A beleza do Grotesco
Abril 1, 2008 de K. - incompletudes.wordpress.com
“O belo é a adequação. Se refletirmos um pouco mais a sério, nada mais é que a iniciação à via da adequação”, do livro: A elegância do Ouriço de Muriel Barbery.
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afetado, bizarro, calaveira, celebrório, esdrúxulo, espiclondrífico, esquipático, esquisito, esquisitório, estapafúrdio, estapafúrdico, estrambólico, estrambótico, estranho, estúrdio, excepcional, exótico, extraordinário, extravagante, heteróclito, incomum, inusitado, inusual, invulgar, irregular, macavenco, mirabolante, pantafaçudo, pantalifúsio, patusco, pintalifúsio, singular, surpreendente, visionário;
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Ontem cheguei atrasada ao dentista. Eu tenho esse defeito. Geralmente estou atrasada para tudo, mas, essencialmente neste caso fui “seduzida” por algo que me distraiu. E, acabei me atrasando. O dentista – que fica a 1.5 quilometro de minha casa – era para às 19h00. Vou sempre a pé. Aproveito esse trajeto para ver gente. E, ontem, eu vi. Cheguei às 19h42 e só posso dizer que meu dentista, o Dr. Márcio, não parecia nada feliz. Estava com minha “ficha” aberta no computador da recepção, tentando localizar o número do meu celular – sem a eficiência necessária para encontrá-lo já que estava desprovido do seu braço direito-esquerdo”, a secretária, que tinha encerrado o expediente às 18h00.
Ontem segui um mendigo (mais um). De cabelos meio curtos, meio compridos – à moda Ronaldinho Gaúcho – com uma garrafa de pinga, envolta a um saco de papel, em uma das mãos e na outra um cigarro. Ele era “bege”. Já perceberam que todos os mendigos são beges? Todas as roupas ficam beges? A cor da pele é bege? Tirando os cabelos negros, sujos e espetados, o moço em questão era todo de um bege-sujo. E, cantava. Eu do lado esquerdo da rua, ele do direito. Mas, alinhados paralelamente. Eu virava o rosto e enxergava-o. Ele também. Me enxergava.
O caminhar – dele – era quase dançado, como o da Chapeuzinho Vermelho passeando na Floresta. Ele, não tinha um vestido vermelho, mas tinha as vestes largas. Não tinha uma cesta não mãos, mas tinha uma garrafa e um cigarro e saltitava. E, cantava, Maluco Beleza, do Raul Seixas: “Enquanto você se esforça pra ser, um sujeito normal e fazer tudo igual… Eu do meu lado aprendendo a ser louco, maluco total, na loucura real… controlando a minha maluquez, misturada com minha lucidez… vou ficar, ficar com certeza…maluco beleza….”
Se todos os mendigos são “iguais” porque aquele, exatamente aquele (e outros que conseguiram o mesmo efeito em mim), conseguiu chamar minha atenção? Considerando o fato que não sou (ou acho que não) nenhuma psicopata perseguidora de mendigos,
esse meu comportamento só pode ser justificado por uma coisa: meu fascínio pelo diferente, pelo grotesco, pelo estranho… E, especialmente, ainda, naqueles que vêem valor em sua excentricidade.
Como o mendigo de ontem: quer algo mais estapafúrdio que um mendigo de um bege saltintate, sujo, com um cigarro e uma garrafa de pinga nãos mãos, cantando maluco beleza? Ele estava brincando com sua própria caricatura de mendigo, com sua própria condição de “ridículo”. Fazia comédia com sua forma ridícula. Expôs todas as suas “feridas” internas e externas e, certamente, ria absurdamente daqueles que desviavam do seu caminho. “Maluco! Doido! Louco!”.
Nada. Grotesco e deliciosamente lúcido.
Enquanto ele cantava e as pessoas passavam desviando o olhar e os corpos deste “Maluco Beleza”, eu – por outro lado – não conseguia desgrudar os olhos dele.
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Há uns dois meses, o Ricardo Soares - minha futura versão intelectual masculina - claro - se eu me esforçar muito - (que atrevimento e audácia a minha em Ric! rs rs rs rs), escreveu sobre o filme A Pele. No dia, disse a ele que queria muito escrever um post sobre esse assunto. Tentei. Mas, tudo me soava falso por que ficou muito teórico. Para escrever preciso dos meus “modelos vivos”, como o mendigo de ontem, para - ainda que tenha que teorizar - viver e sentir essa “conceituação”.
No filme, Nicole Kidman encarna a fotógrafa americana Diane Arbus, conhecida por fotografar o bizarro e o inusitado. Entre os modelos de suas fotos estão gigantes, anões, travestir, prostitutas, artistas de circo… e, outras “aberrações”.

Talvez, esse seja um dos filmes que mais ajudam a entender esse “despertar” pelo incomum, pelo esquisito. Algumas pessoas simplesmente enxergam essas pessoas como “estranhas”, considerando essa “beleza” incômoda e até abominável mas, eu tenho verdadeira atração. Funciona como um imã. Certamente eu não seguiria o Brad Pitt, mas o mendigo “maluco beleza”… fui hipnotizada! rs..rs.. (ok, ok, se fosse o Matt Damon eu seguiria..rs)
E, se pensarmos na frase da Muriel - a primeira deste post - que coincidentemente também li ontem no livro (que estou quase finalizando, sorry G.! íamos ler junto! não consegui! insônia! li quase tudo!), podemos começar esse despertar para ver a beleza no grotesco.
O belo é só uma “ilusão de ótica” de uma provável adequação social.
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Eu gosto dos inadequados. É preciso ver beleza no mendigo, nos malditos, no diferente, no esdrúxulo, no incomum, no esquisito, no exótico, no singular… A beleza também está lá.
tem gente que prefere ver só o mendigo.
Eu prefiro ver o mundo com as cores de Frida Kahlo.

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AOS MESTRES COM CARINHO…
Charles Bukowski ; Emily Dickinson ; Marques de Sade; Charles Baudelaire ; Anaïs Nin ; Arthur Rimbaud ; Hilda Hilst; Henry Miller, Nabokov, Augusto dos Anjos, Nelson Rodrigues, Apollinaire, Sacher – Masoch, Allan Poe, Sousândrade. Goya, Francis Bacon, Jenny Saville…e, tantos outros mais…
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TRILHA SONORA DO DIA
(por que, como ainda disse Muriel Barbery, ”é sempre reconfortante perder as ilusões a respeito da própria paranóia”)
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Adriana Calcanhoto - Senhas
Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem
Eu gosto dos que têm fome
E morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem
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As pessoas muitas vezes não enxergam beleza memso no incomum porque foram formatadas com padrões de contos de fadas…
O incomum, o inesperado também me desperta uma curiosidade imensa, enquanto todos procuram defeitos para não olhar eu procuro algo que eu possa admirar que me tire atenção, enfim o incomum completa este ser tão comum e tedioso…
beijooooo
De qualquer forma, a gente sempre pode raspar os pêlos e beijar a pele do que tem a beleza grotesca.
* Recebi essa música uma vez. E disseram-me que na verdade, não são senhas…( Eu não entendi muito, não. rsrs)
Beeijos.
A própria definição de belo, pra mim, é muito grotesco.
Concordo K!!! o belo é “ilusão ótica’” .. adoro o filme Corcunda de Nostradamus …a cena que ele mostra amor.. paixão pela “bela” cigana…totalmente contraditório a sua aparência….e o olhar dela para êle ..acho maravilhoso . Adorei as fotos em exposição…beijos lúcia
Assim q comecei a ler o post lembrei do filme A Pele!
retrata bem essa atração q vc tbem sente.
O belo é mais uma imposição da sociedade.
A beleza de cada um esta nos defeitos, na falta de padronização.
a padronização é monotona.
Otima semana p vc!
beijos!
Ainda não via A Pele, mas agora verei, com certeza. Bom, nem adianta falar do é tudo tão relativo que envolve de padrões estéticos a sentimentos mais enraizados na gente. Vc sabe tão bem isso que diferencia, com clareza, o que há de interessante no grotesco e, melhor ainda, no desfilar isso com pompas e circustância.
como sempre, adorei.
bjs
Amei seu post! Me fez pensar em tanta coisa! Desde como eu detesto gente que atrasa (sorry, mas neste sentido sou meio britânica, acho que imprevistos acontecem, mas tendo a considerar atrasos como falta de respeito), até em como você deve ser uma pessoa interessante. Nunca vi ninguém seguir mendigos..rs.. mas com certeza buscar o belo onde ninguém vê é algo de aplaudir de pé. Nunca vou me esquecer das palavras de um namoradinho de adolescência que me disse: “todas as mulheres são belas, é só descobrir como ver cada uma”.
Adorei, parabéns!!!!!
Ótimo, perfeito… é assim mesmo que funciona comigo também… cores de Almodovar, cores de Frida … o incomum, o inusitado, o não aceitável, o que choca. Mas comigo o que atrai em geral é comportamento assim.
Nessa linha eu adoro os filmes de Fellini.
Assisti A Pele e fiquei fascinada pelo cabeludo (como é o nome mesmo? esqueci…), além de estranho fisicamente, ele e uma pessoa fora dos padrões em tudo, no agir, no relacionar… hiper mega atraente para mim.
Você é perfeita escrevendo… ainda bem que se atrasou no dentista, rs
beijos amore!
Em verdade não li todos os coments, logo o que eu escrevo pode já ter sido mencionado.
Bom… A definição de belo é relativa, bem como diversas outras coisas que pensamos, já que fomos “educados” pelo senso comum, onde há preconceito à outros tipos de visões.
Sinceramente, eu acho interessante esse seu gosto diferente.
E… Quem não tem um jeito de ver, ou algo que pense ou faça que para tantos outros pode parecer estranho?
ao seu modo, eles são mesmo fascinantes….
Jacke estou por aqui…rsrsrs
Adorei este post e poxa… ali nos preferidos mestres… um dos meus tb…Charles Bukowski… ô saudades do Cartas na rua…
Eu tinha tudooooooooooooo dele, fui “sorrupiada” por um rato de livraria amigo…nunca mais vi, nunca mais soube de meus livros
comprar de novo?
Só se não for na livraria Cultura!
Nas oficinas que dou, costumo dizer que: ” é a maneira de se enxergar que mudam as coisas…”
tal seria…
já viu coisa mais sem beleza de que o interior de uma CPU? um celular?
passe depois no meu blog e dá uma olhada pra ver o q faço com o lixo…
gostaria muito de sua opinião!
bjs
ps: bom vc ter enviado o mail e eu ter vindo aki, adorei teu blog… o motivo foi outro, mas ao final acabei encontrando mais um blog muitooooo legal, brigaduuuuuuuu