A gente se acostuma com o fim do mundo
.
“É díficil renunciar a um talento,
mesmo que seja o talento de jogar a própria vida pelos ares”
Essa é uma das frases anotadas, e de que gostei, do mais recente livro lido - na primeira semana desse mês. “A gente se acostuma com o fim do mundo” é a segunda obra do francês (tá, de novo… eu e esses franceses!!!), Martin Page, que escreveu também “Como me tornei estúpido”, que ganhou adaptação para o teatro no Brasil, em 2007. Aos 33 anos, é um dos autores da nova geração francesa que faz sucesso pelo mundo e tem sido traduzido em diversos países. Usa uma linguagem bastante visual, ironia bem dosada e um pouco de humor.
Particularmente, não achei o livro nenhuma obra-prima. Num primeiro momento até pintou uma pequena sensação de decepção. E, não gosto de me decepcionar com autores franceses. Como amei Muriel Barbery, também francesa, em A Elegância do Ouriço, acho que fui um pouco “otimista” demais com o seu conterrâneo. O fato é que embora ele dê todo este “tempero” (humor, ironia…), do qual gosto, faltou um pouco mais de “dificuldade” na escrita. Ou seja, para mim, o livro foi muito fácil de ser lido. Não me fez “quebrar a cabeça”. Nem precisei tomar um “anestésico”…rs..Então, o problema pode ser eu, e não ele. Acho que é por isso que me satisfaço com os “clássicos”.
Elias é um poderoso produtor do principal estúdio de cinema francês (poderia ser Hollywood) que sonha em suceder o chefão à beira da aposentadoria. Seu mundo desmorona quando é sacado do filme mais importante da companhia, substituído pelo rival. A decadência do personagem é mostrada num estilo de sátira mais próximo do drama que da comédia. Pequenas alterações do cotidiano, como o chefão que o deixa esperando na ante-sala, o assistente do rival que entra na sua sala sem bater, indicam a proximidade do naufrágio. Mas é justamente quando perde poder que Elias percebe a falsidade de seu mundinho e passa a rever seus valores. (Fonte: Isto É Gente)
Elias vive num mundo de imagens. Ao mesmo tempo, sua função é a de produtor, uma função que o permite não viver de forma real. Ele toma conta de sua namorada alcoólatra Clarisse, e assim, sua existência só se dá em função dos outros. Ele é uma espécie de fantasma, que trabalha em filmes que não são seus, em vidas que não são a sua. A partir do momento em que nos dirigimos a alguém, fazemos uma representação, somos um pouco atores. Nesse sentido, Elias também é um ator. Ele passa essa imagem de alguém responsável, seguro de si. Esse personagem é particular demais para mostrar se vivemos todos num mundo de imagens. (Fonte: Época)
Enfim, passado o primeiro estágio de decepção, a temática “contemporânea” do livro me fez pensar (finalmente!). Fiquei refletindo sobre (1) o processo de decadência, que às vezes entramos, e como nos comportamos a ele, (2) como somos feitos de “imagens” e finalmente (3) como nos acostumamos, como diz o título do livro, com o fim do mundo…

Questões bem atuais. A primeira fala exatamente da nossa quase “obrigação” de ser um ser bem-sucedido - profissionalmente, amorosamente, socialmente. Não há mais espaço para os “malditos”, os “boêmios”, os “inadequados”. Quem foge ao “modelo” pré-estabelecido de sucesso, está fora da roda dos afortunados. E, são raros os casos que quebram essa “lógica”. E, no livro ele diz na página 134: “Toda a tragédia da vida diz respeito a uma inadequação”. E é mesmo. Veja… se você não se “encaixa” em algum padrão, imediatamente, está à margem… Díficil viver assim. Me lembrei dos meus “tempos de sucesso”, em que tinha uma mesa grande, numa editora “bacana”, e vivia num inferno. Tá certo, como freelancer, o “diabo” só mudou de figura - por que ainda não posso me dar ao luxo de fazer o que gosto (escrever literatura e não jornalismo), porém, uma primeira ruptura teve que ser feita. E foi díficil. E, continua sendo. Essa “inadequação” atual é bem perceptivel. Engraçado como você vira o “sobrenome” da empresa. Você não é o Fulano de Tal. Você é o Fulano, da empresa tal. Sem isso, tá fora. O sucesso é medido exatamente por aí. Ainda que você ganhe mais dinheiro que no passado.
Esse processo de “decadência” (voluntário ou não), no qual o personagem viveu, e que de certo modo passei e passo há dois anos, mostra como somos frágeis sem esse “guarda-chuva” institucional. Sem a empresa, na época, perdi muito da referência de quem eu era. E, ainda que tenha saído por vontade própria, ou seja, pedi demissão depois de muitos anos, mesmo assim, e principalmente por isso, ficou mais evidente essa “fragilidade”, quando acordei no outro dia sem saber o que fazer. E, essa “sensação” permaneceu por muito tempo.
A segunda questão é a “imagem que criamos” a nosso respeito. Se nada tivesse “abalado” o meu “mundinho” (e nesse caso foi uma separação conjugal que levou a ruptura também do trabalho), talvez continuasse “satisfeita” naquele faz de conta. Traduzindo: mesmo sabendo que aquilo não me fazia feliz como pessoa (ainda que tivesse sucesso profissional), a imagem de “felicidade” que havia se criado em torno era tão forte que enganava a todo mundo, inclusive, a mim. Nós acreditamos em nossas próprias mentiras. Ou, como Martin Page disse no livro é tal da fidelidade perante a infelicidade. ”Justamente o mais infeliz é quem sorri para tranquilizar os outros”.
E a terceira questão, título do livro, é finalmente como “A gente se acostuma com o fim do mundo”. Pode parecer uma idéia maluca, mas não é. Se está aí uma verdade, pela qual valeu a leitura do livro, foi refletir sobre isso. A gente se acostuma MESMO com o fim do mundo. E “o fim do mundo” muda de pessoa para pessoa. O fim do mundo para alguém pode ser sua “infidelidade”, sua “pobreza”, sua “ignorância”, seu “sucesso”. Enquanto que para outro pode não ser nada disso.
Particularmente, me acostumei com muitas coisas que representam o “fim do mundo”. Rompi com outras (como o emprego formal - e isso não significa que não volte a ele), e outras me foram impossíveis fazer essa separação. Ele diz no livro: “Há coisas das quais não podemos tirar férias”. É verdade. É dificil a gente tirar férias da gente mesmo, em certos casos. Mudar é sempre muito díficil, enquanto “nos acostumar” é um caminho confortável.
.
Eu me acostumei a morar num apartamento de 55 metros e estou me acostumando (por questões de segurança) a não desejar mais uma “casinha de vila”, com primavera na janela.
Eu me acostumei a trabalhar feito louca, achando que isso é o “normal” e vai me garantir algum tipo de “felicidade”. Me acostumei com “terninhos” cinzas e sapatos apertados.
Eu me acostumei a viver atrasada com tudo, a tomar café de pé, a almoçar na frente do notebook, a não pisar mais no chão descalça e não tomar mais chuva…
Eu me acostumei a viver sozinha, a falar com as plantas e ter um “telefone secreto” só para poder desligar os outros dois “públicos”.
Eu me acostumei a ter uma “risada falsa” no trabalho, a discurso decorado, cara de paisagem…e a me transportar por pensamentos, só para suportar algumas pessoas…
Eu me acostumei a muitas coisas!!!!
.
A gente se acostuma mesmo com o fim do mundo…
E você? Se acostumou a quê?
.
beijos, bom domingo!
.
TRILHA SONORA DO DIA
(Por que faz parte do meu “kit sobrevivência”)
.
.
Snow Patrol - Open Your Eyes
Get up, get out, get away from these liars ´Cause they don't get your soul or your fire Take my hand, knot your fingers through mine And we'll walk from this dark room for the last time Every minute from this minute now We can do what we like anywhere I want so much to open your eyes ´Cause I need you to look into mine
24 Comentários
Comentários RSS URI identificador do TrackBack
Deixe um comentário




Algodão doce...
Tulipas Vermelhas....
Sapatilhas...
Morango com leite-moça...
Joaninhas...
Vinicius de Moraes...
Vinho...
Minha loja preferida...
Unhas Vermelhas....
Presilhas Tic-Tac...
Paris...
Música...
Rouge Royal, de Marina de Bourbon...
Andar de mãos dadas...
Lua Cheia...
Livros.... muitos.....
Deitar na grama....
Edu Lobo...
Chocolate.... muito....
Mademoiselle, da Coco Chanel...
Receber e enviar cartas...
Céu azul...
Cafézinho...
Borboletas...
Beijos roubados e dados...
Filme Antes do Pôr-do-Sol
Arco-Iris...
Amor Amor, da Cacharel
O Fabuloso Destino de Amelie Poulain...
Água, pra beber e para banhar...

Já falei que gosto de debater estes temas mais sérios ao vivo. De poder ver a reação da pessoa aos meus argumentos, a ter tempo absorver o que ela fala e poder interromper quando acho que tenho algo legal a acrescentar. Sinto que sempre esquecerei metade do que penso ao escrever um breve comentário. Por essas e outras espero um dia poder dividir uma torta mousse com vc, dona moça, e com a Daminha. Tenho certeza que o papo ia render bastante.
Eu me acostumei a esquecer, a esquecer do que eu queria mas tive preguiça de correr atrás, a esquecer as dores que trariam o crescimento, a esquecer mesmo coisas que eu não deveria.
Tb me acostumei a comentar aqui
Fiquei com vontade de ler o livro! Mas o post me fez lembrar de varias coisitas, daquelas que a gente quer romper, sabe, como os adolescentes, frase que acho simplesmente ótima: -Quero ser diferente!… Como todo mundo!
Bzus, otimo domingo para você! Ethel Scliar
Bob, querido vira-lata
por acaso você acha que se a gente se encontrar, vamos ficar falando de coisas sérias???? rs rs rs ainda mais diante de uma torta mousse????
tortas mousses me embriagam mais do que os vinhos…rs..
e ai, vc e a daminha vão me levar para Paris nas malas ou não???? uma mala a mais outra a menos..rs..
beijossss
…
O amigo Andarilho…
e eu me acostumei com os seus comentários aqui… bjo!!!
…
Ethel, linda
Leia o livro!!!

mas, no fundo, para eu comentar aqui e para você ter se interessado, ele não deve ser tão ruim assim….
Eu que sou uma chata!!! believe me …
beijo!!
Eu acho que me acostumei com tudo isso ai que vc. também , parece até texto “escrito por mim!”
Nós nos acostumamos a tudo, até a postar artigos, comentar nos blogs. Muitas coisas tornam-se até vícios e quando chegam a este ponto temos que ficar alertas.
Bom domingo. (Vou a caça do livro)
vou repetir….” Nós acreditamos em nossas próprias mentiras”..” uma super risada falsa”…”falar com plantas ou paredes”….em particular concordo com o autor e você!!!! é adaptação do personagem escolhido na sua vida…é sempre
bom viver um pouco de “mentira” dar prazer…”felicidade” por
instante rs rs acostuma..vive……beijos lúcia
Ei, K?…
Roubaram-te o post “Voyeur”?… Rsss… Que tarados!
Kisses!
Almost, amado…
estou com saudades do pior homem do mundo.
escuta só, o efeito do vinho passou… hehehehe….
então, achei que o post estava impróprio para o “horário”…
me diga uma coisa, será a maturidade chegando???
(que medooooooooooooooo…)…
PS: a história não foi nessa sexta-feira…. ela já tem um tempinho….e, como eu não coloquei o tempo, gerou algumas dúvidas nos “leitores com problemas hormonais”..rs…
beijosssssssssssssssssssssssssssss
Já que estão pedindo, voltei o texto…
mas, com a devida observação em relação ao tempo..
Sabe quando tu está pensando na vida e acha um texto que tem muito a ver com o que tu pensa.. pois é.. esse texto tem tudo a ver com as coisas que amanheci pensando hoje.
Obrigado por me dar esses presentes.
Bom domingo e um beijo do seu amigo do extremo sul.
Sabe K.,
Eu tive que romper com muitas coisas na minha vida. Umas por opcao, outras por necessidade.. umas trouxeram reviravoltas, outras vieram de mare mansa.
Me acostumei a algumas, claro. A outras, nao tem jeito. Eh fato.
Mas quem sabe se quando eu ficar gente-grande eu aprenda a nao brigar comigo por coisas sem importancia?
(sorry.. consegui desconfigurar o teclado do laptop e por isso ta tudo escrito sem acentuacao)
Beijo e bom domingo
Eu tinha escrito um monte de coisa e sumiu.. snif!
Enfim… apesar de tantas coisas terem mudado na minha vida, muitas delas ainda nao estao devidamente ajustadas. Nao consigo me adaptar, ainda. Quem sabe se me acostumo um dia? quem sabe se me conformo com tantas mudancas?
(teclado desconfigurado, por isso a falta de acentuacao)
Beijo!
oi K!
voltei aos escritos, só num dos lados, o outro ainda tá paradinho lá com vc pôde ver … só joguinho de sinuca na lembrança, rs.
ótimo vir aqui, texto que faz muito minha cabeça, adoro reflexões,k e destas então, minhas favoritas.
acho que este acostumar-se é a principal característica humana … e tem até um outro nome: acomodação.
às vezes nos rendemos, noutras nos rebelamos e daí vem o prazer e a delícia de viver … raras ocasiões sim, mas preciosas!
bjs e saudades daqui.
Ja coloquei o livro na minha lista, em especial pq me dou melhor com o q vc chama de livros faceis do q com os grandes classicos..rs Leio pra relaxar mesmo, nao quero pensar muito..rs
A gente se acostuma mesmo com coisas demais, prefiro nem pensar, mas acabei pensando nisso essa semana, em q me irritei com tudo e fiz algo q nunca tinha feito antes: arrumei um atestado e me dei de presente 5 dias a toa em casa… é bom as vezes mudar tudo..
ótima semana p vc!
Beijos!
Kzinha, minha paixão eterna e virtual:
Infelizmente vivemos num mundo “pré-fabricado”, de comportamentos, sentimentos e pensamentos padronizados, que o instinto de rebanho se encarrega de tornar quase intransponíveis. As raras criaturas que, como nós sentem a inspiração irresistível e inquietante por uma existência original e viva, entretanto não têm muita escolha.
que podemos fazer se resume a:
Apesar da consciência e da rebeldia, queiramos ou não, sob o jugo dos que “organizam” este mundo (os nossos “donos”, que disfarçam seu status de proprietários de gente sob a fantasiosa etiqueta de empresários, acionistas, capitalistas, etc.), e a adesão cega e voluntária das demais ovelhas, a necessidade da “sobrevivência”, no mais da vezes fala mais alto e manda ao diabo toda inconformidade.
O máximo, neste mundinho totalitário (termo que a mídia substitui pelo glamuroso “globalizado”
a) pirar dos cornos e sair por aí a virar mundo, estilo mendigo profeta, Antônio Conselheiro ou qualquer coisa parecida, a pregar a revolução anarquista (que é a insurreição de cada um contra a besteira obrigatória e dominante);
b) aderir ao método iraquiano e virar “homem-bomba” (para o que é necessário alguma grana, não é coisa para qualquer peão trabahador - mas, já que se vai morrer, lance mão logo de todas suas “economias);
c) tomar um porre por dia, pintar a bunda de vermelho, subir no primeiro poste, de megafone em punho, e esculhambar o Lula, a cretinice padrão chique da Rede Globo de Televisão (e suas concorrentes);
d) ou simplesmente mandar tudo às favas pela internet, com toda dedicação, circunspecta e minunciosa.
Quem souber de forma melhor e mais radical de exercer a própria autenticidade não se faça de rogado: bote logo a coisa em execução, que já que somos gado, podemos ao menos mugir uns um pouco diferente dos outros.
estou lendo “A Elegância do Ouriço” e estou degustando cada pagina como há muito não fazia com um livro.
Descobri umas fitinhas da Post-It que grudam nas páginas e ficam parecidas com marcadores…o livro tá cheio de fitinhas…que delícia.
Mairah
mto bom o site, atépara um carioca chato que não gosta de”blogs”
tá de parabéns, mesmo!
Oi K.
Não comentei o post anterior porque é raro eu usar o computador nos finais de semana. Bem: a festa não foi tão chata assim…
Eu li Martin Page (Comment je suis devenu stupide)
quando estava estudando Francês e justamente por tratar-se de um texto fácil eu li o original. Você disse tudo: não trata-se de nenhuma obra prima, mas confesso que dei umas boas risadas com a ironia e o humor do autor.
Boa semana.
Oi K.!
Ontem tirei o dia justamente para isso..refletir…e me acostumei com tanta coisa ….que não quero mais..vou tentar mudar…DESACOSTUMAR…espero….
Muito bom seu texto, aliás , bom demais!!!
PS: Assiti Closer…só para variar..AMEI!!Valeu pela dica!!
Bjs e Boa semana
Salut!
estou lendo o livro de Muriel Barbery. aqui, na França, se chama L’élégance de l’hérisson. o que se traduz por : a elegancia do porco-espinho!!!!! …
primeiro, responda: com uma agenda dessas aí do diário, quando é que você arruma tempo para ler????
Eu me acostumei a ser acostumada com as renúncias que faço diarimente em nome da felicidade de alguém…me acostumei a esperar por essa tal felicidade, me acostumei com a falta de coragem de jogar tudo para o alto e ser feliz de verdade!!!
acho que o meu fim de mundo já chegou e, como estou acostumada com a “paisagem”, nem notei!!!
Beijocas
K., parece que o jornalismo nos faz, a você e a mim, cada vez mais vítimas da tirania de dead-lines e quetais. Também jogo na megasena para ver se dou um chute na traseira do jornalismo. Por enquanto, cozinho para esquecer que o meu cérebro cozinha.
Quanto ao Martin Page, largue dos franceses e vá de italianos. Se ainda não leu, se joga em “Caos Calmo”, do Sandro Veronesi. Coincidentemente, acabei de ler o “Ouriço”. No feriado, durante uma madrugada. Engoli o livro. Muito bom. Amei. E mais ainda o fim.
Beijo!
[...] A gente se acostuma com o fim do mundo, de Martin Page (que comentei neste post aqui). [...]