Arquivos Mensais:janeiro 2012

Papo de cozinha

Papo de cozinha

“que temos nós para lhe oferecer que não nos possa roubar”
Valter Hugo Mãe, em O Remorso de Baltazar Serapião

.t.

Tenho assado bolos. Verdade. Cenoura com chocolate, Abacaxi com coco, bolo de fubá cremoso, leite condensado e laranja. Tudo porque agora moro no primeiro andar e, à tarde, a criançada brinca no pátio do prédio que tem quatro andares e corre para lá e para cá, enquanto bisbilhotam pela minha janela – ainda – sem cortinas. Tudo começou com um susto. Estava desencaixotando coisas na sala e, de repente, aparece uma cabecinha do nada e pergunta: “você é a nova moradora?”. Era uma menininha de nove, dez anos. Respondi: “sim e você, quem é?”. Ela: “a velha moradora”. Ri e ela perguntou novamente: “que cheiro bom é esse?”. Eu: “bolo de cenoura com chocolate, quer?”.
Ela aceitou. Nem preciso dizer que depois veio o irmão, dois garotos do terceiro andar, e mais uma guria do quarto.

Quase todo dia tem sido a mesma coisa. Entre quatro e meia, cinco da tarde, escuto a garotada cochichando, cheia de risinhos e num empurra-empurra em minha janela: “será que tem bolo hoje?”. Acho bem engraçado. E, às vezes, quando o trabalho permite, não resisto e vou pra cozinha fazer a alegria da criançada. Da criançada? Que nada, a felicidade tem sido minha mesmo. Nestes dias, a vida parece que fica mais simples e leve. Sabe como é?

Fora isso, tenho tentado – só tentado! – colocar as coisas em ordem. Ainda há inúmeras caixas espalhadas pelo apartamento, muita coisa fora do lugar, e, eu fazendo bolos enquanto aguardo a instalação das cortinas para acabar com a festa da garotada. Uma coisa é certa: sou uma catástrofe para as questões domésticas. Semana passada, empurrando caixa de um lado a outro, torci dois dedos da mão direita – que só desincharam depois de muito anti-inflamatório e gelo (em parte, a razão do meu “desaparecimento”). Nem fui ao médico, mas, já estou ok. Acho que tenho agonia de gente mexendo em meu corpo sem ser para fins sexuais. Uma questão de princípios… ;)

Bem, deixa eu terminar esse papo que isto já está ficando com cara de conversa de maricotinhas! Mas, diga-me: seria assim muita maldade, depois de instaladas as cortinas, eu me esconder atrás dos tecidos para não ter mais de fazer o bolo da criançada??? Quero só ver como será… acho que criei “monstrinhos” viciados em bolo. Ah! esqueci de dizer… às seis da tarde, a igreja do bairro toca todos os dias a Ave-Maria. Em alto e bom som. Sério. Sério mesmo. :D

e por aí, tudo bem? beijo, beijo! 

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Porque a delicadeza da voz dela acalma minhas “arrumações”

 C’était salement romantique – Cœur de Pirate

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Et moi étendue dans ce lit
Je contemple ce que je t’ai donné de ma vie

Eduarda, vem ver o rato!

Eduarda, vem ver o rato!

Eram umas 7h da manhã hoje, quando voltava pra casa, e entrei numa rua bem estreitinha. Num banquinho colado à calçada estavam uma moça e a filha. A menina, que deve ter uns quatro ou cinco anos, penteava os cabelos com um pente rosa, que tirou de uma bolsinha, também rosa. A cena me chamou a atenção porque estranhei as duas ali, tão cedo, mas, nada anormal – só um típico domingo entre mãe e filha.

Depois de passar o pente pelos cabelos, a menina arrancou um punhado de florezinhas de um canteiro e começou a andar pela rua. A mãe gritou: “Eduarda, aonde você pensa que vai?”. A menina respondeu: “Vou passear. Vem mamãe?”.  A mãe retrucou: “Nem pensar. Volte aqui, agora”. A menina: “Não” – e, continuou andando. A mãe, estranhamente, parou de esbravejar por alguns segundos. Depois, gritou mais alto ainda: “Eduarda, vem… vem ver o rato!”. Na hora achei a situação bizarra. A mãe, sem perceber, arrancou a filha do “conto de fadas” – com sua bolsa rosa, as flores, o passeio – para ver um rato que passava pela rua! Depois, me dei conta que minha mãe, meu pai, meus tios e, etc, também já me mostraram uma porção de “ratos” pelo caminho.

Por que estou dizendo isto? Porque foi só ali, diante da situação semigrotesca entre mãe e filha, que me dei conta do motivo de estar tão aborrecida esses dias. Pensei que era “só” pela chateação da mudança – com pedidos e mais pedidos de alteração de endereço, transferência de serviços, coisas que não funcionam, e etc. Burocracia sempre me aborrece. Mas, não. Acho que ando é com medo de tropeçar nos “ratos” que já topei pelo caminho.

Explico: quando sai daqui, desta cidade, deixei para trás uma série de hábitos que só tinha aqui, neste lugar, e, com as pessoas que convivia. Esporadicamente, me deparava novamente com eles, mas, logo retomava a rotina – quando voltava pra casa. Agora que minha casa é aqui, novamente, fico com medo de regredir os quase 15 anos que fiquei “ausente”. É pretensioso pensar que “evolui” e as pessoas daqui não? Claro que é. Mas, é preciso entender que não evolui junto com essas pessoas, então, minha “mente” está agarrada ao passado. Só tenho a lembrança de mais de uma década atrás, ainda preciso construir um presente novo, atual, alterado.

O medo não é que as pessoas não tenham dado um passo à frente. O medo é que eu volte quinze atrás – e torne a “enxergar ratos” que já deixei pelo caminho. Dá para entender? Mais ou menos assim: sabe quando você está se relacionando com alguém e não consegue deixar de agir de uma determinada forma porque o seu jeito, mais o jeito da outra pessoa, produzem essa maneira de ser? E, a “culpa”, afinal, não é de ninguém? Por aí. Então, as pessoas são ou não fruto do meio em que vivem? Dá para escapar?

Preciso urgente comprar uma televisão pra distrair a mente. ;) – dei a minha TV na mudança…

Tudo bem? ou surtando muito também? beijo, beijo

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.Porque foi a música mais tocada durante a madrugada

Suede – Saturday Night

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but it’ll be alright,
Cos tonight we’ll go drinking we’ll do silly things

Vida embalada

Vida embalada

“E, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade”
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas.

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Levantei essa madrugada pra tomar água, sai pelo lado errado da cama, e meti a cabeça na parede. Ganhei um galo na testa e um roxo no braço. Parte da adaptação à new home. Meus “velhos” quadros de Paris combinam com a “nova” cadeira-de-balanço-fantasma. Estão namorando pra ver se a relação dura. Preciso de estante para livros, de eletricista, de cortinas, de televisão, mesa de trabalho, telefone, internet. Comprei hoje um modem – enquanto a vida antiga não encontra o endereço atual – para acessar a web via wi-fi. Dois porteiros chamam-se “João” – o que facilitará muito as coisas em relação à minha constante amnésia quanto a nomes. O outro penso que é Raimundo, mas, já não tenho mais tanta certeza, acho que esqueci. O passado, de até sábado, ainda está embalado em caixas de papelão e empilhado na sala. E eu, que só tive tempo de montar a cama e o computador, me embalo na cadeira-fantasma para – finalmente – dar início ao ano e à vida nova. Mas, como cansa, não?

Toda mudança dói e faz doer. Antes fosse só fisicamente, né? E eu, que pensei que doeria mais “abandonar” os seis anos no apartamento anterior, não senti quase nada quando entreguei as chaves. Em compensação, ainda dói as “cabeçadas” pelas paredes novas. Do todo, uma palavra resume: e-x-a-u-s-t-ã-o! Mas, há de passar quando eu conseguir ajeitar as coisas em seus devidos lugares (espero que seja antes de terminar o contrato atual de aluguel! porque, olha, tá difícil! “Acho” que sou um pouquinho-inho desorganizada)

Por ora, enquanto isso não acontece, vou me familiarizando com os sons novos que vêm lá de fora.

e vocês? tudo bem por aí? Gostaram da cadeira? Todo mundo que viu, odiou…rs.. só eu adorei! :D

beijo, beijo.

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Porque a letra é perfeita para o dia de hoje (e sempre)

Coldplay – Paradise

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When she was just a girl
She expected the world
But it flew away from her reach
So she ran away in her sleep
And dreamed of paradise
Every time she closed her eyes

As meninas que moram em mim

As meninas que moram em mim

“Adoraria encontrar alguém que, como eu, amasse a noite, a chuva e a solidão.
Não para conversar, isso poderia incomodá-lo, mas para saber que não sou a única
a perambular assim no escuro” – Régine Deforges, em O Diário Roubado

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No vidro da estante do meu antigo quarto, aquele que passei a infância e a adolescência, tem uma montagem feita de papel com várias menininhas. Deveria ter uns onze, doze anos – no máximo – quando fiz e colei ali. Na época, foi uma briga danada porque o móvel era novo e minha mãe ficou uma fera. Engraçado que está colado até hoje lá. Lembro da minha avó ter pensado que as bonequinhas todas, tão diferentes, eram uma representação das minhas amigas de escola. Não escapei à pergunta: “e as sem carinha? esqueceu de desenhar, meu bem?”. Não sabia explicar direito estas coisas das incompletudes. Verdade é que até hoje não sei. Para facilitar a vida de todos, e satisfazer minha nona, assenti com a cabeça e disse que sim, eram as minhas amigas.

O que eu não disse foi que cada uma delas era eu. E que as carinhas “em branco” eram aquelas que eu ainda ia descobrir em mim. Porque sempre soube que existiriam outras. Vinte anos depois, as antigas ainda vivem “comigo” e, não obstante, sempre tropeço em novas por aí. Mas, como explicar tantas quando as pessoas pensam que somos apenas uma? Como ser tantas, quando a maioria quer e só sabe lidar (e idealizar) com uma única?

Incompletudes minhas, incompletudes doutros. E continuo, ainda, desenhando carinhas – só que agora em letras.

Muitos eus perdidos por aí? beijo, beijo! ;)

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Só porque lembrei dessa música e porque tem a minha musa Anna Karina
Pure – Me And The Almost Beautiful Girl

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O Outro fica sempre mais fascinante à medida que se aproxima do Eu - (René Girard)

Mais estranho que a ficção

Mais estranho que a ficção

“Conheço minha natureza e sei que as situações imprevistas e repentinas
me fazem perder todo o sentido” – Ernesto Sábato, em O Túnel 

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Lembram da casinha amarela? Pois, ocorreu um imprevisto daqueles que dizem que só ocorrem comigo, e, em resumo, não me mudarei mais para lá (não, não… nenhum problema com a família – foi comigo mesmo. Digamos que um causo envolvendo sexo, drogas e traição – a droga, nesse caso, trata-se do Lulu Santos). Depois conto com mais calma. Só que nesse meio tempo minha mudança já estava agendada… E, adivinha quem vai se mudar no dia 14 – sim, no próximo sábado – e, ainda não assinou um contrato de aluguel? Pois, a sem-teto que vos fala.

Viver às vezes cansa, né? Mas, nem tudo está perdido (espero!). Na última semana cheguei a ver muitas, muitas casas. Nenhuma delas chegava aos pés da minha casinha amarela (ora, por ser perigosa para uma srta que mora sozinha, ora por estar destruída, ora por não ter nada em volta, ora por eu não ter dinheiro suficiente). Brochei. Já estava pensando em morar na garagem da casa da minha mãe porque, né? O que fazer? Então que, milagrosamente, surge uma criatura em minha vida. Uma criatura com demência. Não, não é no sentido figurado não. É que na sexta-feira à noite esbarrei, assim, providencialmente, com a irmã de uma senhora que ficou impossibilitada – por problemas mentais – de morar só. E, o apartamento dela está fechado (com toda a mobília). A senhora-irmã perguntou se eu gostaria de ver. Na hora recuei porque é apartamento, e como vocês sabem queria muito ir para uma casa. Mas, o apartamento é no primeiro andar. Então, ok. Doce ilusão de ter quintal (leia: em estado de desespero, fui). E, digamos, que estamos quase lá para a conclusão do negócio.

A questão é, quando entrei no apartamento – no pequeno e improvisado escritório – tinha lá uma cadeira de balanço daquelas antigas. Minha irmã disse: “que horror, parece uma daquelas cadeiras de balanço de filme de terror”. E eu… bem, alugaria o apartamento só pela tal cadeira de balanço – com fantasma ou sem fantasma. O fato é que, não vou pra onde ia, mas, talvez vá para um apartamento cujos móveis me fazem sentir quase “digna”. Não sou muito desse tempo. Sei que é uma frase clichê, mas, gosto mesmo de coisas antigas. O desafio será juntar minhas coisas às dela (eliminar muitas! pela falta de espaço), e, atualizar um pouco. Mas, veja bem, no meu dicionário atualizar não significa modernizar, e, ontem, passei horas comprando coisas (da foto, algumas), pelo incrível mundo da internet, para a “nova decoração” – sem que, ainda, esteja tudo certo. Esta sou eu. Invertendo a ordem das coisas, para variar.

Um detalhe engraçado: neste mesmo prédio – antigo, antigo – morou minha “melhor amiga” de infância, no qual passei grande parte da minha vida “inocente” correndo pelo pátio. Achei “mais estranho que a ficção”, voltar para lá, nesta altura da vida. Mas, cito o filme, não por esse detalhe, mas, porque o apartamento da personagem é quase um projeto – ou desejo – da minha “atualização”. Então, separei um trecho – fofíssimo – do filme, para que vocês possam passear por lá. E, também, escutem uma música que adoro.

Se o contrato der certo – já que os imprevistos adoram me perseguir – acho que será uma experiência interessante. Morar em uma casa em que tudo tem um passado tão gritante, tão presente, que faz até a cadeira balançar sozinha (será? ai!). Fora isso, não tenho nada, absolutamente nada, embalado, separado, guardado para a mudança. Nada. Só sei que um caminhão virá às 10, do sábado. E, considerando que me mudarei daqui a quatro curtos dias, acho que ficarei um pouco atrapalhada, digo, atarefada esses dias. Perdoem-me se ocorrer um ligeiro sumiço.

De tudo isso, tenho de dizer que a semana começa estranha. Meu primeiro pensamento quando acordei foi: a última segunda-feira da minha vida nesta residência em que passei os últimos seis anos. Ou seja, melancólica por um lado, feliz por outro. Veremos qual prevalecerá! ;) Quando fico assim, vocês sabem, faço bobagens, tenho sonhos estranhos, escrevo de maneira hermética, e, como diz minha mãe, fico “indócil”. Neste “pacote”, está – sim – a tosa do meu cabelo. Chorei, depois, três dias de arrependimento, mas, agradeço aos amadíssimos (e competentes!) do Retrô Hair, que me deixaram, de novo, à la Chanel. (não, não teremos foto desta vez).

Ah, esqueci de dizer, o sofá da senhora-locadora-demente é roxo. R-O-X-O. E, claro que já tratei de me livrar do meu, comportado, para poder ficar com o dela. Só sei que já “amo” essa mulher. Ah, e vocês podem, por obséquio, torcer pra que tudo dê certo e pra que eu sobreviva a esta semana? Não peço mais nada em 2012 (mentira, of course).

Sim, volto quando tiver uma casa pra morar ou diretamente da garagem da minha mãe (ô, criatura exagerada!)

beijo, beijo

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Bora ouvir música boa e passear pela “decoração” do meu-quase-novo-apartamento

Whole Wide World – Wreckless Eric

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When I was a young boy
My mama said to me
There’s only one girl in the world for you
And she probably lives in Tahiti

Esta noite sonhei com J.Frusciante

Esta noite sonhei com J.Frusciante

“Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia” – Caio Fernando Abreu

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Esta noite sonhei com John Frusciante. Com uma das mãos apertava meu pescoço. Com a outra, trazia a palma da minha mão esquerda para perto de sua boca. Lambia. “É uma questão do miocárdio. Vou lamber teu coração e provar da tua vida”, sarcástico sorria. Imóvel, oscilante, eu buscava entender essa coisa toda do miocárdio.

Sabe-se que o coração tem o tamanho aproximado de um punho fechado. É oco. Oco… Mas, enche-se de vida, e tudo o que ela precisa, em 50 segundos. Funciona, assim, aos murros – bate em movimento coordenado. Nem mais, nem menos. Contrai, bombeia, relaxa. Contrai, bombeia, relaxa. Se mudar o ritmo, colapso, insuficiência, infarto.

“Mantenha o ritmo”, dizia Frusciante. Assim entendi. Eu também vou lamber teu coração. E, provar da tua vida. Em contrações e murros e lambidas. Das inclinações mais íntimas, só assim sei viver. Outro modo, colapso. Parada – cardíaca. Relaxa. Mantenha o ritmo. Nem tente de outro jeito. Porque eu vou lamber teu coração. É assim que vivo.

Esta noite sonhei com John Frusciante.

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Todo amor ao senhor John Frusciante, sempre

Red Hot Chili Peppers – Scar Tissue

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Sarcastic Mister Know-it-All
Close your eyes and I’ll kiss you ’cause
To lick your heart and taste you health
And with the birds I’ll share
This lonely view

Os dias todos

Os dias todos

A Pilar, até ao último instante (O Homem Duplicado, 2002) – A Pilar, os dias todos (Ensaio Sobre a Lucidez, 2004)
A Pilar, minha casa (As Intermitências da Morte, 2005) – A Pilar, que ainda não havia nascido,
e tanto tardou a chegar (
As Pequenas Memórias, 2006) – A Pilar, que não deixou que eu morresse
(
A Viagem do Elefante, 2008) – A Pilar, como se dissesse água (Caim, 2009)

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“A minha vida não seria aquilo que é hoje se não tivesse conhecido Pilar”. Quando se conheceram Saramago tinha 63 anos, Pilar del Rio 36. “Tanto que meus amigos diziam: vê lá o que é que vais fazer e tal, isso é perigoso, e tal”. Pilar nunca tinha ouvido falar em Samarago, quando leu o Romance Memorial do Convento. “A cada página, eu voltava atrás para certificar-me: é um contemporâneo, ai tinha a percepção de que estava diante de um clássico”. Em Lisboa, o primeiro encontro. A atração, a princípio intelectual. Os dois apaixonados pelo poeta Fernando Pessoa e pelo Marxismo. Seis meses depois, o reencontro em Sevilha. Às quatro da tarde. A hora está registrada em vários relógios da casa em Lanzarote. “É aí que começa realmente a minha segunda vida porque com 63 anos o que é que se espera que aconteça? Já não muita coisa”. Ficaram juntos por mais de 20 anos. “Eu, quando conheci o homem com quem me ia casar, soube que ia ser para sempre. Pela minha parte. E para muita gente, suponho que mesmo após 20 anos de casada, continuarei sendo uma jovenzinha, sem escrúpulos, que foi atrás de um homem mais velho. Para muitas outras pessoas, sou simplesmente Pilar”. “Eu tenho ideias para romances, e ela tem ideias para a vida. E eu não sei o que é mais importante. Pilar! Encontramo-nos noutro sítio”.

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Se você gosta de histórias de amor, por favor, veja o documentário José e Pilar. Se você prefere saber como um dos grandes gênios da literatura viveu, por favor, veja o documentário. Se você admira a simplicidade, veja o documentário. Agora, se você quiser entender realmente o que é a discrição tão necessária nestes tempos, por favor, veja o documentário. Se deseja entender o que é, para mim, viver “de verdade”, veja o documentário. Mas, se você tem ânsia por pessoas com opiniões próprias que não se furtam de dizê-las, ainda que seu país de origem passe a odiá-lo, por favor, veja o documentário. Se você gosta de exemplos de pessoas que são donas de sua própria vida e têm coragem de mudar, por favor, veja o documentário. Sobretudo, se você admira a dignidade, veja o documentário. E, além do vídeo abaixo, se quiser ouvir uma música portuguesa que gostei muito e está no filme, escute aqui.

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Eu sei que o ano está só começando, mas, não vejo outra coisa que possa me emocionar e me ensinar tanto e tão profundamente quanto esse documentário. Espero, honestamente, estar errada. Mas, duvido.

Amor – Trecho do Documentário José e Pilar

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“Ainda que pareça impossível, é este silêncio cheio de palavras não ditas que salva o que se julgava perdido. (…) Tanto na morte como na vida tudo é questão de ângulo” – José Saramago, em O homem duplicado

Pergunta capciosa

Pergunta capciosa

“A santidade não pertence à vida, foi inventada por variados inválidos que não eram capazes,
ou tinham medo de viver e, portanto, queriam torturar aqueles que sabiam viver” – (Ivan Klíma)

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Há encontros que são providenciais. Especialmente os não programados. Hoje, na Paulista, esbarrei com um amigo de anos – daqueles que me acompanhava pela noite em São Paulo e dançava em gaiolas de boates porque, pra ele, criatura gay, isso era bafão – e, pra mim, que por um erro de fabricação não nasci gay, era só mico. Whatever. E como nos divertíamos! A noite só terminava na rua Frei Caneca, quando entrávamos na Lôca ou “curtíamos” uma calçada.

Nos tornamos amigos por acaso. Numa noite no finado Clube Massivo, quando me abordou na fila para entrar. Ele, aspirante a cabeleireiro que não sabia diferenciar uma tesoura de uma navalha, um pente de uma escova, me “adotou” pelos meus longos cabelos pretos. Tinha mania de me transformar em Elvira, a rainha das trevas.  “Combina com sua personalidade” – argumentava. E eu, eu ria. Agora, me disse, ganhou status de hair style. Para mim, continua a mesma criatura querida de sempre – talvez, um pouco mais competente que há anos.

Depois de nosso papo e muitos cafés (é, o tempo passa!), me fez uma pergunta ardilosa – daquelas que já sabe a resposta. Perguntou: ”Elvira, você ainda está aí?”. Me fingi de desentendida, e ele voltou a perguntar: “se você vive uma vida que não quer mudar – porque gosta do que vive – mas, essa vida te faz perder parte do que você é – aquilo que realmente te faz viva – o que você faz? Se abandona, abandona a vida atual que gosta e te faz bem, ou, se permite viver ambas?” A pergunta é capciosa porque ele sabe que “abandonar” a vida que tenho hoje não está em questão, simplesmente porque não quero. Em contrapartida, essa vida não me permite ir além de coisas que são inerentes a mim. Em outras palavras, me inibe de experimentar mais. Me abandonar – em nome dessa vida e do que “as pessoas esperam” não é uma possibilidade concreta, e sempre me fez mal. E, quando tentei adoeci.

Restou a única alternativa com a qual sobrevivi até hoje: viver ambas as situações ainda que pareça – para muitos – “errado”. E, não me refiro a sexo. Antes fosse “só” isso. Me refiro a tudo. Sou uma senhorita ”de família”, que passa horas para preparar um carré de cordeiro no réveillon porque ama cozinhar. Que tem relacionamentos longos e felizes, que ama sua família e vive tranquila e em paz com a maioria das pessoas. Mas, que também adora experimentar a vida no que ela tem de mais inusitado – ou, como diriam outros, “grotesco e absurdo”. Como conciliar essas duas “vidas”? Há quem acredite que não é possível. Eu, ainda, estou tentando. Ora mais para um lado, ora mais para o outro. Mas, não consigo “abandonar” nenhuma das duas vidas, e, muito menos me abandonar.

Eu disse ao meu amigo: sua pergunta é capciosa, é uma provocação. Ele respondeu: “hã? capciosa, maliciosa, provocadora que adora levar às pessoas ao “erro”, às contradições, sempre foi você. Hei, Elvira, você ainda está aí?”.

Hoje fui caminhar na Paulista, pensando em encontrar “os outros” e acabei encontrando a mim. Pelo menos, uma grande parte minha. Há um trecho do livro do Ernesto Sábato, que li em dezembro, que diz assim: cada vez que Maria se aproximava de mim em meio a outras pessoas, eu pensava: “entre este ser maravilhoso e eu há um vínculo secreto”. A “Maria” – neste caso – sou eu. O “eu” que tenho abdicado muitas vezes nos últimos tempos, mas, que está sempre aqui porque temos um vínculo indissolúvel, inerente, e secreto. Meu 2012 será dedicado a recuperar a “Elvira” que mora em mim. E, sinto muito, como disse o escritor Ivan Klíma no trecho acima, quanto aos inválidos que não são capazes ou têm medo de viver. Vocês não me torturam. Afinal, para mim, a santidade também é uma invenção.

E assim começamos mais um ano. Cheio de perguntas capciosas – como não poderia deixar de ser aqui neste sítio. Você passa por esse conflito de viver duas (ou mais) vidas? Repito a pergunta do meu amigo: “se você vive uma vida que não quer mudar, mas, essa vida te faz perder parte do que você é, o que você faz? Se abandona, abandona a vida atual que gosta e te faz bem, ou, se permite viver ambas?”. 

Ah, sim… parte do projeto “O resgate do soldado Ryan, digo, Elvira” é que a criatura “Edward mãos de tesoura” picote meu cabelo. Só espero que ele não me transforme num poodle. De resto está valendo ;)

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos… beijo, beijo (5h27 da madrugada, e, nada mudou quanto à insônia!)

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Porque ela diz tudo o que precisa ser dito, agora.

 Lana Del Rey – Blue Jeans

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Big dreams, gangster - He went out every night
And baby that’s alright - I told you that no matter
What you did I’d be by your side
I will love you till the end of time
Whether you fail or fly - Cause I’m a ride or die