Para quando o amor chegar à tardinha

“Eu ficaria no esconderijo daquela moradia afastada de tudo,
toda preparada para quando o amor chegasse à tardinha,
abrindo o portão com seu lirismo natural”
(João Gilberto Noll)
Todos os dias, ao final da tarde, ela se dirigia ao toca-disco e colocava um LP de Elvis. Assim que a música começava corria para a janela e sentava-se à poltrona de veludo bege-desbotado, quase escondida pela cortina. Estava sempre acompanhada de uma xícara de chá ou um cálice de licor. Era professora de lingua portuguesa e minha vizinha. Cinquenta e tantos anos e sempre ocupada, de andar apressado. De muito o que fazer e muito a pagar. Seu salário complementava a renda da casa. O marido, funcionário público, não ganhava lá essas coisas. Mesmo assim, dispensou a última aula diária para a turma da 5ª série, agitada, do colégio estadual. Dinheirinho sagrado!, dizia. Mas, não queria saber. Precisava chegar cedo em casa – para o seu ritual de “espera”. Eu acompanhava tudo, sempre, do outro lado da rua, em minha casa.
Das 18h00 às 18h30 lá ficava a professora-minha-vizinha de olhar grande para a esquina. Ora impaciente, ora tranquila, ora serena, ora preocupada, ora nervosa, e, muitas vezes, distraída. Mas, sempre à espera. Ao término de dois quartos de hora vinha um suspiro e um sorriso. Ela despertava, levanta-se rapidamente e rumava para a porta. Recebia o marido com um beijo, um carinho e um cheiro no colarinho – só para garantir que não havia ali nenhuma fragância intrusa, de qualquer outra mulher.
Uma vez eu disse à ela que a observava. Ela respondeu: “eu sei, eu sei”. E não deu muita bola. Perguntei se ela não se cansava ou não se angustiava de ficar todos os dias à espera. A resposta foi imediata: “NÃO! CLARO QUE NÃO!”. Quis saber o por quê. Me disse que era justamente desta forma que demostrava que amava muito aquele homem. Assim, de coração acelerado, enquanto os minutos passavam. Se acaso ele atrasasse sentia-se nervosa, com medo de que, por qualquer razão ou fatalidade, não chegasse. Mas, todos os dias, por anos e anos, ela sentia-se aliviada quando o via apontando na esquina, de passos lentos, arrancando uma folha ou outra de algum galho, e, por vezes, assobiava. Era assim, para ela, que era o amor. E, passado tantos anos dessa conversa, para mim, essa “espera” ficou arquivada em minhas lembranças na “caixinha amor”. Me convenceu.
Sei que o amor tem muitas “imagens”, “formas”, “jeitos” de se demonstrar. Mas, são nestas sutilezas do dia-a-dia que me apego mais. As grandes declarações ou “celebrações” têm seu espaço, claro. Mas, me emociona tão mais o “pequeno” da vida. Talvez minha vizinha tivesse razão. Talvez o texto do Noll (acima) tenha muito sentido. Talvez o amor seja exatamente isso. Ficar escondida, num canto qualquer de uma morada, se preparando para quando o amor de nossa vida chegue à tardinha… cheio de lirismo coloquial, como abrir o portão de casa. Sem dúvida, para mim, essa é uma das “imagens” do amor.
E você, lembra-se de outra “imagem do amor”, assim, descompromissada?
beijos, beijos, beijos! boa sexta-feira… aiiiiiiiiiii que estou tão românticaaaaaaaaaaaa! culpa da música abaixo, que escutei hoje e me lembrei da professora-vizinha.

Por que só me lembrei desta história ouvindo a canção no rádio. Apesar de achar que a outra música, a do versinho abaixo, que pode ser escutada clicando no link, “combina” mais.
Elvis Presley – Always On My Mind
Meu coração e meus passos
Andam em círculos atrás do seu rastro
Meus pés e meu peito
E no meu pulso direito
Bate o seu atraso
Será que você, meu bem
Será que você não vem?


Ai, me deu um nó na garganta. Nem sei o que dizer.
Você se supera em cada texto. Gente do céu viu.
Como disse o Andarilho dá até nó na garganta.
beiujos***
A imagem do amor para mim é a daquelas que têm um casal, de mãos dadas, segurando uma criança no meio… Pai de um lado, mãe de outro e o guri/guria ao centro.
é muito representativo para mim.
um beijo amoroso para você.
Ka, lindo texto!!!
acho que vou armar minha barraca por aqui só para poder ficar te lendo.
agradeço a dica que me deu sobre o blog: deu certo!!!
adorei!
beijosss
Sim, Ka, eu lembro…
Em tempos tive uma cachorra que me amava exactamente assim: esperava-me horas infinitas à soleira da porta, tranquilamente, e – contavam-me – que ela até pressentia a minha chegada dez minutos antes de acontecer: abanava a cauda e agitava-se de emoção. Coitadinha! Ainda me recordo de quando ela vinha a correr na minha direcção, tão feliz, só para me lamber os dedos. E no Inverno?… Ai, no Inverno, aquecia-me os pés ao fundo da cama, pois então! Que grande amor, absolutamente canino, constante, afirmativo, visceral. Well, a cachorra tinha um defeito como todos nós temos, não é?.. Se pudesse roubava uns bifes, era a única coisa a que ela não conseguia resistir, coitadinha. Adorava bifes, sempre que os via dava-lhe uma daquelas fraquezas e… pimba! Já era!
Mas é como eu disse: todos nós temos defeitos. Uns é por causa dos bifes, outros é por causa das Traquinas, outros é por causa de, por exemplo, eu estar aqui a chatear-te a paciência, qual cachorro que corre para ler as tuas histórias como se as tuas histórias fossem os meus dedos.
Oh! As formas do amor.
Me lembro a música Zé, de Vanessa da Mata
“Você faz com que o meu coração siga a tua beleza só
Vá lembrar a tardinha quando nos conhecemos, Zé
Havia uma beleza ali ou era criatividade minha?”
Ótima sexta, Kazinha.
Beijocas
lindo k! confesso que fiquei..emocionada……sério beijos querida lúcia
Sei não… Demais otimismo nesta página, acho.
A única história que me pareça plausível é da cachorra do Almost. Porque cachorras assim, em seres humanos, seria na verdade uma decepção: o humano pode viver autônomo, seja ele homem ou mulher, e colocar-se em tal dependência do(a) outro(a) é uma aberração. Até os golfinhos sabem disso: morre um, o(a) outro(a) deixa-se morrer…
Ou seja: depender de alguem assim é simplesmente dedicar-se numa causa perdida.
O Amor é importante, mas não pode ser a negação de si. Porque nada é bi-lateral para sempre… Como dizem: ninguém é insubstituível…
O romântismo não é uma necessidade na vida, é um luxo. As coisas podem ser muitissimamente lindas sem isso também. É só acreditar.
Beijos.
Acerca dessa sua vizinha/professora e da sua (dela) atitude perante o amor, respondo com “uma coisa assim tipo poema”, na sequência dos seus versinhos “sem vergonha”.
Que, aliás, não vi ninguém aqui aplaudir… gente… está tudo dormente? vamos dar um apoio a K. escrever mais versinhos para nós ou o quê??? Oi???
Seja como for, aqui fica uma espécie de poeminha destrambelhado, de ritmo absolutamente coxo, da parte de um leitor completamente desavergonhado.
O amor é uma construção
Tudo é incerto, frágil.
Mesmo aquilo que ilusoriamente pensamos possuir.
Palavras ditas, pensamentos trocados, gestos atenciosos, beijos sentidos, tudo se esvai num pequeno instante de distracção.
Mesmo uniões firmadas no alto das suas pomposas alianças e juras de “para sempre”.
Momentos de plenitude e felicidade que, de tão intensos, pareciam constituir a realidade ela mesma, sonhos partilhados e realizados,
Mesmo tudo isso, rapidamente se pode desvanecer, num mero piscar de olhos de uma alma por demais confiante.
Só a atenção permanente ao outro, a leitura abnegada do ser amado, o saber ler os sinais, no tempo certo, pode funcionar.
E, mesmo que esse estádio seja alcançado, nos resta rezar para ter a sabedoria de nele saber permanecer, porventura por uma vida inteira.
Única questão: por quê esta imagem foi a escolhida? Posso morrer se não souber a resposta, e estou falando sério.
Me conta?
Por causa do Mediterrâneo… que me aproxima mais da ideia do amor. Aliás, apesar de não saber nadar, minhas paixões estão sempre ligadas à água, rio, mar… Sena, Reno, Tejo, etc. E, essa “espera” – do quadro – da contemplação, é bem o que tentei dizer no texto.
No quadro, Dalí (pelo que sei) pintou a irmã que via a Baía de Cadaqués e, consequentemente, o Mar Mediterrâneo.
Felizmente, tive a chance de ver a obra no Museo Reina Sofia, em Madrid. É lindíssimo.
quanto à morrer (!!!) mas é uma exagerada você hein Mrs. Dalloway?!
beijos
Adorei o texto me levou de volta a infância quando eu ficava esperando meu pai no fim da tarde no portão de casa, ou encima da goiabeira.
Na vida adulta ainda naum encontrei um amor que valesse apena ficar esperando rsrsrsrsrs
bjus K. adoro isso aqui
A imagem do amor é um olhar sem querer seguido de um sorriso tímido.
beijão
Cadê o post do dia…?
Sem brincadeira, é estranho. A Miss nos acostuma a nosso post diário, e quando não tem, parece que o dia já tá meio estragado…
Tava pensando, reunindo um pouco de você e um pouco dos outros autores (ambos sexos) dos blogs consistentes e/ou artísticos (de próprio punho, logicamente) daria para fazer uma revista semanal ou mensal… Mas é verdade que ninguém mais lê… e temos que economizar com o papel… Aí a coisa ia virar um PDF… e não daria mais o mesmo prazer…
Saudade dos velhos tempos…
… e o post? É para já?
Beijos…
PS: estranho, nem tinha reconhecido o Mar Mediterrâneo… Tava ocupado demais a estudar o efeito de transparencia do vestido provavelmente… :-S
Txiii! Menorca?… Você vem?…
Sweet Ka,
É praticamente impossível alguém se afogar no mar mediterrâneo. São águas cristalinas, tépidas e rasas por dezenas de metros junto às areias brancas. Não precisa saber nadar, basta encher o peito de ar para flutuar. E não há azul igual, seja em Mellorca ou Menorca, Ibiza ou Port El Kantaoui.
Beijos!
(PS. – Sinto que você está triste. Não esteja. Be happy!)