Arquivos Mensais:setembro 2011

A casa que não é minha

A casa que não é minha

Sou egoísta, impaciente e um pouco insegura. Cometo erros, sou um pouco fora do controle e às vezes difícil de lidar, mas se você não sabe lidar com o meu pior, então, com certeza, você não merece o meu melhor – Marilyn Monroe

 

Já brincou de gato e rato? Ou esconde-esconde? Pois. Estou assim há uns dois meses. A dona do apartamento onde moro quer que eu saia porque parece que vem morar um parente dela em São Paulo, e ela quer que fique aqui. Tudo bem que até gosto de transformações. Mas, essa possível mudança de endereço tem me deixado um pouco mal. Explico: tirando o fato de que, definitivamente, esse não é um bom momento para mudanças (em se tratando de agenda, trabalho, e, especialmente, de dinheiro), tem uma outra coisa que tem me aborrecido. Nunca passei muito tempo em um lugar. Sou meio nômade. Na infância meus pais mudaram-se muitas vezes, por motivos pessoais. Depois, quando “cresci” escapulia com facilidade. Passava um tempo na casa da minha família, depois do meu padrinho, depois de amigas, depois fui morar em flat, depois aluguei apartamento, depois fui morar com namorado, depois voltei a morar em flat, e, por fim, acabei me instalando aqui – onde estou há cinco anos.

Pra ser bem honesta, nem gosto tanto assim daqui porque sempre preferi casa a apartamento. Mas, fazia muito tempo que não me sentia “em casa”. Demorou cinco anos para que o vigia da doceria que fica na rua me dissesse: “bom dia, precisa de ajuda com as sacolas?”. Ou, o gerente da locadora me parar e dizer: “passa lá depois que separei um filme que tenho certeza que você vai amar”. Ou, a recepcionista-idosa da papelaria que sempre me dá um tchauzinho quando passo em frente à loja. E minhas visitas até o sebo do bairro, não só para comprar livros, mas, para bater longos papos com o proprietário – que adora uma boa prosa. Sabe essas coisas?

Então. Um pouco de medo de perder e voltar à vida nômade, de desconhecida, de sempre estranha. Daqui a pouco, tenho reunião com a dona-malvada-proprietária da casa que não é minha. Já chorei uns dois litros (exagerada!) e me borrando de medo. Estou certa de que se ela disser que tenho 60 dias pra sair, como “adulta” que sou, vou chorar também (vexame!). Sei que dificilmente vou conseguir pagar outro apartamento por aqui. Infelizmente, moro num bairro metido à besta e caro. Mas, eu não sou metida à besta e nem cara. Ou seja. Se tiver que sair daqui, começo do zero – de novo, e de novo, e de novo – em outro lugar. Tenho mais idade pra essas coisas não!

Faz favor de alguém me adotar? Prometo ser boazinha e me comportar! Aceito uma casa de presente também, obrigado. :D  … e o pensamento insistente do dia é: não chore na frente da proprietária do apartamento, não chore na frente da proprietária do apartamento, não chore na frente da proprietária do apartamento… 

 

então tá, né. Vou lá. Pegar minha “cartinha de expulsão” 

beijo da (quase) desabrigada! e maior abandonada! (dali Cazuza!)

 

*

Porque sempre que falo de “casa” me vem essa música –  que amo – à mente…

Cinematic Orchestra – To Build A Home

 

 

This is a place where I don’t feel alone
This is a place where I feel at home
Cause, I build a home… for you, for me

Resignação

Resignação

Todos eles pareciam destinados, como por uma maldição, a uma existência desalentadora, mesquinha, limitada. Nenhum deles jamais havia feito alguma coisa. Eram pessoas do tipo que, em todas as atividades imagináveis, mesmo que fosse apenas a de entrar num ônibus, são automaticamente empurradas para fora do centro das coisas
 (Moinhos de Vento, George Orwell)

 

Ontem fui levar minha avó ao neurologista. Ela anda com falhas de memória, mas, nada sério. Disse que está com medo de ficar uma “velha biruta”. Respondi que velha ela já é. Biruta, também. Então, that’s ok!  Ela me deu um tapão. Tudo brincadeira, é claro. O tapa e minha resposta. Porque ela nem é tão velha assim, muito menos biruta. Pelo contrário, aos 71 anos é super independente, mora sozinha, super vaidosa, faz academia, e adora paquerar os vizinhos. “Só de brincadeira”, diz. Mas, então, que conversamos sobre várias coisas. E ela me perguntou do que tenho mais medo na vida. Uma pergunta simples, não? (pois…é minha vó!)

Do que eu tenho mais medo na vida? Pensei: santa Hildinha Hilst me salva desta… mas, no final, nem foi tão  díficil assim responder. É claro que tenho medo – como qualquer pessoa – de ficar doente, de ficar muito pobre e de ficar abandonada (exagerada!), mas, de tudo, tudo mesmo, acho que o mais me dá pavor é de uma vida resignada. Explico: uma dose de paciência, de constância, de submissão diante da vida é benéfica – a gente sofre menos. Mas, em compensação, vive menos também. Tenho medo disto, de parar de me “lamentar” diante das coisas, de parar de “ver” aquilo que está ao meu redor, parar de ”ser” alguém que se importa. Isso me apavora. E, não estou falando apenas de coisas sociais e “importantes”, mas, de tudo. Me importo, por exemplo, de comer uma fatia de pão com geléia todas as manhãs, daquelas bem doces e não light. Pô, isso me deixa mais feliz! Então, lamento, choro, me chamo de “cretina” quando esqueço de comprar, mas, não aceito um “tanto faz”. Tanto faz para mim não serve.  

Não sei se “este medo” tão grande – neste momento – é fruto dos seis meses iniciais de 2011, no qual passei por uma depressão punk (um dia conto). Ou, se porque vejo melhor agora meus pais, avôs, etc, envelhecerem (e, com isso, seus sonhos juntos), ou, ainda se por conta da “maldita” leitura, que sempre me leva pros abismos do pensamento. Pode ser tudo isso junto. Ou nada disso. Mas, uma vida resignada me bota mais medo que bicho papão, morrer, ficar muito pobre (e não poder comprar meus livros), burra e doente juntas! É claro que há limitações e a gente faz o que pode – e como pode. O “não fazer”, quando pode, é o que me assusta.

E, nesse papo com a gatona da minha avó, me lembrei que outro dia estava no metrô e vi um senhor (o da foto). Ele parecia sentir dor, parecia incomodado, parecia perdido, parecia cansado. Tinha um olhar vago, “pro nada”. Cheguei a perguntar se ele estava bem, e ele limitou-se a balançar a cabeça num sinal positivo. Não disse nada, nem eu. Mas, fiquei com aquela imagem na mente - a imagem da resignação, da limitação, da aceitação, de não querer e ser nada. E a questão ali não é “ser velho”, e sim “resignado”. Tem muito jovem com aquela expressão que vi no homem.

E o mês está acabando e, acho que em muito tempo, vou encerrá-lo “satisfeita”. Porque realizei. Não “grandes” coisas. Mas, “as pequenas”, como levar a roupa à lavandeira no dia certo e acompanhar minha avó ao médico. Ah, também andei “engolindo” algumas teorias pessoais, quebrando minhas próprias regras e criando novas. Só para ficar mais divertido. ;)

 

E você, está pensando que vai escapar é? Vai não. Diz pra mim do que é que você tem mais medo?

beijo, beijo!

 

*

Porque hoje estou nessa batida, com vontade de me estender ouvindo música 
- feito cachorro vira-lata – no solzinho que faz nesta tarde em São Paulo

The Doors – Indian Summer

 

 

Tudo o que eu sei, só sei porque amo – Tostói, em Guerra e Paz

 

Licença para matar metaforicamente

Licença para matar metaforicamente

Pensa no seguinte: alguém passa dois anos tentando te convencer de uma questão. Porque, né, você é uma pessoa “tãooooo independente” que “mataaaa tudoooo ao seu redor“. Aí que quando você finalmente acredita naquilo que a pessoa falou o tempo todo, o que a pessoa faz? Exatamente aquilo que você disse que ela faria e, justamente, por isso mesmo você se “blindava” tanto. Mas, tá. Dá licença que vou ali renovar meu porte de arma e já volto, okay? Okay! (brincadeirinha, eu não tenho porte de arma). Ainda. ;)

Essas coisas são ótimas quando acontecem pra gente não esquecer que nosso caminho é aquele que a gente traz na mente e no coração, não aquele que sai da boca dos outros. Né, não?

beijo, beijo… vou agora brincar de beber feito gente grande… 

*

Por que é o que estou ouvindo now!


The Kills - Black Balloon 

 

Eu não saberia dizer quem sou, não tenho a menor ideia. Sou alguém sem raízes,
sem história, sem país e persisto nisso. Estou aqui, sou livre. Posso imaginar qualquer coisa para mim.
Tudo é possível. Basta levantar os olhos e me confundir com o mundo - (Do filme Asas do Desejo)

 

 

1984 e a foto que meu avô registrou

1984 e a foto que meu avô registrou

As histórias dependem antes de tudo da confiança de quem as ouve
e da capacidade de interpretá-las – (Bernardo Carvalho, Nove Noites)

 

Oi, prazer. Essa sou eu, em março de 1984. Tinha cinco anos de idade. Meu avô me levava para pescar no Paraná – terra onde meu pai nasceu. Ando emotiva essa semana. Chorando à toa. Com saudades do meu avô, que morreu tem quase 20 anos. Era um sujeito adorável. Gostava de tecer redes de pescar. Passava horas trabalhando naquelas teias loucas. Era risonho, gordinho, branquelo e bochechudo. Tinha olhos de criança e cabelos brancos. Desde então, desde que morreu, converso com ele em pensamento - quase que diariamente. Louca? Pode ser. Mas, tenho essa mania de conversar com quem já morreu. Para mim, é uma forma mantê-los vivos. Xingo, também, sabe? Meu ex, por exemplo, que morreu há seis anos, sempre que algo dá errado penso: “ah, tá feliz né – seu miserável?”. Do inferno, ele deve rir. Aposto. Mas, meu avô, esse aí tinha a inocência e a generosidade dos velhos. Foi a primeira pessoa que me ensinou a importância das histórias, da memória. A gente se sentava à beira desse rio e lá ele contava, contava, contava. Geralmente era quieto. Nada sério. Só um pouco tímido, talvez. Tinha uma gargalhada boa. Me ensinou a importância dos detalhes, dos cheiros, dos sons. Tudo por meio da pescaria. Ação e Reação. Dizia. “Esperar é uma arte”. “Presta atenção nos detalhes”. Era bom. Um tipo de amor e confiança plenos. De sentir-se “pequena” de um modo bom. Aí olho pra foto e noto que ainda tenho em mim um tanto dessa menina do meu avô.

Vontade de ser neta, sabe? Ser “a pequena”, menina, ingênua e protegida.

xiiii, acho que tô carente! Mas, lembrança boa de infância é tudo de bom, né? Conta uma para mim?   ;)

 

*

 

Porque, aos cinco anos, dançava pela sala com o meu tio ouvindo Smiths…

The Smiths – I Know It’s Over

 

 

And I know it’s over – still I cling…

Quando um poodle te encara

Quando um poodle te encara


Suas perguntas às vezes me surpreendiam e eu ficava por um instante perplexo, pois ela me obrigava a refletir
sobre aquilo que, até então, eu havia aceitado sem me admirar (A Sinfonia Pastoral – André Gide)

 

Então que você está andando tranquilamente pela rua (okay, nem tão tranquilamente assim) quando se depara com um poodle. Um poodle te encarando. O que você faz? (1) Passa e pensa: ah, é só um cachorrinho fofo. (2) God, por que esse poodle me olha com esses olhinhos tão grandes? (3) Será esse poodle um espião da CIA?

okay, okay… são só os efeitos da segunda-feira… já já passa! (ou não…)

Mas, fiquei aqui pensando… Não é interessante como o olhar do “outro” sobre nós pode ser, às vezes, tão certo – perfeito – ou tão distorcido – equivocado? Quem será que tem razão? O olhar do outro – imparcial – sobre nós? O olhar – parcial – que temos sobre nós mesmos?

Uma vez, uma pessoa disse que me conhece melhor que eu mesma - porque sempre “me vejo” sob a ótica dos meus medos, impulsos, desejos, tristezas, sonhos, anseios, etc. Será? Será que o outro consegue nos observar melhor do que a nós mesmos?

… só uma perguntinha básica pra começar a segunda-feira. Não me culpa não!!! É tudo culpa do poodle…. quem mandou ele me encarar! ;)

beijo, beijo. Boa semana!

 

*

Porque sempre preciso de café e Julie London às segundas

Julie London – Black Coffee

 

 

I’m talking to the shadows
Of one o’clock before

Pedrinhas, pedregulhos

Pedrinhas, pedregulhos

01:22, quinta-feira? Então, bom dia pra você. Pra mim, ainda quarta porque meu dia só “acabou” agora. Sabe quando você está tão cansada que nem sente o corpo direito? Pois. E, fica refletindo por cinco minutos se deve dormir com fome ou passar geléia em duas fatias de pão? Parecido. E, no meio desse “seríssimo dilema” vim aqui – correndinho – porque me lembrei que outro dia encontrei uma princesa caminhando pelas ruas do meu bairro. A própria Branca de Neve (em sua versão miniatura, of course) passeando, mãos dadas ao irmão mais velho. Eu, claro, como não consigo desviar o olhar do que me chama a atenção, segui a nobreza. Num dado momento, como ocorre com toda princesa, largou a mão do seu príncipe e resolveu andar sozinha. Quando chegou em uma calçada que estava em obras, ela parou, olhou, olhou. Um lado cheio de pedras. O outro já asfaltado. Achei que ela caminharia pela parte arrumada. Mas, não. Seguiu bem no meio da linha. Entre as pedrinhas e a parte lisa. A mãe da princesa – como toda rainha mandona – deu a “ordem” para a pequena passar para a parte mais fácil – para não tropeçar e cair. A menina olhou com toda calma para mãe e disse algo parecido com: “mãe, sem as pedrinhas não tem graça”.

Lembrei da história porque meu dia foi cheio de pedrinhas – ou melhor, pedregulhos. E, pensei na princesa ensinando à “rainha-mãe” que sem as pedrinhas a vida não tem graça, não tem emoção. E, não é que é!  Tá bom, tá bom… eu sei que a historinha é bobinha, clichê, e tudo o mais. Mas, eu adoro a “sabedoria infantil” e, ademais, sou bobinha assim também… então, tenham paciência.

01h42 – me desejem boa-noite – ou bom dia! – que agora vou comer minhas duas fatias de pão com geléia e dormir. Li todos os comentários (amo muito), só não tive tempo de responder! Sorry! Eu volto mais tarde para o “comentando os comentários”, se um pedregulho não cair bem no meio da minha testa! okay? okay! :D

beijo, beijo.

*

UPDATE: 4:49 da manhã (pois é, eu ia dormir…?) – Um dos motivos da insônia:

*

Música bonitinha para me fazer dormir…

Smashing Pumpkins – Farewell and Goodnight

.

goodnight, may your dreams be so happy
goodnight, always to all that’s pure that’s in your heart

A realidade dança e sai no jornal

A realidade dança e sai no jornal

A realidade dança. A imaginação é o movimento (…) O movimento nomeia novas possibilidades.
Cada coisa tem todos os tempos, mas, se essa coisa não dança, do tempo mostrará apenas um fragmento.
A imaginação é a curiosidade: queremos ver todos os tempos. A realidade dança”
(O senhor Swedenborg e as Investigações geométricas).

 

Visualize a seguinte situação. Você resolve ir almoçar. Depois do almoço come duas trufas. Na volta, se depara com uma loja de instrumentos musicais. A moleza – devido ao solzinho da tarde e o excesso de açúcar no corpo – te faz parar em frente à uma vitrine cheia de guitarras e violões. Lá dentro vem um som agradável. Você olha mais de perto. Tem um moço, sentado num banquinho, tocando guitarra. Ao seu lado uma moça acompanha com uma gaita. A moça – na pausa entre um sopro e outro – te convida para entrar. Você entra. Dentro da loja uma outra senhorita também observa balançando a cabeça. O moço pergunta: “o que quer ouvir?“. Você responde: “pode ser Doors?”. Ele toca Doors. A moça da gaita acompanha e começa a dançar. E você se empolga e dança também. E esquece-se – por alguns (muitos) instantes o senso de ridículo. E aí que a outra moça – que está quietinha no canto e não dança – te fotografa. E você pensa: “ah, deve ser funcionária da loja”. Daí que dias depois você recebe o jornal do bairro em sua porta. Uma das manchetes: “música no horário do almoço“. Você observa a foto de destaque. Olha de novo. Mais uma vez. Outra. Mais outra. Coloca o óculos, e… se reconhece com os cabelos desgrenhados e mãos para cima. Vou repetir: você se reconhece, no jornal do bairro, dançando entre violões e guitarras, junto à uma moça riponga e o moço da guitarra, com cabelos desgrenhados e mãos pra cima.

Querido leitor, diante disto, o que você faria? Digite (1) para fugiria do bairro (2) pintaria o cabelo de loiro (3) negaria até a morte (4) compraria uma máscara (5) diria que foi sua irmã gêmea que nunca existiu (6) comete Harakiri.

Grata pela ajuda. E, agora dá licença que vou ali cortar os pulsos com bolacha Maria e já volto ;)

Pensamento Insistente do dia: nunca, nunca dance com estranhos depois de uma overdose de trufas!

*

Ah, Jim… Jim… olha só a encrenca que tu me meteu!


The Doors – Roadhouse Blues

 

 

 ”Aceita-te como tu és. De acordo com os teus vícios.
Na proporção da tua medida” – Francis Ponge

O desejo que paralisa

O desejo que paralisa

Assim são os homens. Ou você acha que quando nos olhamos não reconhecemos no próximo
o que em nós mesmos tentamos esconder? (Nove Noites – Bernardo Carvalho)

 

Sabe que tem uns dias que tomei uma decisão sobre algo que desejo há muito tempo – desde a adolescência. Nada demais. Só uma mania que tinha e queria me livrar. Sempre adiava porque achava que não conseguiria mudar um comportamento que há tanto tempo me acompanhava. Então, um dia acordei e pensei: “será hoje”. E foi. Não me pergunte como (porque honestamente nem eu estava confiante de que daria certo), mas, a verdade é que desde então não repeti esse costume que tinha. Houve vontade de recuar? Sim, sem dúvida, mas, de alguma forma, a decisão falou mais alto e não sucumbi.

Isso me fez pensar nos motivos - se era um desejo tão antigo – que me paralisavam diante de algo aparentemente “simples”, e que só dependia de mim. A resposta? Não sei. Não sei por que agora. Não sei o que me fez agir. Não sei o que me fez persistir. Mas, sei que às vezes a gente se agarra a alguns desejos e não sai do lugar. Sou do tipo de pessoa que precisa desejar algo para poder levantar da cama todas as manhãs. Vivo de motivação, de inspiração. Não sou uma pessoa prática, racional, que faz as coisas por que simplesmente têm que ser feitas. Infelizmente. Sou do tipo que faz quando há uma vontade.

Desejar dá um “up” na vida. Mas, até que ponto, em algumas situações, não nos apegamos a estas vontades, anseios, aspirações – como uma justificativa para desistir, recuar, ou adiar outras? Me dei conta que, como essa maniazinha que queria me livrar, tenho uma série de desejos que me “apeguei” mas que, efetivamente, não faço nada de prático para que eles aconteçam. Então, será que há um desejo real ou apenas gosto da ideia de desejar aquilo? É um “desejo paralisante”, ilusório. Ele fica ali, guardadinho em algum lugar dentro de nós, e só. Nada acontece.

Então que, venho fazendo uma “faxina” em meus desejos. Peguei um caderno, fiz uma lista, e para minha surpresa muitas das coisas que eu achava que desejava, na verdade, eu só gostava de achar que desejava. Risquei uma dúzia dessas vontades que paralisam, que ficam ali feito um “elefante branco” no meio da sala. E eu, pessoa que achava que desejava muito, no fim descobri que desejo – mesmo – muito pouco. Ou melhor, que desejo muito o impossível e esqueço de desejar o possível. Grande coisa…

E é desse “pouco possível” que resolvi me apegar – de forma prática. Só considero, a partir de agora, que desejo alguma coisa quando faço realmente algo efetivo para atingir. Dou um primeiro passo - conseguindo ou não. Não quero mais aquele tipo de desejo paralisante, que fica ali adornando minha ilusão, como bibelô sem valor.

Descobri que desejar é bom, mas, realizar é melhor ainda. Né, não?

beijo, beijo! boa semana – algum desejo paralisante por aí também? Chutaaaaa que é macumba! ;)

 

*

Porque é o que toca por aqui desde às 9h00…


Is this desire? – PJ Harvey

 

 

Secrets in his eyes… Sweetness of desire
Is this desire… Enough enough
To lift us higher

O jogo do mundo se divide em dois

O jogo do mundo se divide em dois

Oi gente. Estou lendo um livro do francês Martin Page, chamado Como me tornei estúpido, e tem um trecho engraçadinho que diz assim: “Nesse lugar improvável, muitas noites por semana, com os seus amigos, ele brincava do jogo que eles chamavam ‘o jogo do mundo se divide em dois’. É um jogo que consiste em encontrar as verdadeiras divisões do mundo, as que são verdadeiramente pertinentes, uma vez que, infalivelmente, o mundo sempre se divide em dois: os que gostam de passear de bicicleta e os que rodam rápido de carro; os que deixam a camisa fora da calça e os que põem para dentro; os que tomam chá sem açúcar e os que o tomam com açúcar; os que pensam que Shakespeare é o maior escritor de todos os tempos e os que pensam que o maior deles é André Gide; os que gostam de Nutella e os que gostam das couves-de-bruxelas. Com real preocupação antropológica, eles compunham, assim, as listas de divisões fundamentais da humanidade”.

Incumbida dessa “real preocupação antropológica” – (sim, eu tenho o que fazer mas estou com preguiça!) – fiquei aqui pensando se o mundo se divide em dois mesmo. Tipo: têm aqueles que limpam a casa todos os dias e aqueles (eu!) que só limpam quando recebem visita. Têm aqueles que seguem horários, são pontuais, e aqueles em que a agenda só significa: ferrou! (ops!). Têm aqueles que só querem saber de gozar rapidinho e aqueles que gostam mesmo é de sexo (oi?). Têm aqueles que fazem a compra mensal do supermercado, com listinha e tudo, e aqueles que só vão quando o papel higiênico está acabando! (ow ow!).

Será que o mundo se divide em dois mesmo? Tenho muitos exemplos, mas, vou ter que dar uma corridinha ali no supermercado porque usar guardanapo para outras funções senão limpar a boca não é legal. :D

Ahhhhh, claro! tem aqueles que nascem com o popozão pra lua e aqueles que nascem ferrados. (alguma dúvida de qual categoria estou? Não, né?). Então, tá… joga comigo! Têm aqueles que… ?

beijo, beijo. Boa sexta!

à propósito: para os que pediram coloquei a listinha do que andei lendo nestes meses. Se quiserem saber de algum livro em especial, me perguntem. Caso contrário, vou comentando aqui quando der! E me contem também o que andam lendo! Vou gostar de saber… porque, né, o mundo também é dividido entre os que leem e aqueles que não.

 

*
Porque é musiquinha para cantar alto às sextas (sim, meus vizinhos me amam)


Hole – Malibu

Hey, hey
We’re all watching you

A voz do indivíduo Sérgio de Biasi

A voz do indivíduo Sérgio de Biasi

Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena.
Mesmo que doa. Dói só no começo (Clarice Lispector, em A Descoberta do Mundo)

 

Dizem os historiadores, que foi num dia como hoje – lá em 1822 – que D.Pedro bradou às margens do Ipiranga o grito de Independência ou Morte! Cento e oitenta e nove anos depois, me pergunto: afinal, o que é ser independente? Diz lá o dicionário que ser independente é gozar de autonomia em relação às coisas e pessoas, é não deixar-se influenciar por pensamentos e ações, é ter liberdade de julgamento e ação, é guiar-se por suas próprias regras – e, ainda assim, sentir-se seguro. Podemos tudo isso? Será que somos realmente assim tão livres e independentes?

Hoje fui dar uma volta no bairro. O dia está bonito, ensolarado. Numa das ruas encontrei um banco protegido pela sombra de uma árvore antiga. Por ali fiquei um tempo. Pensando justamente nessa tal de independência. Não a que se refere à história. Mas àquela que todos nós, de certa forma, desejamos. Tenho pensado muito sobre isso nessas últimas semanas. Não por conta do feriado, mas, por Sérgio de Biasi.

No dia 11 de agosto, em seu apartamento em New Jersey, Sérgio se suicidou. E colocou, mais uma vez, a sua liberdade  individual (que tanto defendia) em ação. Conheci Sérgio há alguns anos, por conta de um texto dele sobre a legalidade do aborto (que também defendo). De lá para cá, travamos – por internet – boas e longas discussões. Essencialmente sobre direitos individuais, consciência, e, um de seus assuntos preferidos: o ateísmo. Ele era, como dizia, 110% ateu. Numa de nossas discussões - sobre algum assunto que nem me lembro mais – o email foi pouco para tanto argumento e passamos, desde então, a falar por telefone.

Para minha surpresa, além de teimoso, Sérgio também era uma pessoa extremamente doce. E transbordava, por todos os poros, ideias. Além da inteligência – registrada durante mais de uma década no blog O Indivíduo – tinha uma sensibilidade tanto pujante quanto nociva. Marília, a mãe de Sérgio, disse (na missa de 7º dia) que tem uma teoria de que, talvez, ele tenha morrido de velhice. Porque ele viveu com uma intensidade, uma paixão, uma velocidade tão grande que aquilo o consumiu. “Ele não tinha 39 anos, ele tinha 120 anos de idade. É por isso que ele morreu“.

Sérgio pode ter morrido de “velhice”, mas, também de sensibilidade. Sentia o mundo de forma especial. Não era raro enviar emails com seus vídeos - seja cantando e tocando à sua moda, dando aula, dirigindo em alguma ponte, ou espionando esquilos e gansos. Ele registrava o mundo conforme sentia. E, às vezes, sentia demais – o que gerava muita angústia. Acima de qualquer coisa, ele acreditava na necessidade e respeito à individualidade. Respeito sua decisão em deixar essa existência, de utilizar-se do seu direito de dizer “cansei”. Porque, como disse sua mãe, essa foi uma decisão consciente, e não um impulso, um ato tresloucado, um desvario. Espero que esteja melhor agora. Sérgio preferiu a morte à falta de independência (ainda que dos próprios sentimentos). Transbordou.

Dele ficam as ideias, a inteligência, o sorriso, sua curiosidade e imensa generosidade em entender e explicar esse mundo de maluco. Fica também um vazio imenso que dificilmente será preenchido. Não há tristeza, só ausência. 

Hoje, sentada naquele banco, tomando o calmo sol da tarde, meus pensamentos foram para ele. Nunca é demais pensar, refletir, e exercitar a tal voz do indivíduo que Sérgio tanto defendeu.

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A VOZ DE UM INDIVÍDUO – Por Sérgio de Biasi

Qual a importância das idéias de um indivíduo? Qual a relevância do que um indivíduo, sozinho, tem a dizer? Por que deveríamos proteger o pensamento individual? Para melhor refletir sobre essa questão, invertamos a pergunta: Existe algum outro tipo de origem para idéias e pensamentos? Ou será que, na verdade, tudo o que surgiu de original e belo e, inclusive, atualmente compartilhado como comunitário e coletivo em nossa cultura teve que primeiro ser criado por algum indivíduo em algum momento no espaço e no tempo, incluindo nossa língua, nosso país, nossos valores?

Mesmo que cada pequeno passo adiante tenho sido pensado mais de uma vez por indivíduos diferentes, e que cada um tenha apenas acrescentado sua pequena contribuição, o ato original, inovador, criativo é definitivamente um privilégio do indivíduo. Um dos fatores que mais nos torna humanos e especiais é justamente a nossa enorme capacidade para o pensamento divergente. Sem dúvida, é possível construir uma coletividade sem individualidade – basta examinar um formigueiro. Porém, isso seria abrir mão de tudo o que temos de melhor. Acredito que a humanidade, com toda a abrangência do termo, sustenta-se na existência e em um profundo respeito à individualidade.

 

*

Porque, às vezes, é preciso livrar-se das gaiolas


Eddie Vedder – Guaranteed

 

 

Everyone I come across, in cages they bought
They think of me and my wandering, but I’m never what they thought
I’ve got my indignation, but I’m pure in all my thoughts. I’m alive…

Eu julgo, tu julgas, todos julgam?

Eu julgo, tu julgas, todos julgam?

Toda segunda-feira, no horário do almoço, encontro o mendigo-meu-amigo. É um senhor, já bem idoso, cabeludo e barbudo – inteirinho cinza. Ele me aguarda na porta do supermercado para receber sua “mesada” da semana. Toda vez é a mesma coisa: quando me vê diz: “moça, moça, dá uma ajudinha”. Paro, digo bom dia, pergunto se ele está bem, entrego R$ 20,00, ao que ele responde rapidamente: “tudo bem, tudo bem, deus lhe pague, amém”, e sai de maneira ágil. Sem prolongar o assunto. Tanto eu, quanto ele.

Hoje foi diferente. Depois que pegou os R$ 20,00 e olhou vagarosamente o dinheiro, ao invés do habitual “tudo bem, deus lhe pague, amém”, perguntou: “a moça teria mais R$ 5,00?”. Fiquei surpresa. E, confesso, um misto de sentimentos controversos invandiram minha mente. Primeiro: por que será que ele quer mais dinheiro? Segundo: só o que me faltava! ele quer reajuste. Terceiro: ele nunca pediu mais dinheiro, será que tem um bom motivo? Pra ser honesta, achei que ele iria beber – apesar de NUNCA tê-lo visto bêbado. Sempre resta a dúvida.

Uns segundos depois tirei mais R$ 5,00 e entreguei – dando-lhe o “benefício” da dúvida. Perguntei o que ele faria com o dinheiro. Ele respondeu: “preciso comprar uma coisa”. Para não alongar mais a conversa, disse que ok e que era para ele se cuidar, não beber, comer direito. Ele consentiu com a cabeça e me deu duas mexericas para agradecer. Na mesma hora disse que não precisava, que era para ele ficar com as mexericas pra comer depois, ao que ele só respondeu: “aceite, moça, aceite” – empurrando as mexericas em minhas mãos. Aceitei.

Guardei as mexericas na bolsa, entrei no supermercado e fui fazer compras. Na volta, passei na farmácia da mesma rua e, num cantinho – no estacionamento – vejo o mendigo-meu-amigo aguardando o atendente, que logo chega com uma sacolinha e o troco do “consumidor” que não pode entrar na loja.  Ele pegou, agradeceu, foi embora. Entrei na farmácia e perguntei ao atendente o que ele tinha comprado. O funcionário da farmácia respondeu: “anti-inflamatório, disse que está com dores nas pernas por causa da idade”. Perguntei: “ele pagou?”. O moço disse: “sim, mas, não sei onde arrumou o dinheiro. Deve ter roubado, mas, isso já não é problema meu”. Respondi: “talvez ele não tenha roubado”. O atendente só olhou, revirou os olhos, e riu.

Na hora senti vergonha – de mim e do atendente. Mas, a gente sempre aprende, né? Almocei mexericas.

Já sentiu vergonha assim também? Beijo, beijo! boa semana!

 

*

Porque o sol está lindo em São Paulo hoje… e eu adoro a voz dessa moça


Joss Loner – Ain`t no sunshine when she’s gone

 

 

And she’s always gone too long
Anytime she goes away

Se você for tentar, vá até o fim

Se você for tentar, vá até o fim

Às vezes acordava de noite e via as estrelas avançarem tão convincentes que
não podia entender que alguém fosse capaz de desperdiçar tanto mundo (Rilke)

 

Quase três da manhã e eu aqui pensando no quanto tenho preguiça de gente com pouca coragem. Não tenho nada contra os cautelosos demais, não. É só preguiça mesmo. Da pessoa não tentar (quando quer), não se arriscar, não conseguir se livrar das culpas e ficar sempre naquele minúsculo ”mundinho do politicamente correto“. Tipo: eu até tento entender porque também tenho medo dos riscos. Já dizia minha avó que medo é sinal de inteligência, de faro, de instinto, de saber identificar os perigos. Mas, usar essa cautela toda como uma desculpa para tudo, para não viver, me dá uma preguiça danada. Prefiro mil vezes ter um problema novo por dia, a ter de reviver o mesmo problema todos os dias. É só uma questão de atitude, sabe? E, pra ter atitude, não precisa necessariamente ser “maluco beleza”, “porra louca”, ou coisa do gênero. Mas é preciso sair do script um pouco. Ser inconveniente de vez em quando. Rir na cara de alguém. Falar alguma bobagem. Instigar. Provocar. Irritar – quando necessário. Ser bobo, hora e outra, e tirar um barato da própria cara. São essas coisas que me devolvem o ar em meio ao sufoco da vida.

Então, por favor, sejam bonzinhos… hoje é sexta-feira, aproveitem, digam algo inconveniente ou fora do script e alegrem o meu dia!  ;) Falando dos incovenientes – como não poderia deixar de ser – lembrei de um texto do mais “safado” dos inconvenientes. Ninguém melhor do que o “velho Buk” para dar bons conselhos. Beijo, beijo.

 

 *

 Jogue os dados

Charles Bukowski

 Se você for tentar, vá até o fim.
Senão, nem comece.

Se você for tentar, vá até o fim.
Isso pode significar perder namoradas,
esposas, parentes, empregos e
talvez sua cabeça.

Vá até o fim.

Isso pode significar não comer por 3 ou 4 dias.
Pode ser congelar em um banco de praça.
pode ser cadeia,
pode ser o ridículo,
chacota,
isolamento.

Isolamento é a dádiva.
Todo o resto é um teste de sua resistência
do quanto você realmente quer fazer isso.

E você vai fazer

Independente da rejeição e das piores dificuldades
será melhor do que qualquer outra coisa
que você possa imaginar.

Se você for tentar, vá até o fim.
Não há outro sentimento como esse.
você estará sozinho com os deuses
e as noites se inflamarão em chamas.

Faça, faça, faça.

Até o fim.
Você guiará sua vida direto para o riso perfeito,
essa é a única boa briga que existe.

 

Porque, às vezes, é preciso dizer - sem blefar – qual é o jogo. Jogue os dados, baby…

The Kills – Baby Says 

 

Baby says she’s dying to meet you
Take you off and make your blood hum
And tremble like the crimball lights