1984 e a foto que meu avô registrou

1984 e a foto que meu avô registrou

As histórias dependem antes de tudo da confiança de quem as ouve
e da capacidade de interpretá-las – (Bernardo Carvalho, Nove Noites)

 

Oi, prazer. Essa sou eu, em março de 1984. Tinha cinco anos de idade. Meu avô me levava para pescar no Paraná – terra onde meu pai nasceu. Ando emotiva essa semana. Chorando à toa. Com saudades do meu avô, que morreu tem quase 20 anos. Era um sujeito adorável. Gostava de tecer redes de pescar. Passava horas trabalhando naquelas teias loucas. Era risonho, gordinho, branquelo e bochechudo. Tinha olhos de criança e cabelos brancos. Desde então, desde que morreu, converso com ele em pensamento - quase que diariamente. Louca? Pode ser. Mas, tenho essa mania de conversar com quem já morreu. Para mim, é uma forma mantê-los vivos. Xingo, também, sabe? Meu ex, por exemplo, que morreu há seis anos, sempre que algo dá errado penso: “ah, tá feliz né – seu miserável?”. Do inferno, ele deve rir. Aposto. Mas, meu avô, esse aí tinha a inocência e a generosidade dos velhos. Foi a primeira pessoa que me ensinou a importância das histórias, da memória. A gente se sentava à beira desse rio e lá ele contava, contava, contava. Geralmente era quieto. Nada sério. Só um pouco tímido, talvez. Tinha uma gargalhada boa. Me ensinou a importância dos detalhes, dos cheiros, dos sons. Tudo por meio da pescaria. Ação e Reação. Dizia. “Esperar é uma arte”. “Presta atenção nos detalhes”. Era bom. Um tipo de amor e confiança plenos. De sentir-se “pequena” de um modo bom. Aí olho pra foto e noto que ainda tenho em mim um tanto dessa menina do meu avô.

Vontade de ser neta, sabe? Ser “a pequena”, menina, ingênua e protegida.

xiiii, acho que tô carente! Mas, lembrança boa de infância é tudo de bom, né? Conta uma para mim?   ;)

 

*

 

Porque, aos cinco anos, dançava pela sala com o meu tio ouvindo Smiths…

The Smiths – I Know It’s Over

 

 

And I know it’s over – still I cling…

41 respostas »

    • Ah, lindo, lindo… doutor!

      li, recentemente, um livro sobre arte (O poder da arte, do Simon Schama) e lembrei de um trecho que dizia assim: “Gauguin queria alçar voo. Van Gogh queria derrubar o céu, para que não se distinguisse da terra”.

      lindo, né?
      beijos, adorei! obrigado!

          • Assisti esse filme há uns 8 anos atrás, nem dei a devida importância a ele, só pensei ”puta que pariu, que filme chato do caralho”. Parece que estava errado. Mas isso acontece muito, coisas que chegam a nós antes do momento certo.

            • ahhhh querido,

              olha só… é preciso separar a arte, a leitura, o cinema, etc, em duas (ou mais): a de ENTRETENIMENTO e a de PENSAMENTO.
              eu gosto dos dois tipos. A de entretenimento, sabe… que faz a gente rir. Que fala bobagens. Ou aquelas comédias melosas que amo.
              A de pensamento já é diferente…. Você tem que “preparar” o espírito. Tem que estar disposto a “entrar naquele mundo que te é oferecido”.
              Tem que ser encarado quase como uma “provocação”. E, às vezes, a intenção é ser chato mesmo…arrastado (vide os filmes franceses!).
              Você tem que “pegar o que é que tão te propondo, para que labirinto querem te levar”. Não é entretenimento.
              Embora, para mim, pensamento e entretenimento se misturam sempre… mas, não sou uma xiita em prol da pseudo-inteligência. Assisto os programas mais tolos da TV e me divirto.

              Esse filme, em especial, é lento… mas, tem um texto maravilhoso. Sem contar o a trilha sonora, a poesia… e o climar “noir”. Acho perfeito.
              Mas, é aquela coisa… o espírito estava disposto. Não é do tipo de filme que a gente vê comendo pipoca… :)

              (e que fique claro, eu adoro filmes que a gente vê largado no sofá comendo pipoca).

              mas, dê uma “chance” ao pensamento. Mesmo que ele seja chato. e… ás vezes, eu sei, é chato pra danar! :)
              nesse caso, sabe o que a gente faz? pára de ver. Deixa “pra outro dia” – quando o espírito estiver preparado (e ele estará! acredite).

              beijinho

              • Minha querida, foi justamente isso que eu disse. Certas coisas boas não caem em boa hora; quando vi esse filme eu dormi, hoje vou assisti-lo.

                Ver coisas idiotas AS VEZES é bom, só pra relaxar, não pensar em nada, isso não significa que a pessoa que vê é burra, só significa que quer descansar. Eu não gosto de cinema, nem de TV, essa só vejo esportes aos domingos na ESPN e cinema só quando filme é bom mesmo.

        • Doutor,

          vi e me marcou muito. Mas, vi tem uns 10 anos (é, sim, sou velha!). Você me deu uma boa ideia! vou ver aqui na locadora se acho pra rever no fim de semana. (depois te conto)
          boa lembrança! obrigado.

          beijo

          • ain…feliz, feliz… ACHEI!!! viva a locadora do bairro! :) vou assistir, depois conto. Não lembrava de toda essa “poesia” do trecho que você colocou! beijossss… obrigadooooo.

  1. Apesar de minha infância ter sido boa, de vez em quando sinto uma certa falta da proximidade com a família naquela época, meus pais e meus avós nunca foram muito próximos e nunca pude sentar para pescar e ouvir sobre a vida, só lembro uma vez que me ensinaram algo de relevante, mas que somente muito mais tarde iria compreender.

    No embalo de The Smiths lembrei da primeira desilusão amorosa que tive.
    Devia ter uns 7 anos de idade, ou menos ou mais, não lembro, antes dela tive aquelas namoradinhas de criança, coisa saudável, mas que obviamente não passou da infância.
    Chamava-se Marília, sentava-se ao meu lado nas aulas e como a escola era pequena e de bairro, todos os alunos se conheciam, no recreio a maior parte do tempo preferia passar meu tempo com ela a ter a companhia de outros, que constantemente faziam piadas sobre meu caso.
    Me apaixonei, como se apaixonavam no século XIX, quando bastava a presença de alguém, algo mais idealista do que carnal.
    Introvertido que era, não conseguia me expressar, ela mal me notava, me tratava somente como um amigo, nada passava disso, o que eu esperava aos 7 anos?
    Como toda criança, era sincero, contei a minha mãe esperando que ela me revelasse algum segredo feminino, algum truque mágico para conquistar a tão amada.
    Ela disse pra eu ser sincero, para eu contar a garota.
    Claro que já sabem o que aconteceu, conversei com a garota e pedi ela em namoro – quanta audácia! – e ela obviamente recusou, fiquei arrasado, desiludido, puto por ser tão estúpido e por ter me aberto tão facilmente.
    Naquele dia minha mãe me ensinou algo, pretty girls make graves.

    • Oi moço ;)

      olha só disso não posso me queixar. Minha família foi muitíssimo presente. Nas coisas boas e nas coisas ruins também (ô família buscapé pra fazer shit! rs). Mas, no fim das contas, o saldo é bom! Tão bom que tenho essas lembranças de 4, 5 anos de idade… (às vezes, acho que até antes disso! mas, não tenho certeza). Talvez, porque tenha – também – convivido com minha bisavó até os 10 anos de idade… e ela era – literalmente – TERRÍVEL… :) mas, outro dia conto.

      Sobre sua história… ain, que fofo! Sabe que vocês – meninos – precisam ouvir o “outro lado da história” – das meninas que DIZEM NÃO. Coincidência, conversei justamente sobre isso – na semana passada -com o Andarilho. Sobre o meu “primeiro não” – que, também, é minha primeira frustração amorosa. Mas, olha.. teu comentário merece um post! vou ver se escrevo essa semana….

      beijo, adorei sua história.

        • bonitinho o post!

          olha menino, misturar Kafka e Sartre de uma vez só é altamente PERIGOSO….
          recomendo boas doses de poesia – não existencialista – pra acalmar teu coração.

          beijo

          • Em caso de incêndio, deixe queimar.
            Kafka e Sartre me conquistaram, napalm puro; depois virá Heidegger e Schopenhauer pra acabar de vez.

            Todo dia antes de dormir leio algo do Bukowski – O Amor é um Cão dos Diabos e um conto do Hesse, da uma acalmada.

            • ”Somente o fracasso, interrompendo como uma parede a série infinita dos seus projetos, o devolve a si mesmo, em sua pureza. O mundo permanece inessencial, mas continua presente; agora, como pretexto para a derrota. A finalidade da coisa é devolver o homem a si mesmo, barrando-lhe o caminho”.

              Como parar de ler Sartre assim?

  2. nossa K.!….fiquei emocionada ………….lembro do cheiro de café da ” tarde ” e o bolo ” mole ” que minha mãe fazia……………qdo era criança……era o melhor do mundo……….você ficou muito bem na foto tá…..rs……beijos querida

    • Lucia, linda…

      então… também tenho lembrança de café da tarde na casa da minha mãe, com bolinho de chuva!

      ah, a foto tá um tiquinho recortada porque tirei do “cenário” minhas primas..rs.rs.rs.

      beijo grande,

    • Chora não, Lu! ;)

      então, meu ex mÓrreu mesmo…não é uma forma carinhosa não…rs..

      Resumo da história: morei 6 anos com ele – que era meu namorado. Ai resolvi me separar (depois de 2 anos tentando). Consegui. Quando consegui ele morreu de AVC, aos 29 anos, um mês e treze dias depois da minha separação. Estava no MSN com um amiga dele, sentiu uma dor de cabeça, morreu 15 minutos depois. Ou seja, eu virei a bruxa malvada que matou o pobre.

      Depois da minha separação, antes que eu conseguisse tirar minhas coisas de casa, ele queimou tudo. TUDO. Inclusive uns mil e quinhentos livros que tinha da vida inteira (o que me doeu profundamente), além de roupas, sapatos, documentos, diplomas, etc. Mas, tudo bem… A “sorte” é que eu “desculpei” ele uma semana antes dele ter o piriri. Liguei e disse pra gente ficar na boa.. enfim.. essas coisas. E ficou tudo bem. Mas, eu aposto que se ele puder ele volta pra me assombrar..rs.rs.rs. e, eu adoro “bater um papinho” com ele pós-morte..rs..rs :D

      beijoss

  3. Desde que eu me mudei pro lado de cá do oceano, penso e sonho muito com a minha infância. Eu lembro das coisas legais que aconteceram, mas também lembro das não legais. Lembro das faltas, das ausências, dos pequenos traumas da alma, das pequenas feridas que ainda não fecharam. E, olha só, tudo tem um porquê, não é? Eu quero acreditar que sim. Ou talvez, para justificar minhas escolhas em detrimento das escolhas dos outros.
    Porque eu acredito na responsabilidade das escolhas que fazemos. E, por acreditar nisso, assumo “meu caminho” como sendo só meu. E… ah, já estou viajando na maionese.
    Você é culpada disso, só vc. rsrsrs (Pq precisamos de alguém em quem botar a culpa)

    Bjs!

    • ahhh eu adoro ser a culpada! :) (melhor do que ser a inocente..rs.. tenho talento pra ser boazinha não! rs)

      mas, sabe… esse teu comentário também vale um post! rs Eu acho que passei por essa fase quando sai de casa – há muito tempo. Passei pela indignação (reservada e carinhosa, of course) ao perdão pelos erros – especialmente dos meus pais – que são umas verdadeiras crianças e erraram TANTO. É caminho lento e, às vezes, não agradável… mas, no fim vale a pena. Hj vejo esses “erros”, essas “feridas” que você se menciona com grande entendimento… Sem traumas! (acho..rs.)

      vou tentar escrever sobre isso… (tá vendo, quem viaja master aqui?).

      beijo Evezinha, amada e linda…

      • Ai, fofa, perdoar eu já perdoei. Mas, sabe que eu não esqueço? E nem é por falta de vontade, é por que os outros sempre fazem questão de lembrar, aí já viu, né? Porque pai continua sendo pai, e mãe continua sendo mãe. Eles não mudam, mas nós nos moldamos. Aí é o balaio de gato total. rs
        Eu já ensaiei escrever sobre isso. Um dos últimos posts do blog toca em um desses pontinhos, lá no fundo. Só que decidi guardar pra mim mesmo.

        Bjinhos querida lindona! ;)

  4. Olá querida chorona. Notei mesmo que essa semana a senhorita está muito emotiva.

    Eu não tenho memórias tão antigas da minha vida, no máximo tenho alguns flashes de um ou outro momento.

    Lembro, por exemplo, que em um dos primeiros anos na escola a gente tinha aqueles projetos de plantar feijão no algodão e pegar lagartas em potes de maionese e esperar elas virarem borboletas. Vc tb fez essas “lições”?

    Lembro que na escola tinha um monte de taturanas. Detestava aqueles bichos.

    Beijos, beijos.

    • E, nem estou de TPM! :D

      minha mãe diz que tenho TPM de “alma”…rs.. mas, estou sensível sim.. mas, passa…
      ó…sobre as lições… nossa se tinha!!! eu me diverti muito na escola..rs.. os feijões (os meus) vingaram… em compensação, esmaguei uma lagarta! rs rs rs… – sem querer! rs desastrada desde a infância…
      mas, não me lembro de ter nojo ou aversão… acho que porque desde a época da foto ai em cima, eu me metia no meio do mato pra “caçar” amoras e pegar minhocas pro meu avô :P

      vou fazer uma “sessão” de Regressão…rs.rs.. contigo! rs rsr rs *(não, não sei fazer, mas, vai que dá certo e você se lembra da sua infância né??rs)

      beijo, beijo…

  5. Saudade de quando a inocência sincera ainda existia. Do cheiro de café da tarde da minha mãe acompanhado da mesma modinha de viola de todas as tardes no rádio. Saudade de quando a minha maior preocupação era saber do que brincar quando chegar da escola. Enfim..saudade de coisa boa é antidoto pra essa selva de pedra de todo dia.

    • Dai,

      saudade de quando a única preocupação era fazer a lição de casa!!!!! ai ai… tô nostálgica, viu.
      memória, pra mim, vale ouro. Gosto das lembranças e trato de criar novas todos os dias!

      e, pra mim, também…. o “café da tarde” era um momento especial!

      beijo amadinha

  6. lindo post, queridona.

    || e detalhes sempre me lembram Manoel de Barros:

    “O olho vê
    A lembrança revê
    E a imaginação transvê.

    É preciso transver o mundo.”

    que bom que você transvê tudo sempre ;]
    é o que mais admiro em você.

    • Lena,

      Manoel de Barros é tudo de bom!!! amo….

      ahhhh, pensei em vc esta semana! Estou lendo um livro que acho que você deveria recomendar pras suas meninas no bloguito. Depois passo lá e conto!

      beijo, sempre feliz de te ver por aqui.

  7. Como você tocou no assunto avô, pesca e infância me faz lembrar das pescarias com meu pai e meu avô e eu acho que ele(meu avô) não desfrutava muito da minha presença (Leia-se “Eu fazia da pescaria dele um inferno”) no resumo ele quase não pescava porque eu ficava aprontando pra cima dele o tempo todo, mas era legal.

    Outra coisa da infância que minha mãe fala muito é quando eu sumia, ela ja ficava desesperada porque a chance do projeto de gente (no caso euzinho) estar colocando fogo em algo era enorme, lembro que álcool e fósforo sempre ficavam escondidos.

    Depois te mostro uma foto de criança e você tire suas próprias conclusões sobre o anjinho.

    beijos

    • Ah. DU-VI-DO. Eles sempre dizem que não gostam de nós – os capetinhas – mas, adoram!!!! O que seria da vida deles só com as crianças quietinhas? na-não… aposto que ele amava!

      Leozinho, incendiário, dos olhos de anjo, e coração dos infernos..rs.rs.rs…. deixa eu ver a fotoooooooooooooo!!!!!!

      manda pra mim que coloco aqui (se você deixar)..rs.

      beijosssssssssssssssssss

  8. Lembrar de vô e vó é sempre muito intenso né, e você ainda sugere Smiths…

    Eu sei lá porque, mas me lembrei de uma vez no ônibus que uma moça se levantou pra dar lugar pra alguma senhora e eu sentei antes. Minha vó me pegou pela orelha e me levou até em casa assim. Agora, falar com eles eu não consigo não, no máximo penso o que eles devem estar achando de mim.

    Beijo!

    (e chore muito mesmo, que faz um bem danado)

    • Éder,

      eu tive (tenho) sorte. Pude conviver com meus dois avôs (já falecidos), com minhas avós (que estão vivizinhas) e com a minha bisa (até os 10 anos de idade). Grande parte do que eu sou – e só hoje percebo – veio deles. Saudade é uma coisa maluca mesmo. E sua vó é uma fofa.. hahaha imaginei a cena aqui! Espero que sua orelha não tenha ficado traumatizada :P

      eu choro mesmo… rs

      beijinho

  9. Umas das lembranças bonitas da minha infância foi meu aniversário de sete anos, festa bonita, eu toda prosa no meu vestido azul de florzinha, depois do parabéns pra você, depois de cortar o bolo teve a tradicional pergunta: Pra quem vai dar o primeiro pedaço de bolo? e eu dei pra minha mãe, a expressão de felicidade dela é umas das lembranças mais lindas de minha infância, se, ao morrer, me for permitido escolher uma lembrança para levar comigo, e todas as outras serem deletadas, eu escolho esta.

    • Ai… me emocionou. Fiquei vermelha….

      Lindo isso. O que dizer a mais? Sabe, tenho vivido uma fase muito boa com a minha mãe… (na verdade sempre vivi, mas, ultimamente mais) e, estou uma maria-mole..rs..

      beijo amada

  10. Umas das coisas que me lembro, que eu queria vender qualquer coisa no
    portao da escola, ao inves de ir pra escola.Mas, a minha vovó sempre dizia
    como vc quer ser vendedora de bala se vc não sabe fazer contar.Pra ser
    alguma coisa vc tem que estudar. E eu, uma outra vez, com medo de pedir
    pra ir no banheiro fiz xixi na sala de aula.Logo,minha professora era uma
    tia minha, que era muito severa com os alunos, e não permitia saisse da carteira.

  11. Pingback: Tempo bom, pra desperdiçar « Incompletudes

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