Vaso chinês

Nessa história de “muda não muda” que enfrentei esse ano, fui visitar um outro apartamento para alugar. O preço era o mesmo do que moro hoje, mas, ele era duas vezes maior do que o meu, num prédio “moderno”, com tudo absolutamente planejado. Todos os móveis em seus lugares, tão brancos que até dava medo de tocar. Circulei no apartamento, olhei aquela estante branca com um grande livro (grande mesmo, no tamanho) de fotografias em preto e branco - única coisa que cabia no design - andei de um lado para o outro, e não fiquei com ele. Mesmo com todas essas “vantagens”. Era clean demais para mim. Ninguém entendeu absolutamente nada. Acabei permanecendo no meu “véinho” de guerra, cheio de imperfeições.
Eu não gosto muito dessas modernidades arejadas da nova arquitetura. Acho que sou meio antiga. Adoro móveis “pesados”, adoro cantinhos perdidos, cores para contrastar, mas, principalmente gosto daquele bando de quinquilharias que só quem preza pelas estórias da vida pode gostar. Tá certo que de vez em quando tudo vira uma grande bagunça. Mas, também, faz parte do enredo, a casa bagunçada. Tem até lá, vez ou outra, seu charme. Ou, vira um caos mesmo. A verdade é que minha estante está abarrotada de coisas-livro-coisas. Tudo bem também.
E essa semana descobri uma loja. Cheia de vasos, porcelanas, xícaras, travessas, decorações chinesas. Quando passei na frente da loja, um vaso me chamou a atenção. Ele me lembrou as cores da capa de um livro da Clarice Lispector! Achei tão sutil, delicado. Entrei na loja e comprei. O problema é que o vaso custou R$ 15,00. E, ali, residiam milhares nessa faixa de valor. Vim para casa e fiquei me lembrando dos outros, que combinavam com outras capas de livros. Desequilibrada (que sou) e de TPM (que estou), claro, tive um ataque. Voltei à loja e cheguei em casa cheia de outros vasinhos, xícaras de passarinhos com toda a fauna brasileira (ou seria chinesa?), capas de almofadas, blá blá blá. Com sorte não sai de lá com um baú (??????) chinês. Chegando aqui vi que não tinha armário suficiente para 6 novos pares de xícaras. E, não tinha estante para outros vasos, e, que não precisava de almofadas e nem de gatos brancos de porcelana, da sorte. Tenho muitos livros para que suas capas ”combinem” com vasos.
Fiquei exageradamente kitsch. Logo me dei conta do absurdo chinês que me meti, e parti para missão “porteiro”. Agora, junto à minha, as casas dos porteiros do meu prédio devem ter lá seu toque barato da porcelana chinesa. De todo o “descontrole” só fiquei com o vaso-clarice e uma única xícara de passarinho, para tomar meu chá – já que inauguramos o velho inverno, que seja com algo novo.
Viver pode ser muito kitsch. Não só viver, mas, morrer também. Minha tia-avó está morrendo. É díficil identificar qual parte do seu corpo não reside um “hóspede” chamado câncer. Apesar de todo mundo saber que ela vai morrer, o que a gente faz? Se agarra num milagre. Acho isso muito egoista. Com medo de sofrer, a gente “vende” a ideia para ela de que pode haver esperança diante da sua doença terminal. Não há. Ela vai morrer mesmo, e logo. Queria ir lá e dizer: “já que a senhora vai morrer em breve, vamos aproveitar esse tempo! O que quer fazer? Comer? Ler? Ver?“. Ninguém deixou! … o que todos preferem? O fardo, o peso, a choradeira, as esperanças inúteis. Enquanto isso, ela perde os seus últimos dias de vida, assim, mergulhada no kitsch da morte.

Dá vontade de fazer igual ao exagero da quinquilharia chinesa. Ir lá e distribuir para o mundo. Assim, ninguém fica kitsch demais. E ela pode, finalmente, aproveitar o que ainda resta de vida sem esse fardo que a morte traz. Eu sei, eu sei, claro que precisamos de um pouquinho dessa “coisa barata e comum”, ninguém disse que não pode chorar, rezar, sofrer. Mas, é preciso se desgarrar disso o tempo inteiro. É sempre bom ficar com um vasinho que achamos “a cara” daquela capa de livro que gostamos, ou, uma xícara chinesa que manterá nosso chá quente no inverno. É preciso. Mas, não precisamos ficar com os seis pares de xícaras. Assim como o chá, é preciso aquecer o suficiente mas não pode sufocar. E, também não pode ser o contrário senão corremos o risco de “congelar” que nem aquele apartamento lá, modernoso, que vi outro dia: pálido, pálido.
Então… em homenagem aos meus utensílios novos made in China e em comemoração à futura morte de minha tia (ela precisa! sofrer demais, assim, ninguém merece…e aposto que ela juntou bastante porcaria chinesa ao longo da vida, além de boas estórias), brindemos. Com chá. Quer?
beijos, beijos, beijos!
ando quietinha, é verdade. Mas, é o friooooo…

Por que combina com os meus móveis, o chá, o frio e com as coisas antigas que gostamos de gostar. E, também, por que a vida poderia ser um eterno, calmo, lento e tranquilizador adágio, né não?
Sonata ao Luar (1 mov) – Beethoven


Eu aceito o chá!
Ah, a vida… passamos td o tempo tentando compreende-la, e talvez, nunca chegaremos ao entedimento pretendido…
Enfim… Eu levo os biscoitos, ok? rs
K., de novo tenho que te agradecer…to apaixonada mais uma vez, por sua culpa! Dessa vez, “A elegância do Ouriço” de Muriel Barbery, é minha companhia amada…
Um chá, claro!
Brindemos aos que não se preocupam em entender tudo, nossa hora é agora, nosso dia é hoje. Aos que parte, boa viagem, aos que chegam bem vindos e aproveitem…
bj guria…
cuide-se
Ai ai, eu não tô tomando mais chá por enquanto, mas aceito um cafezinho.
E eu não vou desejar uma boa morte à sua tia, mas eu desejo que ela tenha tido uma boa vida. Porque essa é certa, depois dela, não se sabe, no máximo, se espera.
Bjo, bjo.
Fico surpresa, vivemos mundos diferentes e apreciamos as mesmas coisas, livros, antiguidades, simplicidade.
Pensava em mudar o meu quarto, mas fiu a uma loja tudo tão pronto, tão perfeito. Prefiro o meu construido com o tempo, como as lembranças de coisas de viagem e tudo mais.
Vamos ao chá de preferência com biscoitos…
Quanto a tia que a dor logo passe.
Bjs
essa coisa de morte..não encaro muito bem…tenho meus traumas…..vamos tomar o chá ..bridemos ao inverno…..beijos querida lúcia
So vc para conseguir juntar em uma única idéia mudança de apartamento, suas desaventuras consumista e a futura morte de alguém próximo, e tudo isso de um modo suave. O fato de muitas vezes não aceitarmos a morte de alguém próximo e ficarmos sofrendo buscando soluções no lugar de incentivar a pessoa a aproveitar o que lhe resta é muito mais ligado ao luto que elas ja estão passando do que esperança mesmo. Elas não estão prontas para deixar sua tia partir e assim fazem tudo que acreditam ser possível para impedir o que parece ser impossível.
Entendo bem como você se sente sobre sua tia.
Uma amiga minha morreu ano passado de câncer. Tinha só 28 anos. Nem eu, nem a família dela deixamos seus últimos dias passarem com lágrimas, choradeira e caras feias perto dela, apesar de sabermos, nos seus últimos 2 meses de vida, que não havia mais nada o que fazer para salvá-la.
Então, foi assim que seu… Assim como durante todo o processo de quimio, não deixamos a “bola” dela cair. Ela ficou em casa com a família e sempre a visitámos com flores, filmes alegres, música, brincadeiras. Eu levava a minha filha, que na época tinha 2 anos, pra brincar com ela (que era apaixonada por crianças e gatos) e ela ficava toda contente.
Se quando chegar a minha hora, você ficar sabendo, pode ir lá me buscar para uma rave, tá? rsrsrsrsrs
Enfim… Quantos aos vasos, eu nem comento nada. Maluquinha! hehehehe
Beijocas!
“é melhor viver a ser feliz”, disse Vinicius.
Então, vivemos.
Mas pra mim café, por favor.
=)
beijos
Oi menina, conheci teu blog meio por acaso, e desde então me apaixonei por vc. (nada a ver com sexo) Adoro teu estilo, tuas leituras,tuas viagens as questões tão
profundas ou superficiais. Me tornei tua fã. Beijos. E continua com essa cabeça confusamente linda, ok?
Acerca da sua tia. Eu nunca choro nesse tipo de situações (ou em funerais). Não sei porquê. Talvez porque me irrite essa demonstração pública, tantas vezes hipócrita. Mas posso chorar mil vezes depois, mais tarde. Por anos.
Ofereça esse chá a sua tia. Caso goste dela. Faça isso, enquanto o pode fazer. Não sei qual é o estado da senhora, mas estando relativamente bem, acho que ela gostaria de relembrar os momentos bons que viveram (caso os tenham). Se ela influenciou sua vida, de algum modo, você deve esse chá a ela.
Chá? Aceito, mais precisa ser de maçã com canela, camomila ou folhas de laranja, deixa que levo os biscoitos (receitas da vovó) . Quanto a sua tia, espero que sua partida seja breve e indolor e que sua vida tenha sido boa, que ela leve muitas histórias pra contar.