Verdades transitórias

Viver é uma ciência de verdades transitórias. Acordei pensando sobre esse assunto. Eu sei…eu sei… isso não é lá bem o tipo de coisa que a gente começa o dia refletindo. Normalmente, meu único dilema ao acordar é resolver entre comer pão light 7 grãos (saudável e sem graça) ou um belo bolo de chocolate (delicioso e pesado como um elefante). Mas, hoje, assim que abri os olhos me lembrei de Valéria Alves Marmit. Lembra-se dela? Não, né? Nem eu me lembrava do seu nome, mas, nunca me esqueci de sua história. Era uma advogada de 37 anos, que estava dentro daquela van, que foi engolida pela cratera das obras do metrô aqui de São Paulo, há mais de dois anos. Sabe?
Se abrir os olhos pensando em verdades e não verdades já não é lá muito normal, imagina então despertar lembrando de alguém que você só tomou conhecimento da existência pelo noticiário policial a dezenas e dezenas de dias. Mas, assim que acordei pensei: “uau, mas, que coisa mais louca você estar sentadinha dentro de um carro e a terra literalmente te engolir!“. Ok. Vai ver meus neurônios são tão lerdinhos que ainda não conseguiram “processar” a história toda, até hoje. Mas, nem foi *só* pelo fato dela ter sido engolida pela cratera não… é que ela tem uma história tão linda, em meio à tragédia toda, que não consegui me esquecer… Chego a pensar que certas tragédias podem até ser belas, apesar da dor.
Quando os bombeiros localizaram seu corpo, encontraram junto o livro La Poesía de Federico García Lorca, de Julio García Morejón. Valéria, que gostava de poesia, foi obrigada pela morte a interromper sua leitura na página 67. Sabe, eu sei que ela tinha filhos e tudo o mais, no entanto, fiquei aqui a pensar que toda sua existência ficou registrada por esse episódio, o da poesia nos escombros. E ela, agarrada não mais ao livro, que saiu praticamente intacto, mas à morte. Ai fiquei imaginando qual teria sido seu último verso lido? a última linha, a última palavra? o último pensamento antes de ser sugada pela terra? E, também, como é que aquela *verdade* tão certa, a de uma mãe de três filhos, sentada numa van, indo para o trabalho ou qualquer outro lugar, muda assim tão rapidamente? Engolida junto à poesia que tanto amava. Ela viveu para esperar esse momento? Pois foi por ele que pessoas como eu, que nem sabem como era seu rosto, lembrarão de sua história por muito tempo.
E lendo o jornal hoje, vi uma declaração do escritor Marçal Aquino – um dos meus preferidos atualmente – que me deixou mais encucada ainda. Ele disse: “O que me justifica no mundo é a literatura”. O tico e o teco aqui entraram em parafuso… Simplesmente porque “casou” com meu pensamento de hoje de manhã. “O que me justifica no mundo é…”. O que te justifica no mundo? O que me justifica no mundo? O que justificou a vida de Valéria no mundo? Veja, Marçal não disse “minha mulher, meus filhos, minha casa, etc”. Aquela “literatura”, a que ele se refere, é a verdade que justifica toda a sua existência. Ela estará lá no início de sua vida, no meio e no fim – o acompanhará para sempre independente do que ocorra ao redor. É claro que sua mulher ou filhos também são parte de sua verdade. Mas, é uma verdade transitória.
Como????!!!!!!! Minha mãe, meu pai, minha mulher, meu marido, meus filhos são verdades transitórias? São meus caros. Adoramos nos enganar e achar que as pessoas que amamos são eternas e que sem elas nossa vida perde o sentido. Isso é uma bonita ilusão. As pessoas, em nossas vidas, são finitas – voluntariamente ou involutariamente. Elas se mudam, elas brigam, elas abandonam ou morrem. E mesmo aquelas que permanecem ao nosso lado têm na verdade a missão de cuidar da própria vida. Pessoas são finitas. E sempre sobrevivemos, apesar do sofrimento que algumas deixam quando nos deixam. É uma “verdade transitória”. Mais dia ou menos dia elas nos deixam ou a deixamos, como Valéria deixou seus filhos. Eles sofreram? Claro que sim! Isso deixará marcas? É óbvio! Mas, a verdade é que ficarão bem. Valéria, como qualquer outra pessoa, era uma verdade transitória para eles.
Mas, se as pessoas são finitas e, de certo modo, não permanecem em nossas vidas, o que será uma verdade que permanece? Pra mim, é aquilo que te faz respirar todos os dias, aquilo que justifica – como disse Marçal Aquino – a sua própria existência. Como descobrimos isso? Não tenho a menor idéia! Tem gente que passa a vida buscando sua “própria verdade”. Umas encontram, outras ficam apenas na busca.
Marçal é um cara de muita sorte. Ele sabe exatamente para que veio a este mundo. Talvez, Valéria não tenha tido tempo para descobrir a sua verdade, ou, quem sabe, a sua existência tenha se justificado mesmo por aquele trágico e inspirador momento. Talvez, ela tenha vivido para ler até a página 67 do livro de poesia, e por isso, muitos inspirados em sua impossibilidade de seguir adiante com a leitura, o fizeram para homenagia-la e tornaram a poesia possível em suas próprias vidas.
Ou, talvez, ainda, não existam essas tantas verdades que minha cabeça maluca insistiu em criar assim que acordei. Nem as verdades que permanecem, nem as transitórias. Talvez, a única coisa que exista seja a memória. A minha hoje existiu e me trouxe Valéria de volta. E não pude deixar de torná-la “viva”, mais uma vez, contando sua história a vocês.
Quanto às verdades, eu continuo na busca – com uma leve sensação de já ter encontrado a resposta.
E, você? Qual é a sua verdade? O que justifica sua existência no mundo?
beijos! beijos! beijos!

Por que foi a música que passou pela mente quando escrevi esse texto
O poeta está vivo – Barão Vermelho
Baby, compra o jornal
E vem ver o sol
Ele continua a brilhar
Apesar de tanta barbaridade…
Baby escuta o galo cantar
A aurora de nossos tempos
Não é hora de chorar
Amanheceu o pensamento…
O poeta está vivo
Com seus moinhos de vento
A impulsionar
A grande roda da história…


putz! que texto!
minhas verdades transitórias são tantas.
no momento, são elas que acupam a minha vida.
um dia de cada vez, quem sabe eu chego à verdade da minha existência.
bjsss
Fiquei duas horas refletindo sobre minha verdade transitória. Que também é o que justifica minha existência. E tudo que dá sentido a minha vida.
Agora vou chorar mais duas horas, pensar que é uma pena não poder comer bolos de chocolate com peso de dois elefantes, e seguir em frente.
Se o poeta não morreu, apenas foi ao inferno e voltou, eu sei que também posso.
Quando voltar de lá, tão em breve, te conto.
Hoje é (foi.. sei lá) um dia cheio de verdades, e que não consigo (por enquanto) encará-las como transitórias…
K, passei por aqui achando que me divertiria.. e vou dormir (sozinha snifff) com tempo pra refletir… Droga droga droga…
ok, amanhã eu volto.
beijos
é d. k…somos finitas mesmo…pena..pena…gostaria que não…nossas verdades aparecem e desaparecem …seu texto hoje mexeu muito comigo….melhor não pensar e continuar…….buscando…beijo querida lúcia
Texto muito bem elaborado, moça! Perfeito!
Já pensei bastante sobre isso, na verdade. Já entrei em parafuso (numa ‘crise de meia-idade’ em meus ‘bem vividos’ 18 anos ¬¬) por causa dessa questão, “pq vale a pena viver? O que nos prende aqui afinal?”, e acho q encontrei minha resposta.
Sentir! E ter consciência de que sinto – não necessariamente identificando a emoção, importante frisar. Apesar das misérias nossas e do mundo, existem milhares de experiências que valem a vida [para os curiosos, claro]. Acho tudo mt bonito, rs.
“Já que sou, o jeito é ser.” Já que estou aqui, aproveitarei, rs. E sem a nada nem ngm prejudicar, of course.
Coisa mais linda de vc, esse texto!
A K. me enche de orgulho!
;*
Ainda não sei a minha verdade. Acho que não tenho nenhuma, estou por aqui só de passagem, matando o tempo enquanto ele não me mata de vez.
E eu quero saber a sua verdade. O que vc acha que é, hein, dona K?
E esse seu texto me lembrou daquele vídeo da explicação do porquê o anel de compromisso vai no dedo que vai. (http://estou-sem.blogspot.com/2008/07/porque-aliana-vai-no-4-dedo.html)
Beijos!
Sozinhos, não somos nada.
Quem nos confere um sentido são precisamente os “outros”, nomeadamente aqueles a quem concedemos a aura de “verdade”. Por mais transitória que ela possa ser… é tudo enquanto dura, é memória que permanece depois, reminiscência que integra um pouco de quem vamos sendo.
*E, você? Qual é a sua verdade? O que justifica sua existência no mundo?*
Estas perguntas estão ecoando em todo o meu ser…
Muitas vezes paro para pensar em algo assim: o que de fato dá sentido a vida?
Se eu fizer uma análise cristã, vou caminhar para uma resposta que, se raciocinada, me preencherá “em partes”.
Se eu fizer uma análise material, vou encontrar também boas respostas, tentando assegurar-me de que a vida é isso aí e, como disse a ´Lalá´, já que estamos aqui, vamos aproveitar como dá e viver… também uma resposta para preencher parte das dúvidas.
Porém, considerando excetuar os filhos desta análise (se é que isso é possível), o que restará? Mais nada???
O que é certo, hoje, é que seus textos me preenchem.
Beijos K…
————–
“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
**** Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada. ****
(Cecília Meireles)
Eu sempre gostei deste poema… de verdade.
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com o mesmo perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Ops, esqueci de mencionar. O poema “A Verdade” é do Drummond
Ka,
A vida passa, a obra fica. Marçal Aquino sabe disso. E você, agora, também.
Oi K.
Verdadeira é a nossa existência, ainda que não saibamos de fato porque estamos aqui. A verdade está em nossas mentes, em nossos corações. Aceitamos o que nos completa e negamos o que nos diminuí. É um processo constante, diário. Ninguém disse que viver é fácil. Até a dor ensina. E tem dias que dói muito. Até a palavra nos traí. Transitórios somos todos nós, mas somos verdadeiros, e sabemos da existência (virtual) um do outro, neste mundinho paralelo. Você é verdadeira porque somos assíduos. Há aqui um vínculo implícito, você nos dá e nós te perpetuamos, enquanto o provedor manter o seu site no ar.
Bjs.
K. este post de hoje está projundíssimo… abissal… mas tá bonito, só que eu realmente não quero pensar em o quê me justifica no mundo… não, não… quero problemas mais fáceis, como a conta a pagar, a casa pra cuidar, o menino pra cuidar…
Beijos,
Oi amada, depois de muito quebrar cabeça, dar murro em ponta de faca, voltas e mais voltas descobri, uma das coisas que justifica minha existência é fazer a diferença na minha profssão (professora). Trabalhar com alfabetização e educação especial, fazer a diferença na vida dos meus alunos, dar o melhor de mim. Isso não é toda minha vida, mais dá um sentido danado a ela.
Tenho esta certeza de transitóriedade , vou morrer um dia, como não sei quando ,quero fazer todas as trilhas que puder, beijar todas as bocas, viver todos os amores, dançar todos os forrós, visitar todas os museus, lbibliotecas, ouvir todas as músicas, e livros, há os livros… quero ler todos os livros do mundo, (eu sei, eu sei, não vai dar tempo) ma quero ler todos que eu conseguir, porque acredito que os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas, mas os livros mundam as pessoas ( quem escreveu isso mesmo? Não lembro)., quero dizer as pessoas que eu amo que eu as amo ,enquanto elas podem ouvir, não quero enterrá-las com aquela sensação de eu devia…. e se…. Enfim, vivendo um dia de cada vez, procurando sempre viver da melhor maneira que me for possível,para quando for “chamada de volta” quero que meu último pensamento seja do tipo :
___ Foi bom pra você?
—– Resposta: Foi muito-mais-melhor-de-bom.
Bravo, bravo, rs
A beleza da dor. Inspirador seu post amor.
Eu to aqui no Rio me perguntando “o que eu faço da minha vida agora? ” rs.
Será que consigo achar minha verdade?
Beijocas.
Flor,
Que texto lindo. Me emocionou…
Eu também ando mais questionadora e pensativa que o normal. E isso dá uma agonia tão grande (por não saber as respostas de tantas perguntas que nos fazemos o tempo todo) mas dá um certo alívio também. Dá alívio porque quando eu fico assim, tenho a sensação de estar despertando para um sentido maior de tudo (que eu não sei qual é), é como se a gente parasse um pouco de marchar na direção de todo dia e conseguisse para refletir um pouco sobre a efemeridade da vida, e isso deve ser saudável…
Com certeza você reaviveu a Valéria não só na sua cabeça, pois quando decidiu escrever sobre ela, reaviveu na vida de um monte de gente, como na minha. Obrigada.
Beijocas e um ótimo fim de semana.
Em tempo: eu continuo buscando a minha justificativa no mundo… tomara que eu tenha tempo de descobrir!
Profundo…
Minha verdade?
O que me justifica no mundo é pensar que eu possa servir algo, é ser um todo dentro do Nada e no mesmo tempo um nada dentro do Todo, é ser uma particula no universo que ajuda a manter a coesão do mesmo…
Pode parecer muito egocentrista, mas minha principal justificação no mundo é que não fazemos as coisas que fazemos em vão. Para mim, isso já basta…
Beijos.
Na verdade não busco uma verdade, acredito que estou aqui por um acaso, porque alguns grãos de poeira estrelar se encontraram a eons atrás e esse evento singular e aleatório me gerou. Sei que tudo em mim é transitório e se tornará poeira e átomos no futuro, por isso não tento justificar nada, só viver o momento, ou então preparar o futuro para me ser mais agradável possível.