O Balé da Utopia

03h22 da madrugada de sábado. Jogada ao chão.

Tomada por um soco no meio da cara

Que me deu calafrios no estômago

Me tirou o sono… Pra que dormir se há tanto o que ouvir….

Quanto tempo me resta? Quanto tempo?

A decisão é dos temporais…

*

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Bem-vindos à minha casa. Essa é uma ocasião especial. Ocasião de surto. Ocasião de êxtase. Fazia tempo que não me sentia dopada por algo. Jogada ao chão. Precisava do chão. Precisava. Não gosto de surpresas, mas há àquelas que balançam, que socam o estômago e te atiram de vinte andares. Estas me surpreendem. Não as surpresas fáceis.

As críticas ruins de filmes sempre me chamam a atenção. E me dou o direito - quando quero - de me atirar no sofá, munida de chá, café ou leite (vale um bom vinho…. mas, hoje não), enfileirando meu batalhão de controles remotos, telefone, deixando a postos, como uma coruja fiel, minha insperável caderneta (sempre, sempre anoto o que me chama atenção na vida, ainda que seja algo que venha de um filme ruim).

Sonhos e desejos não causou nenhuma surpresa. A crítica estava certa. É fraco. Baseado no livro “Balé de Utopia”, de Alvaro Caldas, o filme tem no elenco Mel Lisboa, Felipe Camargo e Sérgio Marone, que interpretam três militantes e suas posições políticas e papel na campanha subversiva contra o estado e a ditadura. Por fim, vivem um triângulo amoroso. Sem compromisso e expectativa até vale pela bela fotografia.

*

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*

Mas, quando tudo parece ser aquilo mesmo…. no finalzinho do filme, na última fala de Mel Lisboa, na última paisagem…..vem um delírio em forma de música. Milton Nascimento compôs “Balé da Utopia” especialmente para a trilha sonora de Sonhos e Desejos. Não sou fã de carteirinha de Milton Nascimento. Nem gosto, nem desgosto. Passado.

Eu que estava sonolenta, me esforçando para terminar o filme, pulo do sofá feito um foguete em direção à lua, com a mesma intensidade, a mesma explosão…. Paro e escuto a letra e música. Escuto, escuto, escuto. Feito uma drogada em busca de sua fórmula mágica da alegria, corro para o computador que já estava desligado, adormecido junto à sua dona, e procuro. Preciso da letra, preciso saber se o CD está sendo vendido, preciso saber… preciso. Nada. Nem Youtube!

O que há? Será só delírio meu? Ninguém ouviu? Ninguém? Não importa.

Hipnotizada me jogo no chão, com a cabeça voltada para a cidade, os ouvidos colados na música, apago as luzes e fecho os olhos. E assim fico por mais de duas horas. Quem se importa?

Se ninguém ouviu, ninguém viu, eu senti.

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É íncrivel como uma simples música muda toda a lógica de uma noite, de uma vida. Simplicidade mágica….

e, enquanto não encontro o CD (se alguém souber, pago recompensa…), o DVD do filme descompromissado é meu. Não volta mais à locadora. Raptado.

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(escutei, digitei. Se estiver errado, sorry)

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Meu orgasmo transformado em letras. (escutem! escutem! escutem!)

 

Balé da Utopia

Milton Nascimento

 

Quem acende a manhã assim

E me traz o sol

Quem no meu coração bateu… sem saber

Quem me chega e vem morar

Eu não sei se meus passos vão

Encontrar a paz

Eu diria que tanto faz pra nós dois

Pois o amor nos conhece mais

Ah…. te juro que tanto faz pra nós dois

Pois o amor nos conhece mais

Dança meu amor

Chama a luz do sol

Só você me traz a paixão

Dança então pra mim

Ah… o mundo vai

Ser um porto vai

E por que não irmos também

Sem saber se a alegria vem

Eu diria que tanto faz pra nós dois

Pois o amor nos conhece mais

Quem somos nós pra decidir a direção dos temporais

Quem somos nós então, pra decidir então, a direção dos temporais

No coração, o amor nos conhece mais

No coração, o amor nos conhece mais

Eu diria que tanto faz pra nós dois

Pois o amor nos conhece mais

Quem somos nós pra decidir a direção dos temporais

Quem somos nós então, pra decidir em vão, a direção dos temporais

No coração, o amor nos conhece mais

No coração, o amor nos conhece mais

 

*

Mais uma das minhas gravações caseiras. 4h00, não acho o cartão de memória da máquina digital… vai o primeiro trecho…

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4 Comentários

  1. Comentário de G on Novembro 10, 2007 1:17 pm

    Os “delírios” das madrugadas são o que temos de mais verdadeiro em nós. É no estado de semi-consciência que deixamos aflorar quem realmente somos, o que desejamos e, principalmente, porquê estamos aqui. A madrugada é o “eletro qualquer coisa” que mede nossa existência e nossa capacidade de lidar com os sentimentos. Distantes do convívio com as madrugadas abandonamos o EU. Beijos

  2. Comentário de Sophia on Novembro 10, 2007 1:50 pm

    Últimamente eu sou Sophia…
    Mas quem se importa com nomes? com o tempo…?com os dias…? Que dia é hoje? Provavelmente o dia depois daquele que não foi…
    O mais importante mesmo é o Balé da Utopia, a ocasião de êxtase, de surto…Esse vale a pena dançar, bailarina, encantarina… ” Beijar o chão é poder voar…”
    A música é linda, vamos dançar? Muitas vezes gosto do Milton, outras vezes deixo de gostar…Gostar é assim… E que diferença um dia faz?
    Te beijo ” dos dedos pés até o que te escapa…”

  3. Comentário de K. on Novembro 10, 2007 2:10 pm

    Oi fadinha de mil nomes

    não me importo quantos são eles… Se Clara, Clarissa, Sophia, e nosso puppy amistoso..

    Como disse você, quem se importa com os nomes?
    E como diria a letra do Balé da Utopia: ” Eu diria que tanto faz, pois o amor nos conhece mais. Dança meu amor”.

    Te beijo os olhos, porque amo o que eles trazem à você.
    te gosto.

  4. Comentário de Denisson on Maio 12, 2008 11:25 pm

    Poxa, não conheço essa música… Logo eu, tão fã do Milton. Mas isso é bem típico do Milton, esse desapego com a própria obra, essa generosidade sem fim.
    Quanto ao filme, eu vi uma parte (acho q era o começo), mas tava com sono, e o filme não me atraiu muito (pois se o filme me atrai, eu mando o sono embora). Já tô meio saturado de filmes com elencos globais…
    Eu sou um admirador incondicional do Milton Nascimento… Acho ele um fenômeno de originalidade e talento, desde o seu surgimento até os dias atuais. Um cara que vive reinventando sua música sem preconceitos, sempre procurando novos parceiros, dando oportunidade a jovens talentos… Um músico dono de uma obra extremamente original, impossível de ser classificada, um artista cosmopolita, genial… Costumo dizer que quase tudo que o Milton toca vira ouro… E tá aí um testemunho que atesta isso: um filme “fraco” que é enriquecido por uma música sua. Salve Milton Nascimento.

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