.

    Uma vida de amor para a minha vida de desencontros.
    É bom para eu lembrar que nem tudo está perdido e que ainda existe, embora que raramente, quem ame de verdade.

    Beijo.

    • oi Telma!

      eu sou “lerdinha” com essa coisa do tempo dos filmes… também perdi na época… mas, veja sim! vale a pena. Está no youtube, todas as partes. Mas, esse é o tipo de Doc que temos que comprar e guardar para rever sempre.

      beijos!

    • Tão perfeito seu comentário. Foi o mesmo efeito em mim… (além de querer “obrigar” a todo mundo ver”..rs..

      beijos, espero que esteja melhor! (vi seu email)

  5. K,
    Como raramente leio prosa, nunca li um livro dele. Li alguns poemas e gostei, mas, provavelmente, não deve ser o melhor da obra. Mas admirava muito a pessoa do Saramago; a coerência e a coragem de se manter fiel aos seus credos.
    E gostava daquela lógica certeira e bem portuguesa, gostava do lirismo que saia do seu realismo duro, e também daquela sua cara, igual a do padeiro lá da esquina.
    Adorei quando ele disse: “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”.

    Vou tentar assistir esse documentário, e te deixo um poema dele:

    “Aniversário”

    Pai, que não conheci (pois conhecer não é
    Este engano de dias paralelos,
    Este tocar de corpos distraídos,
    Estas palavras vagas que disfarçam
    O intransponível muro):
    Já nada me dirás, e eu não pergunto.
    Olho, calado, a sombra que chamei,
    E aceito o futuro.

    Além do que, como não invejar alguém que conhece o grande amor que não é o “engano de dias paralelos” ?
    JR.

    • J.R

      “E gostava daquela lógica certeira e bem portuguesa, gostava do lirismo que saia do seu realismo duro, e também daquela sua cara, igual a do padeiro lá da esquina.”

      que definição maravilhosa! ri muito com a “do padeiro lá da esquina”. Também acho, e amo.

      os romances dele são “duros”, nada poéticos, mas, é o tipo do livro que você lê e tem a sensação de ter levado um soco no estômago. Li alguns, quero ler mais esse ano. Tenho problemas com a (falta de) acentuação dele.

      Uma curiosidade: eu sou o contrário em relação à leitura. Quase não leio poesia, e, acho que há um buraco dentro de mim por isso.

      Além do que, como não invejar alguém que conhece o grande amor que não é o “engano de dias paralelos” ?

      como não? impossível.

      beijos

  6. Eu vou assistir ao documentário. Sabe por quê? Porque você sugeriu. E porque, quando ele tiver 63, terei 38. Bem próximo. E já terão se passado 16 anos. Assim espero. Assim queremos. ;)

    • Nós entendemos bem disso, né Evezinha?

      juro que não pude deixar de lembrar (de nós duas), quando Pilar disse isso:

      “E para muita gente, suponho que mesmo após 20 anos de casada, continuarei sendo uma jovenzinha, sem escrúpulos, que foi atrás de um homem mais velho. Para muitas outras pessoas, sou simplesmente Pilar”

      beijos! depois me conta o que achou…

  7. Estive adiando pra assistir esse documentário durante dias mas depois dessa postagem tive que assistir assim, imediatamente, madrugada afora, na cozinha de casa (onde a internet do vizinho não trava, kkk), frio de rachar em Portugal, chorando e sorrindo compulsivamente, sem ninguém aqui em casa entender…

    É kzinha, só vc mesma viu!? Sempre me prega umas peças…

    Engraçado né, outro dia era vc aí atrás de um certo filme pela madrugada e isto aqui muito feliz em ser sentir útil, kkk…

    Então, quando sai o romance? Duas páginas por dia?

    Bjo querida.

    • Então, o burrim aqui digita errado, publica as coisas e depois não consegue apagar, kkk,,,

      Deixa eu aproveitar pra te mostrar um negócio… na parte que o Saramago falava sobre o ateísmo eu lembrei desse vídeo do Dennett que assisti esses dias, bué fixe, como dizem por aqui, kk

      http://www.youtube.com/watch?v=o9Vs11goU6c

      Outro beijo queridinha, até outra oportunidade!

      • esse vídeo das formigas é muito doido!!!! :P

        adorei… um beijo em você também.

        que a oportunidade não demore ;) e que a internet do vizinho funcione, amém..rs

    • “onde a internet do vizinho não trava”…. ri um bocado doutor!!! :P

      fico feliz de você ter gostado porque você indicou o filme que mais gostei de ver no ano passado. Lindo. O mundo gira… baby.

      espero que esteja melhor aí, nas terras portuguesas!

      beijoooo

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