Arquivos Mensais:dezembro 2011

Por que os detalhes me emocionam

Por que os detalhes me emocionam

“Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade de nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes” – (Machado de Assis)

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Terminei essa semana a leitura de um livro do Ernesto Sábato, em que o personagem principal diz assim: “os detalhes me emocionam, não as generalidades”. Não teria frase melhor para fechar meu ano e começar este texto. São os detalhes, sem dúvida, que me emocionam mais. Pouco me importa se a pessoa faz isso ou aquilo, se seu nome é A ou B, se usa a moda da última estação ou farrapos. Tudo isso, para mim, são generalidades. Gosto mesmo dos detalhes, daqueles que fazem a pessoa ser como ela é.

Para esse último post do ano, seria fácil – muito fácil! – despejar aqui todas as coisas ruins que me aconteceram em 2011 (e, garanto-lhes que não foram poucas). Foi um dos anos mais difíceis que já tive na vida. Mas, assim como a personagem de Eleanor Porter, prefiro (e sobrevivo!) sendo Pollyanna, com o seu “jogo do contente” – no qual busca encontrar algo de positivo para qualquer situação que se viva. Então, com exceção de dois ou três tópicos (que julgo que foram muito representativos para mim), o restante da minha “retrospectiva de 2011” só traz as coisas boas. Sobretudo, as coisas que não devem ser esquecidas. As coisas ruins, sem serventia, vão ficar bem enterradinhas no passado porque é coisa morta, e eu – definitivamente – não sou um cemitério ambulante.

Minha retrospectiva, mais do que restaurar “o passado” para corrigir a “edição” recente de minha vida – como sugere Machado na citação acima – vem mesmo é tocar nos afetos – para não esquecê-los e melhorá-los na “edição” do próximo ano. Detalhes que cercaram o meu 2011, e, essencialmente, fizeram o que sou hoje – para quem sabe, formarem um “eu” melhor amanhã. Vamos nessa? Me conta algum detalhe “pollyanna” do seu ano também? Os meus, olha que coisa incrível, são muitos (mesmo em um ano ruim). Aliás, que ano ruim? It’s over. ;)

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Uma conquista: vencer, por ora, a depressão. Melhor terapia do ano: caminhar pela Avenida Paulista, sempre, e sem pressa.  A melhor festa: a de reabertura do Theatro Municipal de SP. O livro que mais gostei de ler: O Poder da Arte, do Simon Schama. O restaurante favorito: Vicolo Nostro Ristorante (ainda, e desde 2006). Um amor constantemente renovado: por meus pais e minhas irmãs. Companheirismo: meu namorado (six years, dear!). Paixão sem fim: Minha filhota lhasa apso. Uma meta alcançada: eliminar duas manias que trazia desde a infância. Uma exposição: Lugares, estranhos e quietos (fotografias de Wim Wenders). Filme que vi e mais gostei: Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders. Uma ausência a ser equacionada: viagem de férias. Vinho preferido: Tinto Chileno Montes Alpha Carmenère – safra 2007. Uma alegria offline: conhecer, pessoalmente, o Andarilho – que me atura virtualmente desde 2007 e amo de paixão. Uma saudade: meu avô paterno. Um medo: a diabete e o coma da minha irmã mais nova. Uma pessoa que nunca será esquecida: Sérgio de Biasi. Outras que admiro e também partiram: Ernesto Sábato; Moacyr Scliar, Sergio Britto, Jack Kevorkian; Thomaz Farkas, Ítalo Rossi; Elizabeth Taylor, Amy Winehouse; Presente que mais gostei da ganhar: Caixa Photo Poche, da Cosac Naif (Box com cinco livros que trazem imagens e biografia dos fotógrafos: Henri Cartier-Bresson, Man Ray, Sebastião Salgado, Helmut Newton e Elliott Erwitt). Thanks querido Ric!  Um momento gracinha: “apresentar” comida japonesa para o Eder Albergoni (por “apresentar”, leia: “obrigá-lo” a comer). Séries de TV: House e Dexter. Uma necessidade: dormir melhor. Uma descoberta: posso (e, continuo tentando) ser mais “social”. Um aprendizado constante: desapego, desapego e desapego – de coisas, de pessoas, e sentimentos que não me fazem ser melhor. Uma maluquice: ter o cabelo de quatro cores diferentes, em menos de 10 dias. Um orgulho: nunca, mesmo em anos ruins, abandonar a leitura. Um sonho pouco realizável: ter tempo (e dinheiro!) para poder escrever ficção. Maturidade: evitar (já é um começo!) qualquer tipo de autodestruição, especialmente no quesito “bebida”. Uma vontade: chocolate, ever. Um bloqueio (ainda): ligar/atender telefones, responder emails. Uma qualidade: generosidade. Três defeitos: impulsividade, inconstância e desorganização. Admiração, agradecimento e respeito: a todos os que veem aqui no blog dividir um pouco de suas vidas comigo. Quero: cozinhar mais (que adoro). Não quero: engordar (risos). Um tesão: um? Nem pensar: vários (mas, não conto! Descubram…). A melhor notícia musical do ano: A volta do Mazzy Star.

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Por isso, fechamos este post e 2011 com uma das melhores coisas da vida, que é ouvir música. Ah, sim, e não se esqueça de ser ridículo também durante o Ano Novo, porque no Natal se é ridículo coletivamente (com essas coisas de família e etc), e no réveillon individualmente (com aquele monte de listas e desejos). Permita-se. Depois temos um ano inteirinho pela frente para viver as chatices e tropeços da realidade! ;)

Beijo, beijo! e, FELIZ ANO NOVO.

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Mazzy Star – Common Burn

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Simple things like you over cold round your beauty
That stay and burning me
Love me hang around even if it’s just some way to have
Some common burn… A common burn

(im)Perfeições da paixão

(im)Perfeições da paixão

Aos onze anos, minha família mudou-se de endereço e fui obrigada a ir também. Logo, sem amigos em um bairro desconhecido e em tempos que não existia internet, precisei arrumar algo para me ocupar e matar o tédio proporcionado pelas férias escolares sem viagem. Papai tinha investido todo o dinheiro na mudança e, com isso, não tivemos as semanas de praia como ocorria anualmente. Não ficaria aborrecida se tivesse algo para fazer. Não tinha. Foi então que decidi, intencionalmente e pela primeira vez, que iria me apaixonar. Assim, como se o amor e a paixão fossem uma questão de escolha. E, não é que a ignorância é mesmo atrevida? Bolei um plano.

Passaria horas na calçada da casa nova observando a rua, onde muitos pré-adolescentes como eu brincavam, e assim escolheria a criatura pelo qual me apaixonaria. Fiz uma lista de qualidades e afinidades, e, com o decorrer dos dias e das amizades que surgiam naturalmente, ia ticando os atributos comparando os “candidatos”. Quase um mês depois, metade das férias tinha ido embora, e nada da tal paixão surgir. Não era um problema com os garotos ou, até, da minha lista – nunca fui muito exigente mesmo – mas, simplesmente não sentia. Até que um dia aconteceu.

Estava jogando vôlei, já totalmente adaptada à turma da rua, quando um fusca verde que tocava uma música estranha atrapalhou nossa brincadeira. Tivemos que desmontar a rede improvisada e amarrada a postes, para que o carro pudesse passar. Dentro do fusca verde, vi um homem que achei esquisito. Tinha um cabelo comprido, meio bagunçado – à la Eddie Vedder – e tatuagens no braço. Nunca tinha visto alguém tatuado e, tendo como única referência a televisão, pensei se tratar de um desses fugitivos da polícia. Era final dos anos 80 e tatuagem ainda não era moda e nem fazia parte do “vestuário” da classe média. Senti certa inquietação, medo talvez.

Enquanto os meninos desmontavam a rede, o homem desceu do carro e destruiu minha fantasia e expectativas bandidas, porque sorriu, brincou com um dos meninos de forma engraçada e o ajudou na tarefa de desmonte. Sentada na calçada observava hipnoticamente o sujeito – que logo entrou no carro, ligou o rádio, buzinou duas vezes e foi embora. Bastou: estava perdidamente apaixonada. No outro dia, fiquei a postos no mesmo horário para ver se o homem passava. Passou, mais tarde que o dia anterior, mas, sequer me importei com a quantidade de horas que tinha ficado “plantada” na calçada. Depois de dois, três dias, comecei a dar tchau. Passei a gritar “oizinhos”. E, roubei o batom vermelho da minha mãe para chamar a atenção do homem do fusca verde que morava na rua paralela à minha. Nada funcionava. Não me passou à mente a questão de eu ter 11 anos.

Pensei que, talvez, ele tivesse uma lista para se apaixonar também. E que minhas características não atendiam às suas exigências. Mas, me dei conta que em minha lista não constavam tatuagem, fusca verde, cabelo bagunçado, e, Rolling Stones (que ele escutava no rádio do carro e que só depois vim a saber do que se tratava aquele “barulhão”). Como podia? Ele não estava em minha “lista”, mas, eu estava apaixonada. E, o ritual da espera prosseguia. Tinha decorado o horário que ele voltava do trabalho e, se duvidar, reconhecia até o ronco do motor do carro. O dia que ele não passava, ficava angustiada. Descobri que esse bichinho chamado “paixão” era bem impaciente.

Num sábado, o homem do fusca verde passou e perguntou: “sozinha menina?”. Balancei rapidamente a cabeça em consentimento, e, nervosa, as palavras não saiam. Era a primeira vez que ele falava diretamente e só para mim. Toda a turma estava no aniversário de um dos amigos, e eu não quis ir para esperar o fusca verde passar. Consegui responder em uma frase mal construída que não tinha ido ao aniversário, no qual todos estavam, porque tinha me atrasado. Ele perguntou o meu nome. Na resposta atrapalhada disse: “estou apaixonada por você”. O homem do fusca verde abriu um sorriso largo. “Apaixonada?”. E eu, com o rosto queimando de vergonha, disse que sim.

Nos dias seguintes, eu continuava à espera – não mais “plantada”, mas, “concretada” mesmo – e ninguém me tirava de lá. O homem do fusca verde passava, falava oi, me dava tchau e eu me sentia a mais importante das criaturas. Um dia, ele parou o carro e pediu pra que  entrasse – entrei. Não pensei duas vezes. Escapuli da minha casa – sem que minha mãe sonhasse e fui com o “amor da minha vida” (eu sei, eu sei… se fosse hoje não teria tanta sorte de contar essa história). Na época, lembro que pensei: “Pronto! Ele está se apaixonando por mim também”. Obviamente, não era o caso. Ele me levou na sorveteria da esquina. Disse que tínhamos um “problema de amor” a resolver porque éramos muito diferentes. Um querido. Nunca disse que era por eu “ser criança”. Apenas que éramos diferentes. Então, tive certeza que ele tinha a tal listinha e eu não atendia suas expectativas. Assim como ele não atendia as minhas… mas, ora, eu estava apaixonada. E, continuei, intensamente, por mais duas semanas – até que as aulas recomeçaram. Como “mágica” a paixão desapareceu e eu nem me lembrava mais do homem do fusca verde.

Por que me lembrei dessa história? Há alguns dias a querida @tatysousa me sugeriu escrever um texto sobre os motivos que levam alguém a NÃO se apaixonar. Assim como na adolescência, fui lá fazer minha listinha (ainda que mental) das razões pelas quais não me apaixonaria por alguém ou pelas quais decidiria, de maneira voluntária, não me apaixonar. Passei dias pensando nas “espécies” que passaram pela minha vida, mas, que me ensinaram (ou, pelo menos, me deram pistas) do que não gostaria. Mas, me dei conta que tudo isso não passa de um desejo. Porque, creio, não há ensaio para a paixão. Talvez haja para o amor, que pode acontecer de diferentes modos e tempos, mas, não para paixão. Você pode ter a mais perfeita das listinhas, pode saber exatamente o que não quer, e se apaixonar justamente pela lista – só que àquela oposta aos seus desejos.

Como isso acontece? Não tenho a mínima ideia. Se soubesse, explicaria a mim mesma como foi possível me apaixonar (e, até, amar) pessoas tão diferentes umas das outras. Quase “casei” com um cientista da computação que amava uma coisa chamada Delphi, que até hoje não sei o que é – mas fingi entender por quase cinco anos. Desenvolvi uma paixão por um músico-erudito-vegetariano que odiava, além de carne, açúcar (e eu sou a “formiga” em pessoa) – e, claro, por uma questão de “incompatibilidade gastronômica” a paixão durou pouco. Passei uma boa parte da juventude com um jovem que atendia pelo apelido de “Cachorrão” – mas, que era o mais bocó das criaturas, e, só era “mau” na hora que estava com sua guitarra (também músico, só que neste caso, de rock). E o bom moço expert em web? (oi, F.Luiz!). Temos… Professor? Publicitário? Agente Penitenciário? (pois é – um dia preciso contar essa história aqui). Ah… também me apaixonei por uma advogada (sim, você não leu errado – nem pelo gênero, nem pela profissão). E uma pessoa amada que me fez pensar em largar tudo para casar no Açores… Yeap.

Além daqueles clichês que repetimos sempre, eu não sei direito o que faz alguém a não se apaixonar. Será que isso realmente é uma escolha? Será que conseguimos “neutralizar” a paixão por alguém, ou que conseguimos bloquear a paixão quando ela acontece? E, principalmente: será que conseguimos evitar que ela aconteça? Tenho minhas dúvidas. A mim, nunca aconteceu. Sou visceral nestas coisas. Se me apaixono, estou perdida. Entro no “fusca verde” – tal qual como na minha adolescência – e vou-me embora para Pasárgada, como diria o mestre Manuel Bandeira.

Como fui incapaz de atender a solicitação da querida Taty (sorry, dear!), vocês poderiam me ajudar? O que te faz não se apaixonar por alguém? Você acha que isso pode ser uma escolha? Já decidiu, assim, voluntária e conscientemente, não se apaixonar? Digam-me tudo, não escondam nada… Eu e a Taty agradecemos ;)

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Tudo bem por ai? Como foi o Natal “ri-dí-cu-lo” de vocês? O meu foi conforme o script da família. Ou seja (melhor nem comentar!). Gravei – em som – algumas das nossas performances no karaokê, mas, de tão, tão ridículo não tenho coragem de postar aqui! Ufa, alívio… será um sinal de que ainda me resta um pingo de sanidade?!

Beijo, beijo! preguiçosos porque ando numa preguiça danada!

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Porque é o que toca agora, apaixonadamente, às 3h29 da madrugada desta quarta-feira

Cat Power – King Rides By

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If time had a place,
And space for your past.
Like a little novel,
I wanted to read again and again,
Would i be in your novel?
Would i begin and end in it?

Por favor, seja ridículo neste Natal

Por favor, seja ridículo neste Natal

Como muitos sabem, não sou muito chegada nestas coisas de Jesus de Nazaré, Santa Trindade e afins. Nada contra Jesus. Na-não. Cada um tem o Jesus que deseja ter. É que, criada e adestrada no catolicismo, desde cedo eu e Jesus não nos entendemos muito bem. Porque né, com menos de um ano de idade, eu só sabia falar (além de papai e mamãe) as palavras Jesus – coisas de vovó (não, não a do vibrador – é a outra), e, Bunda Mole – uma meiguice do meu pai que me chamava assim desde muito pequena. (Trauma? Imagina!). O resultado foi que minha primeira frase completa na vida sucedeu durante a missa das dez do domingo, na cidade onde nasci, quando no salão silencioso ecoou – dizem as testemunhas presentes – um “Jesus, bunda mole”. Pois. Nada a declarar.

Depois do episódio e sendo arrastada pela orelha durante anos e anos – de maneira sagrada, of course – para a missa semanal, desenvolvi certa resistência aos feriados cristãos (questão de sobrevivência). Torcia o nariz para todos eles, inclusive para o Natal. Lembro que por dois, três anos seguidos – e, bem recentemente, o querido Marcelo passava a madrugada de Natal comigo no MSN para que eu não ficasse sozinha (sempre obrigado, dear!). Um amado. Minha mãe queria morrer com minhas ausências. Meu pai queria me matar mesmo. E eu batia o pé e não ia dizendo que me sentia “inadequada” com aquela coisa toda.

Continuo me sentindo totalmente inadequada nestas ocasiões. E minha relação com Jesus não melhorou nadinha. Mas, uma coisa mudou. Passei, os últimos anos, a frequentar o Natal em família. Não só frequentar como gostar. Além de deixar meus pais felizes (o que é sempre muito bom), treinar meus talentos artísticos como atriz, posso também comer muitas comidas gostosas (ao que se preza toda porpetinha), e, especialmente, ser muito, mas muito ridícula. Tipo passe livre, sabe? E, não faltam oportunidades para ser ridícula no Natal.

E daí que a Avenida Paulista está parecendo Las Vegas? É brega, né? Putz! Mas, olha lá o sorriso da criançada (e, das crianças grandes também)… Ás vezes, por motivos que valem mais, é bacana ser brega. E daí que sua mãe e tias contarão na presença de todos, pela enésima vez, os podres da sua vida pregressa? Elas vão falar do mesmo jeito, então, o negócio é falar da vida delas também! E rir, rir muito. E daí que seu pai te obriga a rezar o pai nosso durante a ceia quando você nunca lembra a tal da oração até o final e fica mugindo feito uma vaquinha de presépio? Ele sempre fica orgulhoso por achar que me lembro. E daí que seus primos sempre ficam bêbados e acabam te empurrando à força pro maldito karaokê que instalam na sala e você acaba cantando “Fogo e Paixão”, do Wando?

É ridículo? Muito ridículo! Mas, é bom – vez ou outra – ser ridículo. Quebrar a couraça do “super adequado” para ser patético. Aprendi a me divertir muito nestas situações. Não por causa do Jesus Bunda Mole, ou da histeria consumista – que odeio-, ou ainda das promessas e reconciliações cristãs. Não. Me divirto quando vejo meu pai rindo, minha mãe falando uma bobagem atrás da outra, minhas irmãs vestidas de coquete, as crianças (as poucas que ainda circulam pela minha casa) grudadas em seus presentes e lamentando mais uma vez terem dormido enquanto papai Noel apareceu, e, a satisfação das vovós quando devoramos as gostosuras que elas passaram dias preparando.

Ridículo? Claro! Mas, por favor, sejam ridículos neste Natal e riam muito. Esqueçam a (in)adequação (no qual perdi muito tempo na vida), os pudores, as vergonhas, os constrangimentos e as breguices familiares. Uma, duas, três vezes por ano vale a pena.  E ser adequado sempre é chato demais.

Então, desejo muitas coisas ridículas e bregas por aí! ;)  Estou na correria… com a minha “performance”!
Mas, deixo meu sincero e ridículo desejo de boas festas e beijos a todos.

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O Natal ainda não chegou mas já estou ensaiando minha apresentação-familiar!
Será que fará sucesso?! (não, não precisa responder…rs)

Devendra Banhart – Baby

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Baby… I finally know what im going after
I’m learning to let in all the laughter
Holy Moley you´re so funnny
You Crack me up, you crack me up

Look out for dreams that keep returning
‘Cause magic ain´t no hand-me-down yearning
You feel it, you want it, the way I want you babe

Querido diário,

Querido diário,

Certas coisas é melhor não falar para ninguém, né? Mas, como você é meu confidente desde 1985, e temos um caso de amor daqueles de tirar o fôlego e a calcinha, resolvi contar só para você que estou com problemas para comprar os presentes de Natal da família. Veja: liguei para a mama e disse que este ano daria somente “presentinhos safados”. Entenda: coisas não muito caras, dessas compradas na primeira lojinha da esquina. Afinal, estou falida. E, ela imediatamente me responde: “graças ao bom deus”.

Muito, muito estranho querido diário. A mama nunca foi de recusar bons presentes – e por que comemoraria? Resolvo (mesmo sabendo dos riscos) perguntar à criatura qual o motivo do alívio. Sabe o que ela teve a audácia de responder? “Já bastam os presentes safados do ano passado”. Fiquei ofendida, querido diário, magoada mesmo. Pelo que me lembro comprei presentes bem “decentes” em 2010. Retruquei e respondi: “comooooooooooooooo assimmmmmm?”. Ela sugeriu que eu ligasse para alguns dos presenteados: a senhora minha avó, a senhorita minha irmã, e, o senhor meu cunhado. Foi o que fiz querido diário.

Então, liguei no celular da minha irmã do meio – que mora com minha mama. Pergunto a ela: mamãe disse que você não gostou do presente do ano passado, que foi bem safado. É verdade?. Ela responde: imagina! Desde quando um notebook é safado. Acho que mamãe estava se referindo a outra coisa, ao “todo meu” . Todo meu? Que será isso, querido diário? E ela diz: ah, é um cara aí da Espanha que converso no notebook pelo MSN e usa o apelido de “Todo Seu”. Digo a ela, querido diário: ah, então mamãe não gostou desse tal de todo seu, todo meu? Ela responde: Ah, é que um dia ela entrou aqui no quarto e o idiota mostrou o “pinto” pra ela na webcam…

Desliguei. Resolvi ligar, querido diário, para o meu cunhado, que é o sujeito mais amável da face da terra. “Alô? Então, é verdade que você não gostou do presente que te dei o ano passado?” Ele me responde: não, não adorei aquele jogo! Super! O problema foi o perfume que você deu pra sua irmã. Respiro fundo, querido diário, e pergunto: mas, por quê? Ele diz: é o mesmo perfume que minha ex usava, e, fico lembrando da outra quando estou fazendo sexo com sua irmã e ela está usando o tal perfume. Antes de surtar, tomei um gole de água, e, finalmente tive a coragem de perguntar: e você contou isso para a minha mãe, que é SUA SOGRA? Ele disse: ah, ela é minha amiga…

Querido diário, depois dessa só me restou ligar para a minha sagrada avozinha. Ela, com certeza, não me assustaria desta forma. “Vovó, no ano passado a senhora tinha me dito que estava com muitas dores no pescoço e ombros, e, eu resolvi te dar um massageador de natal. Tá lembrada?”. Estou, meu bem. E adorei! É ótimo!

Que alívio, querido diário, pelo menos minha mãe estava equivocada em pelo menos uma das situações. Pergunto toda feliz e com ar cúmplice que tenho com a vovó: acredita que a mama disse que a senhora não tinha gostado, e, que tinha achado o presente safado, baratinho? Sabe o que ela me respondeu, querido diário? “ah, é isso? É que fui no médico porque estava com dores lá na perseguida, sabe? Coisa de “secura da idade”. E, ele me recomendou comprar um vibrador, pra estimular as coisas por aqui, mas, tenho vergonha de entrar nessas lojas aí de sex shop. Lembrei do seu presente”. E funciona, vó? “Vibra que é uma beleza, minha filha”.

Querido diário, medo…muito medo da ceia de natal deste ano… E não quero mais comprar presente pra ninguém! :(

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Descobriram um planeta novo essa semana, né? Alguém pode me levar pra lá? Agradecida… E, depois, me perguntam porque sou maluquete. Com uma família dessas quem precisa de mais? Ah, sim, claro… e se alguém contar pra eles que escrevi isso aqui, nego até a morte… pode mandar tortura chinesa, coreana, bomba atômica ou Luan Santana! nego até a morte!  #vergonha. À propósito: alguém quer me adotar? Tô aceitando…

beijo, beijo… espero que as compras por aí estejam mais calmas que as minhas! ;)

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Uma das antigas que amo…

The Smiths – How Soon Is Now?

I am the son
And the heir
Of a shyness that is criminally vulgar
I am the son and heir
Of nothing in particular

A criatura teme

A criatura teme

“Não se trata de escrever para os outros e sim para si mesmo, mas a gente mesmo tem que ser
também dos outros; tão elementary, my dear Watson” - Julio Cortázar, em Um tal Lucas

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Essa semana minha irmã mais nova esteve aqui, in my sweet home, para vistoriar meu guarda-roupa em busca de um vestido de festa, que ela precisava usar em uma formatura, mas não queria comprar. Quem me conhece sabe que este é um dos meus maiores pesadelos. Ter alguém revirando minhas gavetas, armários, espaços. Nenhum apego a coisas. Pelo contrário – não tenho apego nenhum. Só receio de alguém entrar em meu pequeno mundo e encontrar rastros e vestígios de quem sou. E, assim, me botar um espelho na cara, ainda que com palavras. Mas, minha irmã caçula tem 16 anos, é capricorniana mandona, e me bota um medo danado. Não tive escolha.

Ela levou três vestidos. Só tenho quatro para ocasiões de festa. Antes de sair, ela me disse: “que horror, você – das meninas – é a que tem menos roupa”. As meninas, no caso, são minhas irmãs – somos quatro. Pronto! Ela conseguiu, com essa frase, empurrar o espelho bem na minha frente. Lembrei que há dois anos fiz uma “limpeza”, e, dei mais da metade das roupas que tinha. Para quem lia, na época, coloquei aqui no blog. A “desculpa” era que queria roupas novas. A “verdade” era que queria mais espaço. Quando, essa semana, fui ver o que tinha feito com o espaço, me surpreendi. 3/4 do armário tem livros, e no pobre 1/4 que restou, pouquíssimas roupas.

Aproveitei, achando que seria fácil, e faria uma “limpeza” também nos livros – já que vou me mudar e preciso me livrar de muita coisa. Coloquei todos os livros que moram em meu guarda-roupa, por não caberem mais nas estantes aqui de casa, no sofá. Separei, revirei, olhei. E não me desfiz de quase nada. O resultado: agora não tenho mais sofá. Porque preciso encaixotar os livros, e, seria estupidez guardar tudo de novo no armário. E, ontem, me peguei dentro do seguinte cenário: jantando, sentada no chão, com uma pilha de livros servindo de apoio para o copo. O que me fez pensar: que medo, vivo às avessas – com prioridades invertidas… Mas, afinal, o que é prioridade? Porque para mim, certamente, não é o que é para a maioria. E isso me dá medo, sempre. Seria mais fácil se minhas “prioridades” fossem mais parecidas com as das pessoas ao meu redor. Mas, não são. Os “espaços” da minha vida são ocupados de maneira caótica, aparentemente (para os outros) sem sentido. Seria simples demais pensar que pouco importa “os outros”. Mas, no fundo vivemos sempre “com ou ao lado a outros” – ainda que se more só, como eu. E, sempre há espelhos – mostrando o “outro que somos” – cruzando nosso caminho por aí. Complicado, né?

Então, me diga: alguém que tem mais livros no guarda-roupa que calças, saias, blusas, vestidos, etc: é: (1) uma mal-vestida (2) uma sem-vergonha que se continuar assim terá, muito em breve, de andar pelada (3) alguém com prioridade às avessas, sem noção da “realidade”, e que precisa ser internada? ;) (please, não me diga “inteligente” – porque realmente não é o caso. Inteligência, acima de tudo, é saber viver com equilíbrio e passo bem longe disso).

I dont know. But i dont care. O que me faz temer mais ainda… (sim, eu sou uma contradição ambulante)

Beijo, beijo – alguma prioridade às avessas por aí também? 

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Porque sempre tenho vontade de me aconchegar nos braços do sr. Vernon

Bon Iver – Creature Fear

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So many foreign worlds
(So relatively fucked)
So ready for us
 The creature fear

O abismo entre olhar e enxergar

O abismo entre olhar e enxergar

Entre a multidão o moço pergunta: você está sozinha, não é? “Sim”. Ele: Tão tímida… com olhar perdido. Estava ali, te observando. Também vim sozinho. “Não sou tímida, sou quieta – com estranhos”. Parece tímida, com esses olhos grandes e jeito de menina. “Nem tímida, nem menina. Mas, gostei de você”. Eu também gostei de você.

Na fila do caixa, já na saída, um outro diz: você está sozinha? “Sim”. Está de carro? “Não, vou voltar de táxi”. É o nosso dia de sorte. E, você vai economizar porque vou te levar pra casa. “Oi? Não vai acontecer. Mas, muito obrigado pela oferta”. Você é tímida? “Sim, sou muitíssimo tímida”. Ah, tá. Que pena.

Muitas pessoas têm olhos funcionais, mas não enxergam nada. Inclusive eu, às vezes.

“Olhar enxergando” é sempre melhor, ainda que doa. Então, bora começar a segunda-feira vendo o mundo?

Beijo, beijo – boa semana! e, agora com cabelos em variados tons de marrom. Red is gone…

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Porque, com essa história de cabelos vermelhos, me lembrei do filme – que amo – e,
com isso, da música – que sou igualmente apaixonada.


Beck – Everybody’s Gotta Learn Sometime

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Look around you
Change your heart
Will astound you

Imprevisibilidades

Imprevisibilidades

Então que você começa o dia com longos cabelos pretos e termina assim: cabelo de fogo. Como isso aconteceu? Junte uma dose de tédio corriqueiro, outra de maluquice natural e algumas (muitas) taças de vinho. Pronto. É assim que tudo acontece em minha vida. Sei como começa o dia, mas, nunca sei como terminará. Sempre imaginei que, com a idade, essas “imprevisibilidades” amenizariam um pouco. Mas, a idade chegou e nada. Nem sei se isso é bom ou ruim. Só sei que fui parar às duas da manhã no Bixiga para ouvir o bom e velho rock n’ roll do Café Piu Piu. E olha que convidei uns dez amigos pra me acompanhar e “proteger” a donzela. Mas, os guardiões não podiam. E, a criatura dos cabelos de fogo (já posso ir pro inferno, né? O figurino está adequadíssimo) foi mesmo assim. S-o-z-i-n-h-a, pra variar. E, neste momento, 07h31, em que cheguei em casa a poucos minutos atrás – assim, meio de pilequinho, meio sóbria – só consigo pensar em como me livrar desse cabelo antes que os meus convidados para o almoço cheguem. Seria muita explicação a dar. Ou seja. Shit. E há quem ainda ache que devo casar… Dá certo não.

e, com licença que vou ali, na farmácia, comprar uma tinta pro cabelo ou uma navalha pra cortar os pulsos.

beijo, beijo – dia/noite agitados por aí também? ;)

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Apesar dos cabelos vermelhos, ir ao Piu Piu é sempre muito divertido…

Rockover – Café Piu Piu

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“Por aí” – e o delírio do cotidiano

“Por aí” – e o delírio do cotidiano

“A sensação é de que tudo é pensamento, mesmo o que há de mais impreciso” - Dostoiévski 

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Meu pai sempre teve uma mania. Quando sumia e não queria dizer onde estava, e alguém perguntava, ele respondia: “por aí”. Onde o senhor estava? “por aí”. Aquilo sempre me aborreceu porque – como toda menina agarrada ao seu progenitor-super-homem – achava uma traição ele não me contar tudo, não me revelar por onde andara. Minha mãe, já acostumada, nem ligava. Mas, eu, esperava com coração palpitante, camuflada na cortina da janela da sala, pra que ele não me visse. Quando finalmente chegava e eu escutava a chave no portão, corria pro meu quarto e fingia que não estava nem aí – mas, estava. Tinha sete, oito anos. Demorei a entender esse comportamento. Só o compreendi quando percebi que estava ficando mais parecida com ele do que gostaria. E, em certo momento da vida, também comecei a precisar caminhar por aí. Ironicamente, como só a vida consegue ser, também fui “acusada” de “traição”. Amigos, namorados, familiares. Sempre tinha o olhar inquisidor de “não vai contar?”. Entendi, finalmente, meu pai.

Ontem fui fazer um trabalho na zona norte de São Paulo. Na volta, já mais de sete da noite e trânsito em horário de pico, deitei a cabeça no banco do táxi quando me deparei com o entardecer. Saindo de um viaduto, na Av. Tiradentes, tinha lá a visão da Marginal do Tietê. Paguei o motorista e desci do carro. Fiquei numa das pontes que dava para o rio, só para observar aquele delírio do cotidiano, repleto de luzes. Lembrei da frase do senhor Dostoiévski, de que tudo é pensamento – mesmo o que há de mais impreciso. E, resolvi voltar andando para casa. Da zona norte a zona sul. Sei lá quanto tempo. Umas duas, três horas. Cheguei já era noite alta, de lua cheia. E quando o celular tocou, três, quatro vezes… e as vozes perguntavam aonde, diabos, eu andava… sorria pra responder: “por aí”. Feito o meu pai.

Acho que todo mundo deve procurar esses “por aí”, repletos de imprecisão. Faz bem especialmente nesse tempo de rastreabilidade total da vida, em que vivemos guiados pelos GPSs, inclusive os de pensamento.

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… e, eu ganhei duas bolhas no pé e umas mil e quinhentas ideias. Tá bom, né? ;) E você? Costuma sair por aí também? Ou, sempre desiste pelas inúmeras explicações que tem de dar? (é tão chato isso! ainda bem que já se acostumaram comigo neste ponto, e desistiram do “patrulhamento” – das caminhadas e do pensamento).

beijo, beijo – semana corrida, muito trabalho, mas, volto pra comentar os comentários. Combinado? Combinado!

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Porque é música boa pra sair ouvindo e andando por aí…

Stray Dogg – Almost

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“Uma provocadora, eis o que ela é. Que vageia sozinha à noite, à procura não se sabe de que, nem de quem.
Sempre com um livro nas mãos” – Régine Deforges, em O Diário Roubado.

Meiguices

Meiguices

Ele lê os jornais todos os dias e separa, cuidadosamente, as partes que imagina que vou gostar de ler. Sabe que tenho – entre tantas outras – alergia ao papel e à tinta do jornal. Entrega tudo separado, por data e seção, e um recadinho sempre ao lado: “estas páginas você gostará de ler, estas outras eu sei que não. Mas, meu bem, você deveria ler”. E é assim, com essa meiguice extraordinária, que me informo das tragédias diárias.

Pensando em como gosto dos afetos sutis e das gentilezas reservadas.
Conta uma meiguice – de amor ou não – que você  gosta também?

beijo, beijo – e, bora falar de coisa boa para alegrar a semana…

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Porque música e clipe são perfeitos…


Kurt Vile – Baby’s Arms

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“Envolve-me em teus braços, eis aqui a profundidade, envolve-me na profundidade, se agora te recusas, então depois (…) Envolve-me, envolve-me, trama de loucura e dor” – Do Diário de Franz Kafka, em 06 de julho de 1916.

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Trinta e três

Trinta e três

Martina era uma menina, uma mulher forte. Menina e mulher: dupla personalidade. “Você não a conhece direito”,
Mário me disse uma vez. Eu não a conhecia direito. Dupla personalidade. Por vezes quieta, fechada.
Por vezes, sensual, agitada. Contava histórias como ninguém – (Blecaute – Marcelo Rubens Paiva)

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Tinha pensado em escrever um post assim: 33 coisas sobre mim absolutamente dispensáveis e que você não precisaria saber. Em comemoração ao meu aniversário, hoje. Só que bebi vinho demais ontem e cheguei tarde. Prevendo que minha mama ligaria às 8h, como carinhosamente faz todos os anos, deixei o celular e o fixo no mute.
E, acordei às 4h da tarde, com o seu Severino – o porteiro – me interfonando porque minha amada progenitora ligou no telefone do prédio achando que eu tivesse morrido. “Não seu Severino, diga pra minha mãe que eu ainda não morri”. E foi assim que o tal dia de aniversário começou, sendo uma ótima (e não perfeita) ilustração dos meus trinta e três anos – o que dispensa obviamente contar outras bobagens. Entretanto, continuo feliz e agradecida pelos meus amigos que deixaram recados no celular, email e afins. Então, um beijo grande  procêis – e beijaaaaaaaaaaa eu, vai?

Só hoje! Prometo. E, deseja feliz aniversário pra mim, né!? (não, nenhum pudor em relação a isso! Imploro mesmo, com toda a vergonha que “deus” NÃO me deu…rs) ;)

beijo, beijo

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Porque estar com Chet é sempre bom…

Chet Baker - My Funny Valentine

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You make me smile with my heart

Vida de gato

Vida de gato

Na próxima vida quero nascer gato. Só para ter a sorte de arranhar e lamber por instinto e ninguém pensar mal. Quero poder fazer cara de poucos amigos, enquanto fecho os olhos e estrebucho ao sol, sem que as pessoas digam: “que temperamental”. E ter um dono apaixonado que abdica sem remorso do mais importante compromisso só para brincar de caça e aguçar o espírito. Após ronronar em seu colo, ganhar as ruas num salto olímpico e olhar felino de até logo mais. “Selvagem, que gato vagabundo”, pensará meu dono acostumado às escapadas, porém, certo da lealdade de quem sempre volta. De mansinho, deslizando pelos cantos, sem explicações e palavras desnecessárias.

Na próxima vida quero mesmo é nascer gato. You understand? ;)


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Não, não se engane. Só estamos falando da vida. De gato.
A música é porque é a minha preferida. Ever.


Nina Simone – Wild is the Wind

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For we’re creatures
of the wind

A casa amarela

A casa amarela

Eu amava Maurice, saía com homens e gostava de drinques. O que acontece quando se abandona
todas as coisas que lhe fazem ser você? – (Graham Greene, em Fim de Caso)

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Estou em meio a uma reforma, como vocês sabem. E, neste fim de semana, depois de duas horas escolhendo a torneira da pia que deveria comprar (apesar de ressaltar veementemente ao senhor mestre de obras que poderia ser qualquer uma, já que não sou fã de lavar louça mesmo), me perguntei: “onde foi que me meti?”.  O pedreiro me respondeu com mais veemência ainda: “Numa obra e qualquer uma não tem. A senhora tem de escolher a torneira”. Escolhi a tal – mesmo não sabendo diferenciá-la dos outros trinta modelos que me foram apresentados. É tudo a mesma coisa. É tudo a mesma coisa? Não, não é. Foi só depois, já em casa, que me dei conta disso. Não por ter me tornado uma perita em torneiras, mas, porque – seja lá qual for a razão – foi a que escolhi. A gente sempre tem motivos para cada escolha que fazemos, ainda que nem nos demos conta disso. Numa reforma, as pequenas escolhas são feitas a todo o momento. São detalhes que fazem a diferença entre o que você é e qualquer outro.

O mundo e as pessoas andam tão pasteurizados que, pensando bem, tive até vontade de ligar para o pedreiro para agradecê-lo por ter me segurado por duas horas numa loja hidráulica para escolher a torneira, e não qualquer uma. Me dei conta que uma boa parcela de minha infelicidade nos últimos tempos é justificada por eu ter estado tanto tempo, igualmente, pasteurizada. Empobrecida de mim, das minhas características, para poder satisfazer pessoas que gosto, trabalho, amigos, etc. Nos acostumamos a fazer isso o tempo todo, não? Vamos deixando, pouco a pouco, nossas escolhas – por qualquer escolha, que seja mais fácil ou que agrade quem gostamos ou, ainda, por uma justificativa “racional”. No fim, fiquei feliz por ter escolhido a torneira, além de todos os outros detalhes que virão.

E, me lembrei de um trecho do livro do Greene, que li essa semana, que questiona justamente isso: “o que acontece quando se abandona todas as coisas que lhe fazem ser você?”. Para mim, o resultado não foi bom – me perdi, fiquei infeliz. Fui abrindo mão de uma coisa aqui, outra ali, e, quando vi não sabia mais quem era ou o que queria. A mudança – que me dará a possibilidade de reservar mais tempo para mim – significa o primeiro passo para redescobrir e tornar mais próximas as coisas que fazem quem eu sou (ou gostaria de ser).

No começo de toda essa reforma (que deve demorar ainda para terminar), a única coisa que tinha certeza era de que queria que a casa fosse pintada de amarelo. Está longe de ser minha cor preferida, mas, ela tem uma simbologia pessoal. Há alguns anos, ganhei de presente quatro reproduções (em pôster) das pinturas de Van Gogh. Entre elas, uma chamada A casa amarela. Na época, não entendi por que um pintor – que exibia uma diversidade tão grande de cores em sua paleta – tinha produzido um quadro onde todas as casas eram amarelas. Curiosa, claro, fui pesquisar.

A casa amarela, afinal, era um sonho de Van Gogh. O sonho de organizar uma comunidade de artistas no sul da França. Isso porque odiava o mundo artístico dos grandes boulevards parienses, dos marchands, dos críticos – e todas as coisas que era obrigado a “abandonar” para satisfazer os outros. Queria ir para um lugar calmo, harmonioso, onde pudesse viver com mais pintura e menos vaidade. Só em 1888, finalmente, conseguiu alugar uma casa para pôr em prática o seu sonho e mandou pintá-la de amarelo por considerá-la a mais importante e simbólica em sua obra. Viveu na casa uma rápida sensação de felicidade – mas, os problemas de saúde e financeiros, entre outros, acabaram impedindo a realização do seu sonho, que era o de manter uma comunidade de artistas.

Desde essa época o quadro passou a ter um significado para mim. Nunca mandei enquadrar e pendurar a minha singela reprodução porque nunca me senti livre o suficiente para abandonar as “vaidades” que convivia e as escolhas que acatava em prol de um sonho pessoal. Agora, minha casa amarela – que não será um retiro artístico comunitário – terá em suas paredes as reproduções que ficaram guardadas tanto tempo. Não porque me sinto livre o suficiente da vaidade ou dos “compromissos da vida”, mas, porque mesmo com todas as incertezas e dificuldades que envolvem mudar de cidade (e reforma!), e, principalmente por todos os motivos (completamente válidos) que as pessoas queridas me apresentaram para que eu não fizesse essa mudança, escolhi – desta vez – a mim. Não abri mão desta escolha – ainda que a razão gritasse em meus ouvidos. Mesmo sendo uma mudança temporária, de um ano, ela representará – assim como A Casa Amarela, de Van Gogh – a tentativa de uma realização. E disse Van Gogh: “A minha casa aqui é pintada por fora de amarelo-manteiga e tem persianas em verde-forte; fica, rodeada de sol, numa praça, onde também há um parque verde com plátanos, aloendros, acácias. Por dentro é pintada de branco e o chão é de azulejos vermelhos. E por cima, o céu de azul luminoso. Lá dentro posso com efeito viver, respirar, pensar e pintar”.

E Graham Greene perguntou em seu livro: o que acontece quando se abandona todas as coisas que lhe fazem ser você? Bom, depois de alguns anos abrindo mão dessas coisas, sei que me afastei de quem sempre fui (ou desejaria ser). Agora, falta descobrir como será quando se escolhe as coisas que nos fazem sermos nós.

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Não dá para passar a vida abrindo mão da gente mesmo, né não?

Tudo bem por aí? Muitas saudades? Eu estou! Mas, ainda faltam umas 425 coisas da reforma. Ow goodness! E eu, tola como sempre, pensando que meu maior problema seria escolher a torneira! ;)

Beijo, beijo 

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Porque dá vontade de estalar os dedos…

Dillon – Thirteen Thirtyfive vs. Pocketful of Money

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Ao contrário da maioria, ela não era obcecada pela culpa. Em sua opinião, quando uma coisa estava feita, estava feita: o remorso morria com o ato (…) Só sei que apesar de seus erros e de sua irresponsabilidade, ela era melhor do que muita gente. É bom que alguém acredite nela, pois ela nunca acreditou – (Graham Greene, em Fim de Caso)

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