Madame Bovary dos tempos modernos

Definitivamente gostaria de comentar mais aqui sobre os livros que leio. Mas, infelizmente, não me sobra muito tempo. Nem sei como tenho conseguido manter a rotina da leitura (sim, eu sei, não durmo) e escrita no blog… Mas, honestamente, essa é uma válvula de escape - para não enlouquecer (mais). Tenho profundo prazer em ler - ainda que muitas vezes coisas sérias, “pesadas”, clássicos… E, tenho igual prazer em escrever aqui, no Incompletudes, coisas não tão sérias assim (como fui gentil com o bloguito né..rs.). É o meu parque de diversões.

No mês passado, falei do livro “A Elegância do Ouriço”, já que dos livros que li em março foi o que mais me surpreendeu. Aliás, quem leu o livro gostou? (e, eu sei que tem gente que leu por minha indicação, não é senhor G. e Sr. Redneck!!!). Este mês vou comentar dois dos que li, um porque acho que pode ser uma boa indicação. E, o outro porque simplesmente me intriga.

 

Em abril li os seguintes livros:

  • Ensaios de Amor, Alain de Botton
  • Madame Bovary, Gustave Flaubert
  • Cartas a um Jovem Poeta, Rilke
  • O Mago, Vladimir Nabokov
  • A Queda, Albert Camus

 

Os três últimos (de Camus, Nabokov e Rilke) gostei bastante. Achei uma boa leitura, especialmente porque não tinha gostado muito do Camus, no mês passado, em “O Estrangeiro” (narrativa seca demais). Desta vez, me surpreendeu positivamente. O do Rilke, nossa, é uma lição. São cartas (que adoro) e foi uma das poucas vezes que não fiz anotações no meu “caderno”, já que teria que copiar o livro todo. E “O Mago”, de Nabokov - o primeiro “impulso” do livro “Lolita”, do mesmo autor - é genial (na narrativa), mas prevísivel (na história). Mas, não são estes três que gostaria de comentar, e sim dos dois primeiros.

E, neste momento, gostaria de falar de Madame Bovary. É a terceira vez que leio o livro. A primeira fui obrigada a ler no colégio e tinha por volta de 15 anos. A segunda vez foi no ano passado, que fiz uma leitura para “relembrar”, já que comprei a edição “comemorativa” dos 150 anos da publicação do livro que conta, inclusive, com o processo que o autor sofreu do Governo Francês e sua defesa, na época. Agora fiz uma leitura mais cuidadosa, vamos dizer assim, com minhas “famosas” anotações (famosas para mim, que fique claro..rs).

Bom, você acha que ler três vezes o mesmo livro é muito? Concordo em gênero, número e grau. E, só faço isso quando realmente acho que preciso, afinal, tem tanto livro para ler que nunca vou conseguir… Então, ler a mesma obra três vezes, significa, provavelmente, que vou deixar de ler menos dois livros (outros) na vida. É, isso realmente é triste. Mas, a Sra. Emma Bovary me intriga.

Duas das pessoas que mais respeito na vida (e olha que respeito só umas cinco…rs..), têm opiniões completamente divergentes sobre o livro. E, no ano passado, assisti a um “duelo de idéias” e na hora não soube me posicionar porque fazia muito tempo que tinha lido o livro. Pois bem, li novamente…

As opiniões divergentes sobre a obra (existem várias, é claro, mas, as das pessoas que gosto) consistem basicamente em uma coisa: Madame Bovary é um livro datado? ultrapassado?

O romance conta a história de Emma, uma mulher sonhadora pequeno-burguesa, criada no campo, que aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental. Bonita e requintada para os padrões provincianos, casa-se com Charles, um médico interiorano tão apaixonado pela esposa quanto entediante. Nem mesmo o nascimento da filha dá alegria ao indissolúvel casamento ao qual a protagonista se sente presa. A partir daí, a história se desenrola com traições e algumas tragédias.

Até aí uma história comum para nossos tempos certo? Não há 150 anos quando foi lançado, já que as idéias de Flaubert causaram um verdadeiro escândalo. Será que a história é realmente comum e ultrapassada para nossos tempos? Ou, continuam mais atual do que nunca? Veja, além da questão do adultério, da “falência” do “modelo conhecido” de casamento, das relações fantasiosas, ele também faz uma severa crítica ao clero e especialmente à burguesia. E quem são os “pequenos-burgueses” do mundo atual? Não somos todos nós da chamada classe média, com nossos telefones celulares de última geração e nossa mania de aparência?

A questão do adultério é somente o “pano de fundo”. Mas, o que leva a esse universo de fantasias e falta de contentamento com o seu mundo, da sra Bovary? O que ela busca? Emma, como disse a professora Fúlvia Moretto na introdução desta edição comemorativa, nunca verá o mundo da realidade, vê-lo-á sempre através de ilusões e de fantasias. Emma viverá num mundo irreal onde somente conta sua própria visão das coisas, baseada na qual tomará as decisões que a levarão aos devaneios e aos desenganos. Colocar-se-á sempre “acima” ou “ao lado” do lugar que ocupa na sociedade, o que a levará a viver outra vida, feita de mentiras e arrebatamentos. Emma considera-se superior ao seu destino (como escreveu Claudine Gothot-Mersch), e é possuída por um imenso apetite por algo de inacessivel.

 

   

Será que não somos todos um pouco Emma Bovary?

Será que quando “ignoramos” o mendigo, não insistimos em não ver o mundo da realidade?

Será que não gostamos de viver num mundo de ilusões e fantasias, que tantas vezes a TV e os meios de consumo não nos jogam?

Será que não gostamos de viver nesse mundo irreal que inventamos todos os dias para nós?

Será que não optamos sempre por ter nossa própria visão das coisas, ignorando outras?

Será que não vivemos tantas vezes num mundo de mentiras desejando coisas inacessíveis?

Será que não nos consideramos superior ao nosso próprio destino?

 

Gustave Flaubert, o autor foi levado aos tribunais, por conta do livro, onde utilizou a famosa frase “Emma Bovary c’est moi” (Emma Bovary sou eu).

 

Então, pergunto: será que não somos todos um pouco Emma Bovary deste mundo moderno?

Da minha parte, só tenho a dizer:

Emma Bovary c’est moi!!! Emma Bovary c’est moi…

 

.

beijos a todos! e um bom dia! :)

amanhã falaremos de amor (do outro livro)…

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14 Comentários

  1. Comentário de G on Abril 29, 2008 4:45 am

    Menina, menina… Minha Kastor… Não acredito muito na idéia de que Bovary seja tão revolucionário assim… Foi numa época (e por isso é clássico)… Penso que o que escrevemos hoje serão clássicos daqui a cem anos… Acho uma bobagem o culto aos “clássicos” porque meia dúzia de intelectualóides dizem que eles o são. Conhecer esses clássicos, tudo bem…. mas reverianciá-los somente…. não sei.
    Exatamente por que Flaubert é tão melhor que Paul Auster? Tenho dúvidas. Tenhamos em mente que autores antigos publicavam as obras em jornais (e ganhavam por capítulo de jornal) e assim estendiam a obra X fatura). Seria ridículo, absurdo e burro dizer que os nego, não, não é isso! São maravilhosos (como os foram os antecessores - Homero, por exemplo! -)
    Mas lembremos também, de Pessoa (sua obra em prosa)… Borges, Calvino, Saul Bellow e tantos outros…. Enfim….
    Beijos

  2. Comentário de Urban on Abril 29, 2008 10:34 am

    Ah K … me deu vontade de ler novamente tb … só li uma vez, faz tempão.

    Refletindo com vc… sim em muitos momentos de nossas vidas somos um tanto de Emma
    … as fragilidades, as tortuosidades, os desenganos, as ilusões …
    Humanos que somos hein?!!

    Adorei o post.
    ;)

  3. Comentário de Urban on Abril 29, 2008 10:38 am

    Ah sim, acho interessante reler livros marcantes que lemos em outra época da vida … a visão e absorção serão sempre diferentes visto que estamos em constante transformação.

    Me lembro de como foi ler Dom Casmurro aos 16 anos e depois aos 30 e alguns … outra experiência.

    ;)

  4. Comentário de lucia on Abril 29, 2008 12:06 pm

    …….quesito número quatro..o mais apropriado….querida K!! você é uma moça muito letrada….hein rsrs..bom saber!!!!
    ..estamos “viciados” em inconpletudes……..beijos lúcia

  5. Comentário de lucia on Abril 29, 2008 12:35 pm

    ……ai..ai…corrigindo….correndo ..estou atrasada….Incompletudes bj lúcia

  6. Comentário de RM on Abril 29, 2008 8:18 pm

    Será, gatíssima? (”O que será que será”, como dizia um velho compositor… ah, também “o que será que me dá” ;)

    Bem, não sei responder às questões propostas, mas tendo a me identificar pouco - e cada vez menos - com esses dilemas existenciais. O que interessa é fazer: let’s do it!

    Agora, esse Flaubert, quem diria, heim? Quer dizer que ele era “madame”???

    (Queridésima, é tudo brincadeira. E uma forma divertida, espero, de dizer goodbye. Vou tirar uma férias da blogochatosfera… ;)

  7. Comentário de Bob on Abril 29, 2008 9:13 pm

    Também está correndo, será que vai conseguir descansar no feriado?

    Tenho uma ultra-hyper inveja da sua capacidade de ler. Tudo bem que leio religiosamente 3 revistas e mais alguns comics da primeira a última folha todo o mês. O que me toma bastante tempo, mas ainda assim queria ler mais, a minha pilha de livros não lidos só aumenta. Não consigo parar de comprar, que droga.

    Os únicos livros que li mais de uma vez foram o Dom Casmurro, a primeira e segunda vez obrigado, as outras por que quis, e o Senhos dos Anéis. Tudo bem que este livro não será um grande marco literário, mas quando se lê os outros livros do Tolkien, não dá para não reler a obra mor.

    Sobre as questões existências, só converso sobre elas em mesas de bar regadas a muito álcool.

  8. Comentário de ana on Abril 30, 2008 12:28 am

    Oi, K, interessante o que você comenta sobre o livro Madame Bovary. Acredito que é um livro muito, muito atual. Na verdade, acho que os seres humanos não se modernizaram tanto quanto pretendiam… Recentemente a obra foi comentada no programa Saia Justa e essa foi a conclusão delas também. Reler é sempre bom. No meu caso, estou relendo “A insustentável leveza do ser” que li aos 14 anos… como pode imaginar, muitas impressões mudaram. Aliás, acho que pela primeira vez, estou compreendendo muita coisa. Mas não é sempre assim?

  9. Comentário de Andarilho on Abril 30, 2008 1:16 am

    Já faz um bom tempo que li esse livro, e a não ser pelos detalhes de época, achei que poderia ter sido escrito em qualquer época, ou seja, a essência transcende a sua época.

    Entretanto, apesar de ter gostado, não vou dizer que o livro me marcou, a ponto de colocá-lo na estante dos ‘meus clássicos’ ;)

  10. Comentário de Lyn Monroe on Abril 30, 2008 2:50 am

    Amo ler, mas nao sou gde fã de classicos, tenho um certo trauma, fujo de literatura muito séria..rs
    mas to anotando suas indicacoes, uma hora eu arrisco..rs Entao continue repassando as indicaçoes, ok??
    No momento descobri q adoro biografias, to lendo Anjo Pornografico, e enlouquecendo com a vida doida de Nelson Rodrigues.
    Gde beijo!

  11. Comentário de F. on Abril 30, 2008 4:01 am

    oi k.

    cheguei até este seu canto procurando alguma coisa q já nem me lembro mais…
    sabe akele textinho no canto direito??? “Só leia se:”
    pois é. me identifikei tanto q fui obrigada, não sei pq, a passar pelo menos 1 hr lendo seus posts… só não fico mais pq hj não posso. assim como sua irmã mais nova, tenho q durmir cedo… rsrsrs
    volterei outras vezes para tentar debater com vc seus posts e para conhecer a vida de uma mulher, rumos aos trinta anos, que na sua eterna confusão mental, sexual, espiritual, profissional, busca freneticamente se reinventar um pouco todos os dias… assim como eu!!!

    sobre o livro, não li. assim como Lyn Monroe, tb não curto classicos.

  12. Comentário de interessante.h on Abril 30, 2008 1:15 pm

    Acredito que a cada nova leitura, o livro se torna um novo livro, somado a nossas experiências adquiridas até aquela data de releitura, então o livro se torna outro. Creio que este livro seja bem atual, o homem não evoluiu tanto quanto imaginava não. Gosto das tuas indicações e estou acompanhando as dicas, a fila de espera de leitura já está enorme eheheh. Beijo guria.

  13. Comentário de mariane on Maio 1, 2008 3:14 pm

    Esse livro é maravilhoso mesmo. Sempre penso em ler ele de novo … mas quando penso que eu leio menos que 10 livros por ano … até desanima em repetir.

  14. Pingback de A Hora da Estrela « Incompletudes on Junho 8, 2008 4:28 pm

    [...] outro, que ficará perdido no tempo e espaço. Mas, dos relidos em 2008, fui de Flaubert, com sua Madame Bovary, Hilda Hilst, e sua Obscena Senhora D., e agora chego a Clarice Lispector, e sua Macabéa, em A [...]

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