
“que temos nós para lhe oferecer que não nos possa roubar”
Valter Hugo Mãe, em O Remorso de Baltazar Serapião
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Tenho assado bolos. Verdade. Cenoura com chocolate, Abacaxi com coco, bolo de fubá cremoso, leite condensado e laranja. Tudo porque agora moro no primeiro andar e, à tarde, a criançada brinca no pátio do prédio que tem quatro andares e corre para lá e para cá, enquanto bisbilhotam pela minha janela – ainda – sem cortinas. Tudo começou com um susto. Estava desencaixotando coisas na sala e, de repente, aparece uma cabecinha do nada e pergunta: “você é a nova moradora?”. Era uma menininha de nove, dez anos. Respondi: “sim e você, quem é?”. Ela: “a velha moradora”. Ri e ela perguntou novamente: “que cheiro bom é esse?”. Eu: “bolo de cenoura com chocolate, quer?”.
Ela aceitou. Nem preciso dizer que depois veio o irmão, dois garotos do terceiro andar, e mais uma guria do quarto.
Quase todo dia tem sido a mesma coisa. Entre quatro e meia, cinco da tarde, escuto a garotada cochichando, cheia de risinhos e num empurra-empurra em minha janela: “será que tem bolo hoje?”. Acho bem engraçado. E, às vezes, quando o trabalho permite, não resisto e vou pra cozinha fazer a alegria da criançada. Da criançada? Que nada, a felicidade tem sido minha mesmo. Nestes dias, a vida parece que fica mais simples e leve. Sabe como é?
Fora isso, tenho tentado – só tentado! – colocar as coisas em ordem. Ainda há inúmeras caixas espalhadas pelo apartamento, muita coisa fora do lugar, e, eu fazendo bolos enquanto aguardo a instalação das cortinas para acabar com a festa da garotada. Uma coisa é certa: sou uma catástrofe para as questões domésticas. Semana passada, empurrando caixa de um lado a outro, torci dois dedos da mão direita – que só desincharam depois de muito anti-inflamatório e gelo (em parte, a razão do meu “desaparecimento”). Nem fui ao médico, mas, já estou ok. Acho que tenho agonia de gente mexendo em meu corpo sem ser para fins sexuais. Uma questão de princípios…
Bem, deixa eu terminar esse papo que isto já está ficando com cara de conversa de maricotinhas! Mas, diga-me: seria assim muita maldade, depois de instaladas as cortinas, eu me esconder atrás dos tecidos para não ter mais de fazer o bolo da criançada??? Quero só ver como será… acho que criei “monstrinhos” viciados em bolo. Ah! esqueci de dizer… às seis da tarde, a igreja do bairro toca todos os dias a Ave-Maria. Em alto e bom som. Sério. Sério mesmo.
e por aí, tudo bem? beijo, beijo!
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Porque a delicadeza da voz dela acalma minhas “arrumações”
C’était salement romantique – Cœur de Pirate
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Et moi étendue dans ce lit
Je contemple ce que je t’ai donné de ma vie






