Eduarda, vem ver o rato!

Eduarda, vem ver o rato!

Eram umas 7h da manhã hoje, quando voltava pra casa, e entrei numa rua bem estreitinha. Num banquinho colado à calçada estavam uma moça e a filha. A menina, que deve ter uns quatro ou cinco anos, penteava os cabelos com um pente rosa, que tirou de uma bolsinha, também rosa. A cena me chamou a atenção porque estranhei as duas ali, tão cedo, mas, nada anormal – só um típico domingo entre mãe e filha.

Depois de passar o pente pelos cabelos, a menina arrancou um punhado de florezinhas de um canteiro e começou a andar pela rua. A mãe gritou: “Eduarda, aonde você pensa que vai?”. A menina respondeu: “Vou passear. Vem mamãe?”.  A mãe retrucou: “Nem pensar. Volte aqui, agora”. A menina: “Não” – e, continuou andando. A mãe, estranhamente, parou de esbravejar por alguns segundos. Depois, gritou mais alto ainda: “Eduarda, vem… vem ver o rato!”. Na hora achei a situação bizarra. A mãe, sem perceber, arrancou a filha do “conto de fadas” – com sua bolsa rosa, as flores, o passeio – para ver um rato que passava pela rua! Depois, me dei conta que minha mãe, meu pai, meus tios e, etc, também já me mostraram uma porção de “ratos” pelo caminho.

Por que estou dizendo isto? Porque foi só ali, diante da situação semigrotesca entre mãe e filha, que me dei conta do motivo de estar tão aborrecida esses dias. Pensei que era “só” pela chateação da mudança – com pedidos e mais pedidos de alteração de endereço, transferência de serviços, coisas que não funcionam, e etc. Burocracia sempre me aborrece. Mas, não. Acho que ando é com medo de tropeçar nos “ratos” que já topei pelo caminho.

Explico: quando sai daqui, desta cidade, deixei para trás uma série de hábitos que só tinha aqui, neste lugar, e, com as pessoas que convivia. Esporadicamente, me deparava novamente com eles, mas, logo retomava a rotina – quando voltava pra casa. Agora que minha casa é aqui, novamente, fico com medo de regredir os quase 15 anos que fiquei “ausente”. É pretensioso pensar que “evolui” e as pessoas daqui não? Claro que é. Mas, é preciso entender que não evolui junto com essas pessoas, então, minha “mente” está agarrada ao passado. Só tenho a lembrança de mais de uma década atrás, ainda preciso construir um presente novo, atual, alterado.

O medo não é que as pessoas não tenham dado um passo à frente. O medo é que eu volte quinze atrás – e torne a “enxergar ratos” que já deixei pelo caminho. Dá para entender? Mais ou menos assim: sabe quando você está se relacionando com alguém e não consegue deixar de agir de uma determinada forma porque o seu jeito, mais o jeito da outra pessoa, produzem essa maneira de ser? E, a “culpa”, afinal, não é de ninguém? Por aí. Então, as pessoas são ou não fruto do meio em que vivem? Dá para escapar?

Preciso urgente comprar uma televisão pra distrair a mente. ;) – dei a minha TV na mudança…

Tudo bem? ou surtando muito também? beijo, beijo

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.Porque foi a música mais tocada durante a madrugada

Suede – Saturday Night

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but it’ll be alright,
Cos tonight we’ll go drinking we’ll do silly things

Vida embalada

Vida embalada

“E, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade”
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas.

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Levantei essa madrugada pra tomar água, sai pelo lado errado da cama, e meti a cabeça na parede. Ganhei um galo na testa e um roxo no braço. Parte da adaptação à new home. Meus “velhos” quadros de Paris combinam com a “nova” cadeira-de-balanço-fantasma. Estão namorando pra ver se a relação dura. Preciso de estante para livros, de eletricista, de cortinas, de televisão, mesa de trabalho, telefone, internet. Comprei hoje um modem – enquanto a vida antiga não encontra o endereço atual – para acessar a web via wi-fi. Dois porteiros chamam-se “João” – o que facilitará muito as coisas em relação à minha constante amnésia quanto a nomes. O outro penso que é Raimundo, mas, já não tenho mais tanta certeza, acho que esqueci. O passado, de até sábado, ainda está embalado em caixas de papelão e empilhado na sala. E eu, que só tive tempo de montar a cama e o computador, me embalo na cadeira-fantasma para – finalmente – dar início ao ano e à vida nova. Mas, como cansa, não?

Toda mudança dói e faz doer. Antes fosse só fisicamente, né? E eu, que pensei que doeria mais “abandonar” os seis anos no apartamento anterior, não senti quase nada quando entreguei as chaves. Em compensação, ainda dói as “cabeçadas” pelas paredes novas. Do todo, uma palavra resume: e-x-a-u-s-t-ã-o! Mas, há de passar quando eu conseguir ajeitar as coisas em seus devidos lugares (espero que seja antes de terminar o contrato atual de aluguel! porque, olha, tá difícil! “Acho” que sou um pouquinho-inho desorganizada)

Por ora, enquanto isso não acontece, vou me familiarizando com os sons novos que vêm lá de fora.

e vocês? tudo bem por aí? Gostaram da cadeira? Todo mundo que viu, odiou…rs.. só eu adorei! :D

beijo, beijo.

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Porque a letra é perfeita para o dia de hoje (e sempre)

Coldplay – Paradise

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When she was just a girl
She expected the world
But it flew away from her reach
So she ran away in her sleep
And dreamed of paradise
Every time she closed her eyes

As meninas que moram em mim

As meninas que moram em mim

“Adoraria encontrar alguém que, como eu, amasse a noite, a chuva e a solidão.
Não para conversar, isso poderia incomodá-lo, mas para saber que não sou a única
a perambular assim no escuro” – Régine Deforges, em O Diário Roubado

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No vidro da estante do meu antigo quarto, aquele que passei a infância e a adolescência, tem uma montagem feita de papel com várias menininhas. Deveria ter uns onze, doze anos – no máximo – quando fiz e colei ali. Na época, foi uma briga danada porque o móvel era novo e minha mãe ficou uma fera. Engraçado que está colado até hoje lá. Lembro da minha avó ter pensado que as bonequinhas todas, tão diferentes, eram uma representação das minhas amigas de escola. Não escapei à pergunta: “e as sem carinha? esqueceu de desenhar, meu bem?”. Não sabia explicar direito estas coisas das incompletudes. Verdade é que até hoje não sei. Para facilitar a vida de todos, e satisfazer minha nona, assenti com a cabeça e disse que sim, eram as minhas amigas.

O que eu não disse foi que cada uma delas era eu. E que as carinhas “em branco” eram aquelas que eu ainda ia descobrir em mim. Porque sempre soube que existiriam outras. Vinte anos depois, as antigas ainda vivem “comigo” e, não obstante, sempre tropeço em novas por aí. Mas, como explicar tantas quando as pessoas pensam que somos apenas uma? Como ser tantas, quando a maioria quer e só sabe lidar (e idealizar) com uma única?

Incompletudes minhas, incompletudes doutros. E continuo, ainda, desenhando carinhas – só que agora em letras.

Muitos eus perdidos por aí? beijo, beijo! ;)

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Só porque lembrei dessa música e porque tem a minha musa Anna Karina
Pure – Me And The Almost Beautiful Girl

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O Outro fica sempre mais fascinante à medida que se aproxima do Eu - (René Girard)

Mais estranho que a ficção

Mais estranho que a ficção

“Conheço minha natureza e sei que as situações imprevistas e repentinas
me fazem perder todo o sentido” – Ernesto Sábato, em O Túnel 

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Lembram da casinha amarela? Pois, ocorreu um imprevisto daqueles que dizem que só ocorrem comigo, e, em resumo, não me mudarei mais para lá (não, não… nenhum problema com a família – foi comigo mesmo. Digamos que um causo envolvendo sexo, drogas e traição – a droga, nesse caso, trata-se do Lulu Santos). Depois conto com mais calma. Só que nesse meio tempo minha mudança já estava agendada… E, adivinha quem vai se mudar no dia 14 – sim, no próximo sábado – e, ainda não assinou um contrato de aluguel? Pois, a sem-teto que vos fala.

Viver às vezes cansa, né? Mas, nem tudo está perdido (espero!). Na última semana cheguei a ver muitas, muitas casas. Nenhuma delas chegava aos pés da minha casinha amarela (ora, por ser perigosa para uma srta que mora sozinha, ora por estar destruída, ora por não ter nada em volta, ora por eu não ter dinheiro suficiente). Brochei. Já estava pensando em morar na garagem da casa da minha mãe porque, né? O que fazer? Então que, milagrosamente, surge uma criatura em minha vida. Uma criatura com demência. Não, não é no sentido figurado não. É que na sexta-feira à noite esbarrei, assim, providencialmente, com a irmã de uma senhora que ficou impossibilitada – por problemas mentais – de morar só. E, o apartamento dela está fechado (com toda a mobília). A senhora-irmã perguntou se eu gostaria de ver. Na hora recuei porque é apartamento, e como vocês sabem queria muito ir para uma casa. Mas, o apartamento é no primeiro andar. Então, ok. Doce ilusão de ter quintal (leia: em estado de desespero, fui). E, digamos, que estamos quase lá para a conclusão do negócio.

A questão é, quando entrei no apartamento – no pequeno e improvisado escritório – tinha lá uma cadeira de balanço daquelas antigas. Minha irmã disse: “que horror, parece uma daquelas cadeiras de balanço de filme de terror”. E eu… bem, alugaria o apartamento só pela tal cadeira de balanço – com fantasma ou sem fantasma. O fato é que, não vou pra onde ia, mas, talvez vá para um apartamento cujos móveis me fazem sentir quase “digna”. Não sou muito desse tempo. Sei que é uma frase clichê, mas, gosto mesmo de coisas antigas. O desafio será juntar minhas coisas às dela (eliminar muitas! pela falta de espaço), e, atualizar um pouco. Mas, veja bem, no meu dicionário atualizar não significa modernizar, e, ontem, passei horas comprando coisas (da foto, algumas), pelo incrível mundo da internet, para a “nova decoração” – sem que, ainda, esteja tudo certo. Esta sou eu. Invertendo a ordem das coisas, para variar.

Um detalhe engraçado: neste mesmo prédio – antigo, antigo – morou minha “melhor amiga” de infância, no qual passei grande parte da minha vida “inocente” correndo pelo pátio. Achei “mais estranho que a ficção”, voltar para lá, nesta altura da vida. Mas, cito o filme, não por esse detalhe, mas, porque o apartamento da personagem é quase um projeto – ou desejo – da minha “atualização”. Então, separei um trecho – fofíssimo – do filme, para que vocês possam passear por lá. E, também, escutem uma música que adoro.

Se o contrato der certo – já que os imprevistos adoram me perseguir – acho que será uma experiência interessante. Morar em uma casa em que tudo tem um passado tão gritante, tão presente, que faz até a cadeira balançar sozinha (será? ai!). Fora isso, não tenho nada, absolutamente nada, embalado, separado, guardado para a mudança. Nada. Só sei que um caminhão virá às 10, do sábado. E, considerando que me mudarei daqui a quatro curtos dias, acho que ficarei um pouco atrapalhada, digo, atarefada esses dias. Perdoem-me se ocorrer um ligeiro sumiço.

De tudo isso, tenho de dizer que a semana começa estranha. Meu primeiro pensamento quando acordei foi: a última segunda-feira da minha vida nesta residência em que passei os últimos seis anos. Ou seja, melancólica por um lado, feliz por outro. Veremos qual prevalecerá! ;) Quando fico assim, vocês sabem, faço bobagens, tenho sonhos estranhos, escrevo de maneira hermética, e, como diz minha mãe, fico “indócil”. Neste “pacote”, está – sim – a tosa do meu cabelo. Chorei, depois, três dias de arrependimento, mas, agradeço aos amadíssimos (e competentes!) do Retrô Hair, que me deixaram, de novo, à la Chanel. (não, não teremos foto desta vez).

Ah, esqueci de dizer, o sofá da senhora-locadora-demente é roxo. R-O-X-O. E, claro que já tratei de me livrar do meu, comportado, para poder ficar com o dela. Só sei que já “amo” essa mulher. Ah, e vocês podem, por obséquio, torcer pra que tudo dê certo e pra que eu sobreviva a esta semana? Não peço mais nada em 2012 (mentira, of course).

Sim, volto quando tiver uma casa pra morar ou diretamente da garagem da minha mãe (ô, criatura exagerada!)

beijo, beijo

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Bora ouvir música boa e passear pela “decoração” do meu-quase-novo-apartamento

Whole Wide World – Wreckless Eric

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When I was a young boy
My mama said to me
There’s only one girl in the world for you
And she probably lives in Tahiti

Esta noite sonhei com J.Frusciante

Esta noite sonhei com J.Frusciante

“Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia” – Caio Fernando Abreu

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Esta noite sonhei com John Frusciante. Com uma das mãos apertava meu pescoço. Com a outra, trazia a palma da minha mão esquerda para perto de sua boca. Lambia. “É uma questão do miocárdio. Vou lamber teu coração e provar da tua vida”, sarcástico sorria. Imóvel, oscilante, eu buscava entender essa coisa toda do miocárdio.

Sabe-se que o coração tem o tamanho aproximado de um punho fechado. É oco. Oco… Mas, enche-se de vida, e tudo o que ela precisa, em 50 segundos. Funciona, assim, aos murros – bate em movimento coordenado. Nem mais, nem menos. Contrai, bombeia, relaxa. Contrai, bombeia, relaxa. Se mudar o ritmo, colapso, insuficiência, infarto.

“Mantenha o ritmo”, dizia Frusciante. Assim entendi. Eu também vou lamber teu coração. E, provar da tua vida. Em contrações e murros e lambidas. Das inclinações mais íntimas, só assim sei viver. Outro modo, colapso. Parada – cardíaca. Relaxa. Mantenha o ritmo. Nem tente de outro jeito. Porque eu vou lamber teu coração. É assim que vivo.

Esta noite sonhei com John Frusciante.

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Todo amor ao senhor John Frusciante, sempre

Red Hot Chili Peppers – Scar Tissue

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Sarcastic Mister Know-it-All
Close your eyes and I’ll kiss you ’cause
To lick your heart and taste you health
And with the birds I’ll share
This lonely view

Os dias todos

Os dias todos

A Pilar, até ao último instante (O Homem Duplicado, 2002) – A Pilar, os dias todos (Ensaio Sobre a Lucidez, 2004)
A Pilar, minha casa (As Intermitências da Morte, 2005) – A Pilar, que ainda não havia nascido,
e tanto tardou a chegar (
As Pequenas Memórias, 2006) – A Pilar, que não deixou que eu morresse
(
A Viagem do Elefante, 2008) – A Pilar, como se dissesse água (Caim, 2009)

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“A minha vida não seria aquilo que é hoje se não tivesse conhecido Pilar”. Quando se conheceram Saramago tinha 63 anos, Pilar del Rio 36. “Tanto que meus amigos diziam: vê lá o que é que vais fazer e tal, isso é perigoso, e tal”. Pilar nunca tinha ouvido falar em Samarago, quando leu o Romance Memorial do Convento. “A cada página, eu voltava atrás para certificar-me: é um contemporâneo, ai tinha a percepção de que estava diante de um clássico”. Em Lisboa, o primeiro encontro. A atração, a princípio intelectual. Os dois apaixonados pelo poeta Fernando Pessoa e pelo Marxismo. Seis meses depois, o reencontro em Sevilha. Às quatro da tarde. A hora está registrada em vários relógios da casa em Lanzarote. “É aí que começa realmente a minha segunda vida porque com 63 anos o que é que se espera que aconteça? Já não muita coisa”. Ficaram juntos por mais de 20 anos. “Eu, quando conheci o homem com quem me ia casar, soube que ia ser para sempre. Pela minha parte. E para muita gente, suponho que mesmo após 20 anos de casada, continuarei sendo uma jovenzinha, sem escrúpulos, que foi atrás de um homem mais velho. Para muitas outras pessoas, sou simplesmente Pilar”. “Eu tenho ideias para romances, e ela tem ideias para a vida. E eu não sei o que é mais importante. Pilar! Encontramo-nos noutro sítio”.

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Se você gosta de histórias de amor, por favor, veja o documentário José e Pilar. Se você prefere saber como um dos grandes gênios da literatura viveu, por favor, veja o documentário. Se você admira a simplicidade, veja o documentário. Agora, se você quiser entender realmente o que é a discrição tão necessária nestes tempos, por favor, veja o documentário. Se deseja entender o que é, para mim, viver “de verdade”, veja o documentário. Mas, se você tem ânsia por pessoas com opiniões próprias que não se furtam de dizê-las, ainda que seu país de origem passe a odiá-lo, por favor, veja o documentário. Se você gosta de exemplos de pessoas que são donas de sua própria vida e têm coragem de mudar, por favor, veja o documentário. Sobretudo, se você admira a dignidade, veja o documentário. E, além do vídeo abaixo, se quiser ouvir uma música portuguesa que gostei muito e está no filme, escute aqui.

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Eu sei que o ano está só começando, mas, não vejo outra coisa que possa me emocionar e me ensinar tanto e tão profundamente quanto esse documentário. Espero, honestamente, estar errada. Mas, duvido.

Amor – Trecho do Documentário José e Pilar

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“Ainda que pareça impossível, é este silêncio cheio de palavras não ditas que salva o que se julgava perdido. (…) Tanto na morte como na vida tudo é questão de ângulo” – José Saramago, em O homem duplicado

Pergunta capciosa

Pergunta capciosa

“A santidade não pertence à vida, foi inventada por variados inválidos que não eram capazes,
ou tinham medo de viver e, portanto, queriam torturar aqueles que sabiam viver” – (Ivan Klíma)

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Há encontros que são providenciais. Especialmente os não programados. Hoje, na Paulista, esbarrei com um amigo de anos – daqueles que me acompanhava pela noite em São Paulo e dançava em gaiolas de boates porque, pra ele, criatura gay, isso era bafão – e, pra mim, que por um erro de fabricação não nasci gay, era só mico. Whatever. E como nos divertíamos! A noite só terminava na rua Frei Caneca, quando entrávamos na Lôca ou “curtíamos” uma calçada.

Nos tornamos amigos por acaso. Numa noite no finado Clube Massivo, quando me abordou na fila para entrar. Ele, aspirante a cabeleireiro que não sabia diferenciar uma tesoura de uma navalha, um pente de uma escova, me “adotou” pelos meus longos cabelos pretos. Tinha mania de me transformar em Elvira, a rainha das trevas.  “Combina com sua personalidade” – argumentava. E eu, eu ria. Agora, me disse, ganhou status de hair style. Para mim, continua a mesma criatura querida de sempre – talvez, um pouco mais competente que há anos.

Depois de nosso papo e muitos cafés (é, o tempo passa!), me fez uma pergunta ardilosa – daquelas que já sabe a resposta. Perguntou: ”Elvira, você ainda está aí?”. Me fingi de desentendida, e ele voltou a perguntar: “se você vive uma vida que não quer mudar – porque gosta do que vive – mas, essa vida te faz perder parte do que você é – aquilo que realmente te faz viva – o que você faz? Se abandona, abandona a vida atual que gosta e te faz bem, ou, se permite viver ambas?” A pergunta é capciosa porque ele sabe que “abandonar” a vida que tenho hoje não está em questão, simplesmente porque não quero. Em contrapartida, essa vida não me permite ir além de coisas que são inerentes a mim. Em outras palavras, me inibe de experimentar mais. Me abandonar – em nome dessa vida e do que “as pessoas esperam” não é uma possibilidade concreta, e sempre me fez mal. E, quando tentei adoeci.

Restou a única alternativa com a qual sobrevivi até hoje: viver ambas as situações ainda que pareça – para muitos – “errado”. E, não me refiro a sexo. Antes fosse “só” isso. Me refiro a tudo. Sou uma senhorita ”de família”, que passa horas para preparar um carré de cordeiro no réveillon porque ama cozinhar. Que tem relacionamentos longos e felizes, que ama sua família e vive tranquila e em paz com a maioria das pessoas. Mas, que também adora experimentar a vida no que ela tem de mais inusitado – ou, como diriam outros, “grotesco e absurdo”. Como conciliar essas duas “vidas”? Há quem acredite que não é possível. Eu, ainda, estou tentando. Ora mais para um lado, ora mais para o outro. Mas, não consigo “abandonar” nenhuma das duas vidas, e, muito menos me abandonar.

Eu disse ao meu amigo: sua pergunta é capciosa, é uma provocação. Ele respondeu: “hã? capciosa, maliciosa, provocadora que adora levar às pessoas ao “erro”, às contradições, sempre foi você. Hei, Elvira, você ainda está aí?”.

Hoje fui caminhar na Paulista, pensando em encontrar “os outros” e acabei encontrando a mim. Pelo menos, uma grande parte minha. Há um trecho do livro do Ernesto Sábato, que li em dezembro, que diz assim: cada vez que Maria se aproximava de mim em meio a outras pessoas, eu pensava: “entre este ser maravilhoso e eu há um vínculo secreto”. A “Maria” – neste caso – sou eu. O “eu” que tenho abdicado muitas vezes nos últimos tempos, mas, que está sempre aqui porque temos um vínculo indissolúvel, inerente, e secreto. Meu 2012 será dedicado a recuperar a “Elvira” que mora em mim. E, sinto muito, como disse o escritor Ivan Klíma no trecho acima, quanto aos inválidos que não são capazes ou têm medo de viver. Vocês não me torturam. Afinal, para mim, a santidade também é uma invenção.

E assim começamos mais um ano. Cheio de perguntas capciosas – como não poderia deixar de ser aqui neste sítio. Você passa por esse conflito de viver duas (ou mais) vidas? Repito a pergunta do meu amigo: “se você vive uma vida que não quer mudar, mas, essa vida te faz perder parte do que você é, o que você faz? Se abandona, abandona a vida atual que gosta e te faz bem, ou, se permite viver ambas?”. 

Ah, sim… parte do projeto “O resgate do soldado Ryan, digo, Elvira” é que a criatura “Edward mãos de tesoura” picote meu cabelo. Só espero que ele não me transforme num poodle. De resto está valendo ;)

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos… beijo, beijo (5h27 da madrugada, e, nada mudou quanto à insônia!)

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Porque ela diz tudo o que precisa ser dito, agora.

 Lana Del Rey – Blue Jeans

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Big dreams, gangster - He went out every night
And baby that’s alright - I told you that no matter
What you did I’d be by your side
I will love you till the end of time
Whether you fail or fly - Cause I’m a ride or die

Por que os detalhes me emocionam

Por que os detalhes me emocionam

“Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade de nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes” – (Machado de Assis)

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Terminei essa semana a leitura de um livro do Ernesto Sábato, em que o personagem principal diz assim: “os detalhes me emocionam, não as generalidades”. Não teria frase melhor para fechar meu ano e começar este texto. São os detalhes, sem dúvida, que me emocionam mais. Pouco me importa se a pessoa faz isso ou aquilo, se seu nome é A ou B, se usa a moda da última estação ou farrapos. Tudo isso, para mim, são generalidades. Gosto mesmo dos detalhes, daqueles que fazem a pessoa ser como ela é.

Para esse último post do ano, seria fácil – muito fácil! – despejar aqui todas as coisas ruins que me aconteceram em 2011 (e, garanto-lhes que não foram poucas). Foi um dos anos mais difíceis que já tive na vida. Mas, assim como a personagem de Eleanor Porter, prefiro (e sobrevivo!) sendo Pollyanna, com o seu “jogo do contente” – no qual busca encontrar algo de positivo para qualquer situação que se viva. Então, com exceção de dois ou três tópicos (que julgo que foram muito representativos para mim), o restante da minha “retrospectiva de 2011” só traz as coisas boas. Sobretudo, as coisas que não devem ser esquecidas. As coisas ruins, sem serventia, vão ficar bem enterradinhas no passado porque é coisa morta, e eu – definitivamente – não sou um cemitério ambulante.

Minha retrospectiva, mais do que restaurar “o passado” para corrigir a “edição” recente de minha vida – como sugere Machado na citação acima – vem mesmo é tocar nos afetos – para não esquecê-los e melhorá-los na “edição” do próximo ano. Detalhes que cercaram o meu 2011, e, essencialmente, fizeram o que sou hoje – para quem sabe, formarem um “eu” melhor amanhã. Vamos nessa? Me conta algum detalhe “pollyanna” do seu ano também? Os meus, olha que coisa incrível, são muitos (mesmo em um ano ruim). Aliás, que ano ruim? It’s over. ;)

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Uma conquista: vencer, por ora, a depressão. Melhor terapia do ano: caminhar pela Avenida Paulista, sempre, e sem pressa.  A melhor festa: a de reabertura do Theatro Municipal de SP. O livro que mais gostei de ler: O Poder da Arte, do Simon Schama. O restaurante favorito: Vicolo Nostro Ristorante (ainda, e desde 2006). Um amor constantemente renovado: por meus pais e minhas irmãs. Companheirismo: meu namorado (six years, dear!). Paixão sem fim: Minha filhota lhasa apso. Uma meta alcançada: eliminar duas manias que trazia desde a infância. Uma exposição: Lugares, estranhos e quietos (fotografias de Wim Wenders). Filme que vi e mais gostei: Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders. Uma ausência a ser equacionada: viagem de férias. Vinho preferido: Tinto Chileno Montes Alpha Carmenère – safra 2007. Uma alegria offline: conhecer, pessoalmente, o Andarilho – que me atura virtualmente desde 2007 e amo de paixão. Uma saudade: meu avô paterno. Um medo: a diabete e o coma da minha irmã mais nova. Uma pessoa que nunca será esquecida: Sérgio de Biasi. Outras que admiro e também partiram: Ernesto Sábato; Moacyr Scliar, Sergio Britto, Jack Kevorkian; Thomaz Farkas, Ítalo Rossi; Elizabeth Taylor, Amy Winehouse; Presente que mais gostei da ganhar: Caixa Photo Poche, da Cosac Naif (Box com cinco livros que trazem imagens e biografia dos fotógrafos: Henri Cartier-Bresson, Man Ray, Sebastião Salgado, Helmut Newton e Elliott Erwitt). Thanks querido Ric!  Um momento gracinha: “apresentar” comida japonesa para o Eder Albergoni (por “apresentar”, leia: “obrigá-lo” a comer). Séries de TV: House e Dexter. Uma necessidade: dormir melhor. Uma descoberta: posso (e, continuo tentando) ser mais “social”. Um aprendizado constante: desapego, desapego e desapego – de coisas, de pessoas, e sentimentos que não me fazem ser melhor. Uma maluquice: ter o cabelo de quatro cores diferentes, em menos de 10 dias. Um orgulho: nunca, mesmo em anos ruins, abandonar a leitura. Um sonho pouco realizável: ter tempo (e dinheiro!) para poder escrever ficção. Maturidade: evitar (já é um começo!) qualquer tipo de autodestruição, especialmente no quesito “bebida”. Uma vontade: chocolate, ever. Um bloqueio (ainda): ligar/atender telefones, responder emails. Uma qualidade: generosidade. Três defeitos: impulsividade, inconstância e desorganização. Admiração, agradecimento e respeito: a todos os que veem aqui no blog dividir um pouco de suas vidas comigo. Quero: cozinhar mais (que adoro). Não quero: engordar (risos). Um tesão: um? Nem pensar: vários (mas, não conto! Descubram…). A melhor notícia musical do ano: A volta do Mazzy Star.

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Por isso, fechamos este post e 2011 com uma das melhores coisas da vida, que é ouvir música. Ah, sim, e não se esqueça de ser ridículo também durante o Ano Novo, porque no Natal se é ridículo coletivamente (com essas coisas de família e etc), e no réveillon individualmente (com aquele monte de listas e desejos). Permita-se. Depois temos um ano inteirinho pela frente para viver as chatices e tropeços da realidade! ;)

Beijo, beijo! e, FELIZ ANO NOVO.

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Mazzy Star – Common Burn

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Simple things like you over cold round your beauty
That stay and burning me
Love me hang around even if it’s just some way to have
Some common burn… A common burn

(im)Perfeições da paixão

(im)Perfeições da paixão

Aos onze anos, minha família mudou-se de endereço e fui obrigada a ir também. Logo, sem amigos em um bairro desconhecido e em tempos que não existia internet, precisei arrumar algo para me ocupar e matar o tédio proporcionado pelas férias escolares sem viagem. Papai tinha investido todo o dinheiro na mudança e, com isso, não tivemos as semanas de praia como ocorria anualmente. Não ficaria aborrecida se tivesse algo para fazer. Não tinha. Foi então que decidi, intencionalmente e pela primeira vez, que iria me apaixonar. Assim, como se o amor e a paixão fossem uma questão de escolha. E, não é que a ignorância é mesmo atrevida? Bolei um plano.

Passaria horas na calçada da casa nova observando a rua, onde muitos pré-adolescentes como eu brincavam, e assim escolheria a criatura pelo qual me apaixonaria. Fiz uma lista de qualidades e afinidades, e, com o decorrer dos dias e das amizades que surgiam naturalmente, ia ticando os atributos comparando os “candidatos”. Quase um mês depois, metade das férias tinha ido embora, e nada da tal paixão surgir. Não era um problema com os garotos ou, até, da minha lista – nunca fui muito exigente mesmo – mas, simplesmente não sentia. Até que um dia aconteceu.

Estava jogando vôlei, já totalmente adaptada à turma da rua, quando um fusca verde que tocava uma música estranha atrapalhou nossa brincadeira. Tivemos que desmontar a rede improvisada e amarrada a postes, para que o carro pudesse passar. Dentro do fusca verde, vi um homem que achei esquisito. Tinha um cabelo comprido, meio bagunçado – à la Eddie Vedder – e tatuagens no braço. Nunca tinha visto alguém tatuado e, tendo como única referência a televisão, pensei se tratar de um desses fugitivos da polícia. Era final dos anos 80 e tatuagem ainda não era moda e nem fazia parte do “vestuário” da classe média. Senti certa inquietação, medo talvez.

Enquanto os meninos desmontavam a rede, o homem desceu do carro e destruiu minha fantasia e expectativas bandidas, porque sorriu, brincou com um dos meninos de forma engraçada e o ajudou na tarefa de desmonte. Sentada na calçada observava hipnoticamente o sujeito – que logo entrou no carro, ligou o rádio, buzinou duas vezes e foi embora. Bastou: estava perdidamente apaixonada. No outro dia, fiquei a postos no mesmo horário para ver se o homem passava. Passou, mais tarde que o dia anterior, mas, sequer me importei com a quantidade de horas que tinha ficado “plantada” na calçada. Depois de dois, três dias, comecei a dar tchau. Passei a gritar “oizinhos”. E, roubei o batom vermelho da minha mãe para chamar a atenção do homem do fusca verde que morava na rua paralela à minha. Nada funcionava. Não me passou à mente a questão de eu ter 11 anos.

Pensei que, talvez, ele tivesse uma lista para se apaixonar também. E que minhas características não atendiam às suas exigências. Mas, me dei conta que em minha lista não constavam tatuagem, fusca verde, cabelo bagunçado, e, Rolling Stones (que ele escutava no rádio do carro e que só depois vim a saber do que se tratava aquele “barulhão”). Como podia? Ele não estava em minha “lista”, mas, eu estava apaixonada. E, o ritual da espera prosseguia. Tinha decorado o horário que ele voltava do trabalho e, se duvidar, reconhecia até o ronco do motor do carro. O dia que ele não passava, ficava angustiada. Descobri que esse bichinho chamado “paixão” era bem impaciente.

Num sábado, o homem do fusca verde passou e perguntou: “sozinha menina?”. Balancei rapidamente a cabeça em consentimento, e, nervosa, as palavras não saiam. Era a primeira vez que ele falava diretamente e só para mim. Toda a turma estava no aniversário de um dos amigos, e eu não quis ir para esperar o fusca verde passar. Consegui responder em uma frase mal construída que não tinha ido ao aniversário, no qual todos estavam, porque tinha me atrasado. Ele perguntou o meu nome. Na resposta atrapalhada disse: “estou apaixonada por você”. O homem do fusca verde abriu um sorriso largo. “Apaixonada?”. E eu, com o rosto queimando de vergonha, disse que sim.

Nos dias seguintes, eu continuava à espera – não mais “plantada”, mas, “concretada” mesmo – e ninguém me tirava de lá. O homem do fusca verde passava, falava oi, me dava tchau e eu me sentia a mais importante das criaturas. Um dia, ele parou o carro e pediu pra que  entrasse – entrei. Não pensei duas vezes. Escapuli da minha casa – sem que minha mãe sonhasse e fui com o “amor da minha vida” (eu sei, eu sei… se fosse hoje não teria tanta sorte de contar essa história). Na época, lembro que pensei: “Pronto! Ele está se apaixonando por mim também”. Obviamente, não era o caso. Ele me levou na sorveteria da esquina. Disse que tínhamos um “problema de amor” a resolver porque éramos muito diferentes. Um querido. Nunca disse que era por eu “ser criança”. Apenas que éramos diferentes. Então, tive certeza que ele tinha a tal listinha e eu não atendia suas expectativas. Assim como ele não atendia as minhas… mas, ora, eu estava apaixonada. E, continuei, intensamente, por mais duas semanas – até que as aulas recomeçaram. Como “mágica” a paixão desapareceu e eu nem me lembrava mais do homem do fusca verde.

Por que me lembrei dessa história? Há alguns dias a querida @tatysousa me sugeriu escrever um texto sobre os motivos que levam alguém a NÃO se apaixonar. Assim como na adolescência, fui lá fazer minha listinha (ainda que mental) das razões pelas quais não me apaixonaria por alguém ou pelas quais decidiria, de maneira voluntária, não me apaixonar. Passei dias pensando nas “espécies” que passaram pela minha vida, mas, que me ensinaram (ou, pelo menos, me deram pistas) do que não gostaria. Mas, me dei conta que tudo isso não passa de um desejo. Porque, creio, não há ensaio para a paixão. Talvez haja para o amor, que pode acontecer de diferentes modos e tempos, mas, não para paixão. Você pode ter a mais perfeita das listinhas, pode saber exatamente o que não quer, e se apaixonar justamente pela lista – só que àquela oposta aos seus desejos.

Como isso acontece? Não tenho a mínima ideia. Se soubesse, explicaria a mim mesma como foi possível me apaixonar (e, até, amar) pessoas tão diferentes umas das outras. Quase “casei” com um cientista da computação que amava uma coisa chamada Delphi, que até hoje não sei o que é – mas fingi entender por quase cinco anos. Desenvolvi uma paixão por um músico-erudito-vegetariano que odiava, além de carne, açúcar (e eu sou a “formiga” em pessoa) – e, claro, por uma questão de “incompatibilidade gastronômica” a paixão durou pouco. Passei uma boa parte da juventude com um jovem que atendia pelo apelido de “Cachorrão” – mas, que era o mais bocó das criaturas, e, só era “mau” na hora que estava com sua guitarra (também músico, só que neste caso, de rock). E o bom moço expert em web? (oi, F.Luiz!). Temos… Professor? Publicitário? Agente Penitenciário? (pois é – um dia preciso contar essa história aqui). Ah… também me apaixonei por uma advogada (sim, você não leu errado – nem pelo gênero, nem pela profissão). E uma pessoa amada que me fez pensar em largar tudo para casar no Açores… Yeap.

Além daqueles clichês que repetimos sempre, eu não sei direito o que faz alguém a não se apaixonar. Será que isso realmente é uma escolha? Será que conseguimos “neutralizar” a paixão por alguém, ou que conseguimos bloquear a paixão quando ela acontece? E, principalmente: será que conseguimos evitar que ela aconteça? Tenho minhas dúvidas. A mim, nunca aconteceu. Sou visceral nestas coisas. Se me apaixono, estou perdida. Entro no “fusca verde” – tal qual como na minha adolescência – e vou-me embora para Pasárgada, como diria o mestre Manuel Bandeira.

Como fui incapaz de atender a solicitação da querida Taty (sorry, dear!), vocês poderiam me ajudar? O que te faz não se apaixonar por alguém? Você acha que isso pode ser uma escolha? Já decidiu, assim, voluntária e conscientemente, não se apaixonar? Digam-me tudo, não escondam nada… Eu e a Taty agradecemos ;)

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Tudo bem por ai? Como foi o Natal “ri-dí-cu-lo” de vocês? O meu foi conforme o script da família. Ou seja (melhor nem comentar!). Gravei – em som – algumas das nossas performances no karaokê, mas, de tão, tão ridículo não tenho coragem de postar aqui! Ufa, alívio… será um sinal de que ainda me resta um pingo de sanidade?!

Beijo, beijo! preguiçosos porque ando numa preguiça danada!

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Porque é o que toca agora, apaixonadamente, às 3h29 da madrugada desta quarta-feira

Cat Power – King Rides By

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If time had a place,
And space for your past.
Like a little novel,
I wanted to read again and again,
Would i be in your novel?
Would i begin and end in it?

Por favor, seja ridículo neste Natal

Por favor, seja ridículo neste Natal

Como muitos sabem, não sou muito chegada nestas coisas de Jesus de Nazaré, Santa Trindade e afins. Nada contra Jesus. Na-não. Cada um tem o Jesus que deseja ter. É que, criada e adestrada no catolicismo, desde cedo eu e Jesus não nos entendemos muito bem. Porque né, com menos de um ano de idade, eu só sabia falar (além de papai e mamãe) as palavras Jesus – coisas de vovó (não, não a do vibrador – é a outra), e, Bunda Mole – uma meiguice do meu pai que me chamava assim desde muito pequena. (Trauma? Imagina!). O resultado foi que minha primeira frase completa na vida sucedeu durante a missa das dez do domingo, na cidade onde nasci, quando no salão silencioso ecoou – dizem as testemunhas presentes – um “Jesus, bunda mole”. Pois. Nada a declarar.

Depois do episódio e sendo arrastada pela orelha durante anos e anos – de maneira sagrada, of course – para a missa semanal, desenvolvi certa resistência aos feriados cristãos (questão de sobrevivência). Torcia o nariz para todos eles, inclusive para o Natal. Lembro que por dois, três anos seguidos – e, bem recentemente, o querido Marcelo passava a madrugada de Natal comigo no MSN para que eu não ficasse sozinha (sempre obrigado, dear!). Um amado. Minha mãe queria morrer com minhas ausências. Meu pai queria me matar mesmo. E eu batia o pé e não ia dizendo que me sentia “inadequada” com aquela coisa toda.

Continuo me sentindo totalmente inadequada nestas ocasiões. E minha relação com Jesus não melhorou nadinha. Mas, uma coisa mudou. Passei, os últimos anos, a frequentar o Natal em família. Não só frequentar como gostar. Além de deixar meus pais felizes (o que é sempre muito bom), treinar meus talentos artísticos como atriz, posso também comer muitas comidas gostosas (ao que se preza toda porpetinha), e, especialmente, ser muito, mas muito ridícula. Tipo passe livre, sabe? E, não faltam oportunidades para ser ridícula no Natal.

E daí que a Avenida Paulista está parecendo Las Vegas? É brega, né? Putz! Mas, olha lá o sorriso da criançada (e, das crianças grandes também)… Ás vezes, por motivos que valem mais, é bacana ser brega. E daí que sua mãe e tias contarão na presença de todos, pela enésima vez, os podres da sua vida pregressa? Elas vão falar do mesmo jeito, então, o negócio é falar da vida delas também! E rir, rir muito. E daí que seu pai te obriga a rezar o pai nosso durante a ceia quando você nunca lembra a tal da oração até o final e fica mugindo feito uma vaquinha de presépio? Ele sempre fica orgulhoso por achar que me lembro. E daí que seus primos sempre ficam bêbados e acabam te empurrando à força pro maldito karaokê que instalam na sala e você acaba cantando “Fogo e Paixão”, do Wando?

É ridículo? Muito ridículo! Mas, é bom – vez ou outra – ser ridículo. Quebrar a couraça do “super adequado” para ser patético. Aprendi a me divertir muito nestas situações. Não por causa do Jesus Bunda Mole, ou da histeria consumista – que odeio-, ou ainda das promessas e reconciliações cristãs. Não. Me divirto quando vejo meu pai rindo, minha mãe falando uma bobagem atrás da outra, minhas irmãs vestidas de coquete, as crianças (as poucas que ainda circulam pela minha casa) grudadas em seus presentes e lamentando mais uma vez terem dormido enquanto papai Noel apareceu, e, a satisfação das vovós quando devoramos as gostosuras que elas passaram dias preparando.

Ridículo? Claro! Mas, por favor, sejam ridículos neste Natal e riam muito. Esqueçam a (in)adequação (no qual perdi muito tempo na vida), os pudores, as vergonhas, os constrangimentos e as breguices familiares. Uma, duas, três vezes por ano vale a pena.  E ser adequado sempre é chato demais.

Então, desejo muitas coisas ridículas e bregas por aí! ;)  Estou na correria… com a minha “performance”!
Mas, deixo meu sincero e ridículo desejo de boas festas e beijos a todos.

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O Natal ainda não chegou mas já estou ensaiando minha apresentação-familiar!
Será que fará sucesso?! (não, não precisa responder…rs)

Devendra Banhart – Baby

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Baby… I finally know what im going after
I’m learning to let in all the laughter
Holy Moley you´re so funnny
You Crack me up, you crack me up

Look out for dreams that keep returning
‘Cause magic ain´t no hand-me-down yearning
You feel it, you want it, the way I want you babe