Dos constrangimentos e explicações

Publicado em Amenidades Cotidianas, Da série: eu vou pro inferno por Srta. Ka em 22/11/2009

“O pecado não me constrange, o que me constrange é explicá-lo”

 

O primeiro beijo na boca que dei na vida foi na minha prima. Eu tinha uns quatro, cinco anos – ela também. Não via nada de errado naquilo, afinal, era só um “ensaio”. Tão ingênuo que um dia, depois de treinar muito, contei para minha mãe e fiquei de castigo o mês inteiro, além de ouvir a ladainha católica frente e verso umas 154 vezes. Foi exatamente este o dia que fui apresentada visceralmente à palavra pecado. Além de, pela primeira vez na vida, ficar frente a frente com o tal do constrangimento. Só pensava: mas, que raios há de errado nisto?

Pois lendo hoje a frase (acima), do queridíssimo Fabrício Carpinejar, me lembrei do episódio e, essencialmente, entendi o que deveria ter entendido há tempos, desde aquela época. O pecado realmente não me constrange, o que me constrange é explicá-lo. Muita gente carrega junto aos pés (e, principalmente na mente) correntes pesadíssimas da culpa. Culpa de tudo. Eu não tenho isso. A culpa, essa vadia, não me pega tão fácil. É claro que, quando realmente tenho culpa de algo, o sentimento aparece. E, quando ocorre? Essencialmente se eu – de algum modo, querendo ou não – fizer mal ou prejudicar alguém. Do contrário, n’est pas.

De resto, não me culpo por nada. Não me culpo por não atender o desejo dos outros. Não me culpo por não me enquadrar, muitas vezes, nos “padrões”. Não me culpo de ser como sou. Não me culpo por fazer coisas das quais gosto ou acredito. Não me culpo por, às vezes, jogar coisas ditas “importantes” para o alto em nome de um desejo “menor”. Não me culpo por nenhum dos sete pecados capitais. Orgulho? Inveja? Ira? Melancolia? Avareza? Gula? Luxúria? Na-na-não. Não me sinto culpada por nenhum destes pecados e eles estão comigo, ora um ora outro, todos os dias. Culpa sentiria se fingisse que não os carrego assim como irmãos siameses no qual é preciso saber conviver. Mas, culpa… não. Nada de culpa. Eles também fazem parte, afinal, do que sou/somos.

Agora, haja constrangimento para explicar estes pecados a outros! Lido muito, muito bem com meus “pecados”, mas, lido proporcionalmente mal com as explicações ou satisfações que, vez ou outra, é preciso dar a quem – geralmente – pouco importa. E mesmo quando o outro importa haja paciência! Haja constrangimento! Haja encheção! Desde que tinha 17 anos, adotei uma lei para minha vida, em que não há negociação, que é: “Sem a nada e ninguém prejudicar, faça o que desejar!”. É díficil explicar a lógica desse pensamento para quem carrega na mente um calabouço de culpas. É chato. Irrita. E me faz ter a sensação de perda de tempo de vida.

Graças aos deuses da luxúria (uhu!), minha família há muito, muito tempo não me obriga a explicar meus pecados. E vivemos bem. Eu, meus pecados, e a maioria das pessoas que me ama. Sem grandes explicações.

 

E você, lida bem com seus pecados? Ou, ainda não conseguiu se livrar das culpas?Lembra-se quando viu, pela primeira vez, frente a frente, a cara feia do tal constrangimento? 

 

Agora, trabalho mesmo foi a explicação que tive que dar hoje para o meu priminho (filho da minha prima – outra, não a do beijo!), de sete anos, que insiste em me chamar de “tia” (ou seja, me acha uma velha). Ele me perguntou: “tia, como devo amar uma mulher em 2020? What???????????????????? COMOÉQUEÉ? Só posso ter ouvido errado! Imagina se ele queria saber como amar uma mulher em 2020! Pois é… era exatamente isto que ele queria! O pobrezinho já está preocupado com o futuro. Diz que não entende as mulheres, mas, precisa entender até 2020… quando terá 18 anos e poderá beijar na boca! 

Cá entre nós, eu sou amaldiçoada! Só pode! Por que as crianças escolhem justamente a mim para fazer esse tipo de pergunta? Eu não sou a melhor pessoa para responder. Vide o caso que contei outro dia aqui do ator pornô mirim. Espero não ter traumatizado meu priminho também! ;)

 

beijos, beijos, beijos! Estou melhor!

 

 

 

Porque eu sou – e sempre serei – cria do Grunge. E esse tipo de pecado não carece explicação.

Screaming trees – Nearly lost you

 

 

Did you hear the distant lie
Calling me back to my sin
Like the one you knew before
Calling me back once again

 

Olhos de cão azul

Publicado em Amenidades Cotidianas, eu, eu mesma e irene por Srta. Ka em 20/11/2009

Então olhou para mim. Pensava que olhava para mim pela primeira vez. Mas então, quando se virou por trás do abajur, e eu continuava sentindo sobre o ombro, nas minhas costas, seu escorregadio e oleoso olhar, compreendi que era eu quem a olhava pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei a fumaça áspera e forte, antes de fazer girar a cadeira, equilibrando-a sobre uma das pernas posteriores. Depois disso a vi ali, como havia estado todas as noites, de pé junto ao abajur, me olhando. Durante breves minutos não fizemos nada mais que isto: olhar-nos. Eu, olhando-a da cadeira, equilibrando-me numa das pernas traseiras. Ela, em pé, me olhando, com uma das mãos, comprida e quieta, sobre o abajur. Via as pálpebras iluminadas como todas as noites. Foi então que lembrei o de sempre, quando lhe disse: “Olhos de cão azul”. Ela me disse, sem tirar a mão do abajur: “Isso. Já não o esqueceremos nunca”. Saiu da órbita suspirando: “Olhos de cão azul. Escrevi isso por todas as partes”.

Olhos de Cão Azul – Gabriel García Márquez

 

 

Senta, que lá vem história.

Que me perdoem os dias claros mas não estou acostumada a eles. Ontem, enquanto estava a caminho de onde almoço, numa temperatura de uns 38 graus, apaguei. Minha pressão arterial não assimila o calor. Saio (ainda mais) do ar. Lentamente fui desaparecendo enquanto andava. Quando abri os olhos estava num lugar que cheirava gordura, cheio de bandeirolas coloridas, e ambiente embaçado pela fumaça. Um homem com cara de indío me olhava, enquanto tocava ao fundo uma música dessas populares. Perguntei o que fazia ali e ele respondeu: “ué, você não se lembra?”. Eu disse: “Não“. E ele: “Mas, estamos conversando a um bom tempo enquanto você recupera as forças“. Conversando? E questionei novamente: “conversando o quê?”. O homem com cara de índio sorriu e disse para uma mulher gorda, de avental amassado, que cuidava de uma panela barulhenta: “A pressão dela está subindo novamente, já está melhorando”. A mulher sacudiu a cabeça concordando e com cara de sapiência disse: “a cor das bochechas já voltou, nem parece mais pálida”.

Só depois desse pequeno episódio surrealista, fiquei sabendo que tinha caído na frente do bar, e, que ele – o dono do recinto – havia me levado para dentro, junto com sua mulher. Apesar da tontura, eu parecia estar bem porque conversava normalmente, por isso, não chamou a ambulância.  O fato é que: eu não me lembro disso. De nada, aliás.

Até aí – tirando a peculiaridade do lugar – nada demais. Tenho um vasto histórico de “apagões” em épocas de calor. Na rua, em danceteria, na frente de faculdade, em hotel, e até – vejam só – num cemitério. Quase cai na cova de um amigo durante seu enterro. Nem preciso dizer que passei semanas acreditando piamente que o “defunto amigo” queria me levar junto. Só depois me convenci que tudo não tinha passado de uma queda de pressão.  Por via das dúvidas, pelo sim pelo não, nunca mais fui visitar a cova do sujeito. Vai que caio de novo e o chão me engole?

A novidade desse mais recente episódio patético é que, diferente das outras vezes, parece que não perdi a consciência. E, até conversei com o casal que me socorreu. O mistério é que: NÃO ME LEMBRO DE NADA. Perguntei ao tal homem, com cara de índio, o que eu tinha dito. E, para minha surpresa, ele me repassou uma história (que eu conhecia bem) mas que não correspondia à realidade.

Explico: quando fazia teatro, um dos exercícios comuns era que os alunos inventassem uma realidade para si. Ou seja, construísse um roteiro bom, que parecesse real, para depois interpretá-lo. Exercício de “imaginação”, “criatividade”, dizia o professor. Como eu não era muito boa de interpretar – como já contei aqui - tratava de criar essas realidades bem próximas à minha. Melhor: criava uma história na qual – não era minha – mas, que eu desejava que fosse no futuro. Ou seja, dava forma ao meu próprio “personagem”. E, a história que contei para o homem que me socorreu ontem foi exatamente uma dessas, que inventei durante as aulas de teatro, que não existe mas que eu gostaria que existisse. Só que essa “verdade” foi inventada há 15 anos, e eu nem me lembrava mais dela!

Por que será que no auge do meu “blecaute” contei justamente uma mentira? Por que não falei o que correspondia à realidade? Pressão baixa me deixa mentirosa? E, por que não me lembro de nada se estava acordada?

Não tenho as respostas. E, não contei a “verdade” para o sujeito com cara de índio e para a mulher gorda de avental amassado. Temi que, além de pressão baixa, eles achassem que sofro de “demência” – o que, convenhamos, não seria de todo errado. Mas, fiquei pensativa sobre o que aconteceu. No fim, apesar de inúmeras tentativas desisti de entender ou me lembrar da prosa-do-quase-desmaio. O que me lembrei mesmo foi de um conto (que está no Top 5 dos que mais amo), de García Márquez, chamado “Olhos de cão azul”. Por quê?

A história conta o encontro de um homem e uma mulher, todas as noites, enquanto dormem. Eles sabiam que a vida de ambos estava dedicada a encontrar um ao outro na realidade. O problema é que ele não se lembrava absolutamente de nada quando acordava. E ela não se lembrava quem era durante o sonho. Tornando, assim, o encontro praticamente impossível. Quando acordada ela saia, em desespero, escrevendo nas paredes, falando a estranhos, rabiscando em mesas, a frase: “olhos de cão azul”, que era uma frase identificadora que criaram, numa tentativa de reconhecimento quando estivessem acordados.  Não funcionava porque ele não lembrava que sonhava.

 

“Eu sou a que chega em seus sonhos todas as noites e lhe diz isto: olhos de cão azul. (…) E na rua ia dizendo em voz alta, que era uma maneira de dizer à única pessoa que teria podido compreendê-la. (…) Tento me lembrar todos os dias da frase com que preciso encontrar você. Mas sempre esqueço ao acordar quais são as palavras. (…) Em alguma cidade do mundo, em todas as paredes, têm que estar escritas estas palavras com que posso encontrar você. Se amanhã me lembrasse delas iria buscar você. (…) Há vários anos nos víamos. Ás vezes, quando já estávamos juntos, alguém deixava cair lá fora uma colherinha e acordávamos. Pouco a pouco íamos compreendendo que nossa amizade estava subordinada às coisas, aos acontecimentos mais simples. Nossos encontros terminavam sempre assim, com o cair de uma colherinha na madrugada”.

 

Fiquei pensando: será que “dei de cara” com uma frase identificadora qualquer que me remeteu à essa realidade inventada? E, por isso, no meu “apagão”, essa espécie de sono forçado, revivi esse personagem? O fato de não ter me lembrado da conversa com o homem me deixou pensativa, mas, doido mesmo foi ter falado de uma realidade que só existiu em minha mente. Lembrei do conto porque García Márquez submerge, justamente, nessa busca de uma outra realidade, menos prevísivel, e mais absurda e fantasiosa, que muitas vezes encontramos nos sonhos.

 

Você não tem a sensação de que, às vezes, essas “realidades inventadas” – sonhando ou não - são tão mais reais que a vida chamada de ”real”? 

Eu tive. Por isso, não contei ao homem-índio e à mulher-do-avental que aquilo tudo que eu tinha dito não era verdade. Assim como o final do conto, a única coisa que pude fazer foi me levantar e dar um “sorriso de entrega ao impossível, ao inatingível” porque sei, no final das contas, que a realidade onírica é, vez ou outra, mais prazeirosa que a real. García Márquez, esperto, também sabia disso. Por isso, não deixou os personagens se encontrarem.

Pra quê? Deixa sonhar…

 

beijos, beijos, beijos! pelada, de repouso, com o ventilador na cara! :)

Para ler o conto “Olhos de cão azul” inteiro, só clicar aqui.

 

 

 

 Porque combina com o clima do texto. Além, claro, de ser a trilha sonora do filme que mais amo na vida  (Before Sunset, ou, Antes do Pôr-do-Sol) e ter de “pano de fundo” a cidade mais linda que meus olhos já puderam ver, acordada. O filme confronta essa realidade onírica entre duas pessoas que o texto do García Márquez reflete.

 

Julie Delpy – An Ocean Apart

 

 

 Time went by, and then we died,
and everything went too fast.
Everything went too fast

 

 

É tudo culpa do meu tio!

Publicado em familia buscapé por Srta. Ka em 18/11/2009

Dizem que nossa personalidade é formada na infância. E que as experiências vividas nessa época influem diretamente na pessoa que você se torna quando adulto. Ou seja, se você foi uma pobre criança inofensiva, que teve parentes doidos que lhe proporcionaram grandes emoções neste período, está ferrado. Simples assim.

E, ontem, às 10h30 da manhã fui ao cinema (por questões profissionais), e, logo depois da sessão, no hall de entrada da sala, me deparei com uma turminha gigantesca de crianças de 7, 8 anos, no máximo (claro, público certo de cinema para este horário). Todos organizadinhos em fila, bonitinhos e obedientes. Mas, tinha uma garotinha lá, com uma mochila rosa nas costas, que resistia e dançava com braços levantados – numa espécie de dança autista, que só ela entendia. Por um segundo pensei em abordá-la, mas, tive um: “de volta ao túnel do tempo”.

Vendo a garotinha dançar, me lembrei que quando tinha 8 anos sofri um abuso. Não, não sexual. Intelectual, mesmo! Explico: meu tio, irmão mais novo da minha mãe, era um típico sujeito tímido e nerd com ideias revolucionárias. E, quando minha mãe não estava por perto, ele me “violentava” com altas doses de Smiths. Basicamente, ele colocava o LP na vitrola, e, me explicava as letras e falava de comunismo (!). E, claro, me fazia dançar como o Morrissey – numa dancinha autista bem parecida com a garotinha que encontrei no cinema. Fiquei pensando: será que ela tem um tio doido que fica ensinando ela dançar Morrissey também?

O abuso não parava por ai: ele era fã de Augusto dos Anjos (sim, aquele do “Escarra nessa boca que te beija!”) e Rimbaud! Família é uma nhaca mesmo, né? Acho que “entender” as letras do Morrissey, ler Augusto dos Anjos e Rimbaud e tentar entender a lógica comunista não é bem coisa para criança de 7, 8 anos, né? Ele dizia que estava “cuidando do meu futuro”. E, minha mãe, pobre, achava que ele lia “Cinderela” para mim. Tá. Agora as coisas ficaram mais claras. Acho que ser assim, essa espécie esquisita da fauna e flora brasileira, é tudo culpa do meu tio!

 

E você? Já sofreu algum “abuso” familiar? Quem é “culpado” por você ser assim hoje? :)

beijos, beijos, beijos e fica um pouquinho da minha leitura da infância. Nada de Cinderela, e afins…

 

 

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

 

 

 

Por que apesar do “abuso” intelectual sofrido na infância eu ainda adoro o Morrissey! E a dancinha é impágavel! :) Só não recomendo fazê-la em público! rs sob pena de ser internado no manicômio mais próximo!

The Smiths – How Soon Is Now

 

 Sou o filho
E herdeiro
De uma timidez que é criminalmente vulgar
Sou o filho e herdeiro
De nada em particular

Cale sua boca
Como pode dizer
Que faço as coisas do modo errado?
Sou humano e preciso ser amado
Como qualquer outro

 

Na contramão

Publicado em Pequenas Maluquices por Srta. Ka em 16/11/2009

E voltando tranquilamente para casa, pela avenida Ibirapuera, me dou conta que resta uma pequena “divisória”, pra gente não andar – por completo - na contramão. E, às vezes, nem todas as divisórias do mundo conseguem nos manter na “faixa” adequada. Ok. Sou cega e dirijo mal à beça.

Mas pergunto, queridos leitores, nesta segunda-feira que começa: Quais são os limites? Até que ponto vale a pena andar “na linha” e não se arriscar pela contramão? Ou, até quando é ”ecologicamente” recomendado – para o bem da flora e fauna mental – andar por aí, trombando com tudo?

Acho que ando demais “na contramão”. Abuso. Emprego formal, que não quero. Vida social, que não tenho. Segunda-feira, que não aguento. E isso para nem entrar no quesito “casamento”. :)

Parece-me que, às vezes,  a gente adora andar na contramão, trombando com tudo que vem pela frente… Eu hein. Comportamento meio masoquista, não? Deixa titio Sade, ou quem sabe Freud, explicar porque eu vou é dormir…

E, você? Anda na linha ou arrisca a contramão?

 

beijos, beijos, beijos

e tudo isso surgiu porque no meio do caminho tinha uma pedra… uma pedra no meio do caminho…Ops! errei… no meio do caminho não tinha pedra nenhuma… só lembrei da musiquinha que é trilha do video… Crazyyyyyyyyyyyyy.  I Knowwwwwwwwwwwwwwwwwwwww! :P

 

Porque te quero no meu sono

Publicado em O resto é mar por Srta. Ka em 12/11/2009

Porque te escolho, neste sussurro sem retorno? Porque te quero no meu sono, se iluminaste sobretudo o que não fui? Morreste-me antes que eu morresse e não consigo morrer sem ti. Nunca consegui. Todos os dias da minha vida estive contigo. Como se todas as amizades anteriores fossem só o caminho para chegar a ti. Como se todas as amizades posteriores fossem apenas a ausência de ti.

Inês Pedrosa, no livro Fazes-me falta

 

 

Há dias que de tão insanos só se tem vontade de morrer. Não, a mim nada aconteceu. Só muito trabalho. Aos trinta e cinco minutos do novo dia bateu aquele cansaço, cuja única vontade (con)sequente é fechar os olhos e ir para o nunca. Dói o corpo. Mas, se pode dormir. E dormir funciona assim como um tipo de morte breve. Dorme, morre, ressuscita no dia seguinte.

Em dias de cansaço, sou instinto. Bicho. Sinto fome, sinto medo e sinto falta. Ando a sentir falta. Da minha família. De algumas memórias. E, às vezes, até de mim. Não é solidão não. Moro sozinha há alguns anos e gosto do silêncio. O que acontece, vez ou outra, é que as cadeiras vazias, os lugares à mesa, a cama perfeitamente esticada e os muitos copos limpos na cozinha ficam mais visíveis. E você se lembra. E sente falta. Até daquilo que não conhece, mas, que quando vê, enxerga, se reconhece.

Me lembrei do trechinho acima de um dos livros de Inês Pedrosa, a escritora portuguesa, porque (embora em outro contexto no livro) é como se, apesar de nunca ter conhecido, estivesse ali todos os dias. E, por isso, fica díficil permitir-se essa morte breve, a do sono, sem a coisa ausente.

 

É assim mesmo, como ela disse: “não consigo morrer sem ti… porque te quero no meu sono”.

 

Já sentiram falta daquilo que nunca tiveram? Coisa doida, né?

Beijos, beijos, beijos. Ah, mas eu também quero a minha mãe! :)

 

Por que é bom ouvir assim, baixinho… e, combina com o dia de hoje.

The Magic Numbers – I See You, You See Me

 

 

“Mas querido quando eu te vejo, eu me vejo”

 

 

Ai que calor na periquita!

Publicado em Amenidades Cotidianas por Srta. Ka em 10/11/2009

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E fui almoçar agora pouco e cruzei com uma moradora de rua “levemente” alcoolizada. E ela gritava assim: “ai que calor na periquita! ai meu deus! que calor, que calor na periquita”. Achei graça. Comparado aos dias passados, nem está tão calor assim. A mulher estava com uma camiseta rasgada e uma saia, bem larga, na altura dos joelhos. Ela continuou gritando: “ai que calor na periquita! ai meu deus! que calor, que calor na periquita”.

Crente que esse calor todo vinha mesmo da cachaça a mais que ela devia ter tomado, e na possibilidade de me oferecer para comprar uma água gelada, um refrigerante, um sorvete qualquer, perguntei: “muito calor aí?”.

Com um ar gentil, aliviada por alguém ter-lhe perguntado algo, ela me olha e levanta a saia respondendo: “a senhora nem imagina“. O calor, meus caros, tinha origem a uma vastíssima mata entre as pernas da senhoura, que estava sem calcinhas (!). Não, não me ofereci para comprar o Kit Jardinagem, digo, Depilação.

É…sei. Quem manda ser curiosa. Podia ter ficado sem essa, né? :)

e, eu ia – vejam só -  almoçar sushi e sashimi. Fica para a próxima. Vamos ao pão de queijo, novamente.

 

 

beijos, beijos, beijos

Tá calor aí também?????  

“ai que calor na periquita! ai meu deus! que calor, que calor na periquita” :P

 

Ah sim! Sobre estar, ultimamente, filosofando demais tem um trecho de um livro de Rilke que responde perfeitamente a isso, que diz assim: “Estou aprendendo a ver. Não sei o que provoca isso, tudo penetra mais fundo em mim e não pára no lugar em que costumava terminar antes”. Acho que estou aprendendo a ver mais do que via e isso gera essa “onda” de questionamento e filosofia. É mais forte do que eu. Por isso disse que minha “alma” anda esquizofrênica. Ela não sossega e cria mundos. Não é a mente não, é a “alma” mesmo. A mente anda bem tranquila esses tempos (o que é, diga-se de passagem, uma raridade).

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Só um detalhe: pensando bem… com o “sucedido” hoje com a moça “calorenta”, acho que este trecho de Rilke ficou meio comprometedor, né? Essa coisa de que tudo penetra mais fundo e não pára no lugar em que costumava…. sei não! rs rs rs

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Ok. Ok. Eu sei. Estou terrível hoje. :? Tenham paciência! (ou não!)

Beijo. 

 

Por que, em se tratando de calor na periquita, ela é minha Diva.

Madonna - Erotica

 

Homens-lobo

Publicado em Pequenas Maluquices por Srta. Ka em 08/11/2009

amos oz

Foi até a banca de jornal e trouxe a revista que lhe trazia informações sobre os “Abraços Partidos“, de Almodóvar. Ela se satisfaz com o melodrama debochado, quente, de cores berrantes e cenários espalhafotosos do espanhol. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. Assim como o calor da terra da garoa.

Jogou-se no sofá de calcinha e sutiã, acompanhada de uma bebida de maçã em garrafa congelante. Leu que o cineasta que criou e recriou mulheres complexas, loucas, inesquecíveis – agora – reabilita a figura do macho. Cínico. Gostou. A alma masculina segundo Almódovar.

Virou, em meio ao suor da tarde, mais algumas páginas. Deu de cara com outro, o escritor, que dá de ombros para os heroísmos ou grandes acontecimentos. Gosta dos dramas cotidianos. A reportagem diz que esse homem – que a encara em foto meio-homem, meio-lobo – gosta mesmo de falar da vida que teima em escorrer lenta e viscosa. Para ele, o que existe é solidão, frustração, arrependimento, preconceito, incapacidade de se abrir às outras pessoas.

Achou triste, mas, fazia sentido com as cores de Almódovar que há pouco havia lido.  “Homo homini lupus”. O homem é o lobo do homem. Lembrou-se do pensamento antigo, de 1600 e pouco porém tão atual, do filosófo inglês Thomas Hobbes. O homem é o lobo do homem… Frio. Coisa de inglês? Ou, coisa de gente? “Ninguém está protegido; o estado natural é, para todos, um estado de insegurança e de angústia”. Homo homini lupus.

Ninguém está protegido. E ela continuou hipnotizada pelo olhar daquele – meio-homem, meio-lobo. Para ele, lembra, a vida escorre lenta e viscosa. Sentiu calor. Tomou mais um pouco da maçã em garrafa que agora não estava assim tão gelada, equilibrada e segura em meio às coxas da menina que lia. Aproximou a revista do rosto, bem perto que mal respirava. Aqueles olhos, de lobo que é, a estremeceu. Enxergou a alma do homem. Do macho que Almódovar tenta decifrar agora.

E ela sentiu toda a ferocidade manifestada de um indivíduo para outro. Gostou. Lembrou-se de novo do inglês. Não mais de que o homem é o lobo do homem. Mas de que A origem de todo conhecimento é a sensação. Olhou de novo nos olhos do escritor-lobo. Repetiu: sentir é a base de todo o conhecimento. Quente. Descongelava a garrafa com a maçã entre suas pernas. “A vida teima em escorrer lenta e viscosa”. Sentiu o líquido que escorria pela garrafa tocar a calcinha. A origem de todo conhecimento é a sensação.

 

Sim. Sentiu e entendeu. Porque ela gosta da alma de certos homens. Qual será a alma do homem?

Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. Maybe.

 

…. e antes que me pergunte: sim, eu consigo misturar numa mesma tarde, num único pensamento, e bebendo tão e somente H20, Pedro Almódovar, Thomas Hobbes e Amós Oz. Coisa de alma esquizofrênica. Pardon.

 

 

Por que Almodóvar nem estreou ainda e já estou tão dramática vestida em suas cores. Celebra, menina, o kitsch.
E a música, que é a trilha sonora de “Abraços Partidos”… bom, a música, não poderia ser mais perfeita.
Ouça porque esse texto não teria o mesmo efeito (para mim) sem ela.

 

Werewolf – Cat Power

 

 

I saw the werewolf, and the werewolf was crying
Cryin’ nobody knows, nobody knows, body knows
How I loved the man, as I teared off his clothes

 

Por que nem tudo é o que parece (ou, intervenção às avessas)

Publicado em eu, eu mesma e irene por Srta. Ka em 06/11/2009

Então. Você já parou para pensar qual é a ideia que as pessoas fazem de você? A imagem que elas têm de sua ilustre figura? Não digo só de pessoas estranhas, daquelas que mal te conhecem e podem, por assim dizer, fazer “mau” juízo. Falo dos amigos mesmo. Das pessoas mais próximas, que trabalham, estudam, ou compartilham alguns momentos de sua vida. Eu me assusto, às vezes, com algumas dessas “impressões”. Até mesmo aqui, no blog.

Ontem sofri uma espécie de “intervenção” dos amigos. Do tipo que quando você faz muita bobagem seguida e os conhecidos, familiares, vizinhos, papaguaio, cachorro se reúnem e te botam em cheque-mate. Só que no meu caso foi uma intervenção às avessas. Os amigos reclamaram que ando “certinha” demais. Achei engraçado porque não foi combinado entre eles (já que alguns não se conhecem). Foi acaso mesmo. Ou, coisa dos espírito das trevas, né? 

Tudo começou quando fui almoçar – para variar – no café que tem próximo a minha casa. E, encontrei um vizinho-amigo. Ele ficou feliz em me ver porque queria falar e era coisa urgenteeeeeeeeeeeeee. Vida ou morte. Perguntei do que se tratava. Achei que ia me pedir dinheiro emprestado ou que alguém tinha morrido. E ele me explicou que abriu uma casa do swing em nosso amistoso e tranquilo bairro. “Veja, que sorte!”, disse. E, claro, está MORRENDO de curiosidade de saber como é. Afinal, os “vizinhos” têm que dar boas-vindas aos novos empreendedores locais. Obviamente, ele precisa de companhia porque homens solteiros não são muito bem-aceitos nestas casas. E, clarooooooooooo, eu fui a escolhida para acompanhá-lo na averiguação. “Kzinha, diz a placa que é The Secret of Satisfaction“. What? The secret of o quê? Depois de explicar a ele que não ando muito amistosa para essas coisas da “putaria” (no ótimo sentindo, claro, porque não tenho nada contra putarias!) ele saiu frustrado comigo.

Depois veio a ligação de outro querido amigo, companheiro fiel das horas impróprias. Reclamou da ausência de porres, orgias e poesias. Ok. reconheci que ando “precisada” de umas boas garrafas de vinhos. Mas, que estou relax. Não faltaram outros queridos que – adivinhem! – ligaram também dizendo que não acreditam em minha beatificação! O Bob diz que duvida do meu bom comportamento. Ora ora, como assim? Sempre fui quietinha! E, durante o dia, duas outras pessoas repetiram a prosa de que estou “certinha demais”. Até um dos meus chefes! 

Será? Certinha demais?

Acho engraçado a imagem que as pessoas têm normalmente de mim. Mesmo que eu fique o mais comportada possível sempre acham o contrário… e esperam o pior! rs rs Vocês mesmo! Vivem repetindo aqui no blog que sou “louca de amarrar no poste”. Não que eu ache isso ruim, mas, sou bem “comunzinha”. Então, por quê? :)

Claro, a imagem que os outros têm da gente – geralmente – é responsabilidade nossa. E, no meu caso certamente é. Mas, o que acho curioso é que muitas vezes eu não me acho do jeito (ou na intensidade) que as pessoas acham que eu sou. Sempre penso assim: “será que estão falando mesmo de mim?”

Nem tudo é o que parece… Ou… vai ver sofro de algum tipo de distorção da minha própria imagem! :P

E vocês? O que as pessoas acham sobre você corresponde à realidade?

 

beijos, beijos, beijos – boa sexta!

 

Por que, ora ora, os leitores deste blog – segundo nossa enquete – são tementes a Deus! Dos 59 amigos que responderam, 47% acreditam fielmente em Deus. 15% estão decidindo e ainda têm suas dúvidas. 10% são do tipo cara de pau que só acredita quando a coisa fica feia. E, 27% são descrentes e acreditam que viemos dos micróbios oriundos das galáxias. :)  Em homenagem aos amigos fiéis, a música de hoje é religiosa (ao meu modo, claro).

 

U2 – Wake Up Dead Man

 

 

O beijo (ou, o ar que falta)

Publicado em Ai!, Os outros por Srta. Ka em 04/11/2009

Toco a tua boca. Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha. Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.

Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha

 

Por que, muitas vezes, tudo o que se precisa é de um beijo. E eu vi a imagem e lembrei do texto. E li o texto e lembrei da música. E da imagem, do texto e da música me lembrei de vocês. Talvez, a descrição mais bela que li até hoje sobre o beijo. Resolvi postar porque hoje me faltam as palavras e o ar. Chegou o período de calor, e do calor vem a pressão baixa, que vem o autismo obrigatório e a morte quase necessária. Vamos torcer para que haja [esta] sobrevivente ao final do verão.

E já que o tema hoje é “beijo”, eu que já sou a beijoqueira de plantão, só me resta enviar mais beijos ainda! :)

Beijos, beijos, beijos!

 

A música, bom, sei lá… eu tenho costume de ler trechos em voz alta [e, não porque minha voz é bonita - tenho certeza absoluta que não é]. É que gosto de conjugar textos, imagens e músicas. E, lendo o texto e vendo a imagem, é a música que me passou a mente. Todo esse “suspense delicado” casa, pra mim, com Cortázar. Quem sabe a vida não seja, de certa forma, um tipo de suspense delicado, não é mesmo? 

 

Philip Glass – Facades

 

 

Do extraordinário do óbvio às pequenas violências

Publicado em eu, eu mesma e irene por Srta. Ka em 03/11/2009

 Do simples da vida

E agora pouco vi um ponto vermelho, um mini-botão, em minha parede branca. Ué? Que será aquilo? Corri para olhar. Era quase meio-dia. Uma joaninha! Gigante! Quer dizer, não tão gigante assim, mas, perceptível aos meus olhos que teimam em ficar mais fracos a cada dia. Quase tive vontade de perguntar: “a que devo a honra de uma visita tão ilustre?”, mas, deixei para lá porque vai que ela responde, né. Joaninhas são visitas ilustres. Não aparecem sempre. Para fazer às honras da casa resolvi seguir o seu rastro. E ela ficou quase duas horas circulando pela tintura branca e, eu, circulando junto. Só observando e ganhando um torcicolo. O que será que pensam os pequenos seres? Será que pensam? Sentem? Veem?  

Sei. Você deve estar pensando agora: “hã?! endoidou srta K.? me poupe dessa coisa de joaninha pensadora andando pela parede”. E eu respondo: “não consigo!”. É como li esses dias no livro “Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, da Clarice Lispector, que diz assim: “na minha aprendizagem falta alguém que me diga o óbvio com um ar tão extraordinário”.

Sou viciada em ver o extraordinário no óbvio, no vulgar. Por isso falo de joaninhas hoje, e, do extraordinário dela visitar minha casa. Sabe, dizem, que o óbvio é a verdade mais díficil de se enxergar. Eu eu acredito nisto. Acredito que a gente esquece de enxergar certas coisas justamente porque elas estão lá, não temos que procurar. Uma joaninha é só uma joaninha, afinal. Que de tão extraordinário há?

 

“De algum modo já aprendera que cada dia nunca era comum, era sempre extraordinário. E que a ela cabia sofrer o dia ou ter prazer nele. Ela queria o prazer do extraordinário que era tão simples de encontrar nas coisas comuns: não era necessário que a coisa fosse extraordinária para que nela se sentisse o extraordinário”

 

A joaninha foi o prazer do extraordinário hoje. O fator que permitiu deixar meu dia não-comum. Os momentos mais extraordinários em nossas vidas começam justamente em dias – aparentemente – comuns, óbvios. Mas, nenhum dia é comum, certo?

Mas, é preciso saber também que nem todo dia óbvio se transforma em prazer. E, depois da seguir a Joaninha, fui ao café da esquina “almoçar” pão-de-queijo e café-com-leite. E, o café veio morno. Sabe, eu não ligo para cheque-especial, para telemarketing, para porteiro chato, atrasos, nada disso. Mas, eu me aborreço profundamente com café-com-leite morno. Vai saber por quê? Me tira do sério! Por isso, em qualquer lugar que eu vá, sempre digo: BEM QUENTE, POR FAVOR. Mas, hoje, a atendente do lugar que frequento há quase quatro anos fez – por conta e risco – morno. Por que não faria? É óbviooooo que eu queria morno, afinal, o dia em São Paulo está quente demais. E eu me aborreci. E fiz cara feia. E devolvi o café. E, fiquei chateada. Coisa feia!

Pra que tanto? Clarice diz que é preciso não esquecer e respeitar a violência que temos, também, dentro da gente porque são as pequenas violências que nos salvam das grandes. Uffa. Alívio. É provável que eu não mate nenhuma joaninha, ou “seres maiores”, nem bata, nem brigue, nem xinge ninguém, mas, me aborreço profundamente com o café morno. E é isso, justamente, que talvez me salve. 

Mas, o dia hoje foi para pensar no extraordinário do óbvio, e, especialmente que o “extraordinário” e o “óbvio” mudam de pessoa a pessoa. Mas, eles estão ali. Todos os dias. E é preciso enxergá-los porque nenhum dia é (ou deveria) ser comum.

 

Pronto. Que tal me dizer uma obviedade extraordinária em sua vida? Ou, quem sabe uma pequena violência que te salva das grandes?

 

beijos, beijos, beijos. Um dia extraordinariamente óbvio para você. E, adeus… a joaninha me atrasou. Mas, eu gosto de joaninhas mesmo assim. :)

 

Por que é trilha sonora do filme In My Father’s Den (Um Refúgio no Passado) que de tão triste é bom, e de tão bom é feliz. E, eu, definitivamente adoro a combinação da voz (doce) da moça e da (violência) da guitarra.

 

Mazzy Star – Take Everything

 

 

 

Sagrado coração de menina

Publicado em Da série: eu vou pro inferno por Srta. Ka em 01/11/2009

Deusa

Desde muito cedo aprendi a rezar. Ajoelhava-me, baixava os olhos e pedia. Coitado! Quanto trabalho tinha. Tradição de família. Vovó faz parte do Sagrado Coração de Maria. Quando o Deus que me surgia era bom, conseguia. Mas, quando só dava o ar da graça o Deus que temia, nada adiantava, nada conseguia. O milagre também dependia de mim. Não era só business do “todo poderoso”. Mas, tudo Ele via. Especialmente quando eu não acreditava e, por consequência, não alcançava. Deus não era vizinho, morava em mim. Passei, então, a acreditar na onipresença divina. Bem que vovó dizia. Redobrei minha fé. Afinal, 50% do trabalho era Dele, 50% da tarefa era minha. Continuei a rezar. E a tese se provava todos os dias. O milagre dependia dos olhos com que eu o via. Cansado de estar em todos lugares, Deus tirou férias. E, um dia, esqueci de rezar. Só que a fé que brotara - no espelho - resistia. E toda vez que acreditava em mim, conseguia. Fiquei orgulhosa. Ora ora, sozinha, cumpri a minha parte e a parte Dele. 100% de responsabilidade minha? Ótimo. Tive um trabalhão para me entender com o “divino”, mas, deus que me perdoe: a partir dali sou eu quem opero agora os meus pequenos milagres do dia-a-dia. Despejei deus. É a fé no Sagrado Coração de Menina. Porque deus sou Eu. E, você.

 

***

Só um pequeno texto de apoio a Saramago que está sendo fuzilado com seu “Caim“. Que coisa… deixem o homem brigar com Deus em paz! É “coisa” deles! Por que tanta gente fica brava quando se depara com aqueles que gostam mais de outras pessoas do que de Deus? 

  

Cada um tem a fé que deseja. Á propósito: onde mora a sua fé? 

Curiosa. Será que os leitores deste blog são fiéis? Digam-me (lembrem-se, Deus está de férias e não irá te castigar)

 

Por que, claro, foi a reza dos adolescentes da década de 90!

Legião Urbana - Travessia do Eixão 

 

 

Nossa Senhora do Cerrado
Protetora dos pedestres
Que atravessam o eixão
Às seis horas da tarde
Fazei com que eu chegue são e salvo
Na casa da Noélia

 

 

 

Bicicleta Rosa

Publicado em Das coisas da belezura por Srta. Ka em 30/10/2009

bicicleta2

Até hoje, eu só tive uma bicicleta na vida. Era uma Caloi Cecizinha, rosa, com cestinha na frente. Tinha uns 8 anos quando ganhei de presente de Natal. Custei a aprender. Tomei vários tombos, mas, quando finalmente aprendi, nossa! o que era aquela sensação de vento no rosto? de cabelo voando e coração pulsando? O mais próximo, talvez, de ser feliz. Quando cresci, desaprendi. A andar de bicicleta e, às vezes, também, de ser feliz.

Quem disse que a gente não desaprende? Mas, eu e a minha Cecizinha éramos imbatíveis. Todas as tardes esperava meu pai chegar do trabalho, embaixo de um Salgueiro “Chorão” que avançava e destruia a calçada de casa.  Diziam que eu não podia esperar ali porque dava azar. Árvore chorona, menina chorona. Sempre desobedeci. Morava em uma rua extensa e larga onde raramente passavam carros.

Era uma maravilha de calle perdida na grande cidade. Quando avistava meu pai, lá na outra ponta distante, voava com minha bicicleta. Chegava a faltar o ar e as costelas doíam, mas não perdia por nada o meu trajeto mágico de pouco mais que 500 metros. Na volta o ritmo era outro. Lento e cheio de conversa com o meu super-herói, que completou há poucos dias 60 anos. Quem diria, heróis envelhecem. Pois!

E, no comentário do texto passado, o sempre provocador Calzito (merci, cheri!) disse assim: Você faz tantas perguntas, meu Deus. O que há contigo?…

Para responder este “enigma” é impossível que eu não me lembre desses momentos com meu pai. Ele dizia – e, não me lembro de onde tirou – que não importam as respostas porque elas mudam o tempo todo, mas, sim as perguntas. O importante na vida é saber fazer as perguntas certas e, de preferência, nos momentos adequados. A resposta é sempre uma espécie de prêmio ou consequência. Mas, o que interessa mesmo é saber fazer as perguntas corretas.

Talvez, por isso, até hoje não paro de fazer perguntas. Se desaprendi a andar de bicicleta nunca mais me esqueci de perguntar, perguntar, perguntar. Pergunto aos outros, pergunto a mim. Até me esqueço da importância da resposta, aprendo mesmo no ato de perguntar. É ali que reflito e aprendo… cavocando bem no fundo d´alma, minha e dos outros. Coisa incômoda, né?

E… claro, só para não perder o costume… e irritar um pouquinho mais o Calzito e todos vocês, qual pergunta gostaria de fazer hoje? Por quê? Pra quem (ok, ok… já sei, aí já é demais!). Mas, se responder – de boazinha que sou (ho ho ho), você ganhará o íncrivel direito à resposta, ou melhor, a uma pergunta para esta blogueira. E, prometo que respondo…! (aqui nos comentários mesmo). Só não vale perguntar meu endereço, meu telefone, e, para mostrar a minha cara – ou qualquer outra parte comprometedora do meu corpicho porpeta!  

Uma resposta, uma pergunta. É justo, não é? :?
Se bem que, pensando melhor, do jeito que falo/escrevo aqui, duvido que vocês tenham perguntas!!!

 

beijos, beijos, beijos! Boa sexta-feirapra nóis“. E, eu queroooo muitooo andar de bicicleta!!!!! Alguém tem uma bicicleta para me emprestar?! Não prometo devolver intacta! - ainda sou ruim-demais-da-conta na direção! :) – hummm… será por isso que toda vez que vou estacionar aqui no prédio os porteiros saem correndo para a garagem, solícitos, para “me ajudarem”?! Ow, god.

 

Por que é música antiguinha e bonitinha… que serve para ouvir enquanto se anda de bicicleta e se é feliz.

Dire Straits – Why Worry

 

 

Why worry, there should be laughter after pain
There should be sunshine after rain
These things have always been the same
So why worry now

 

Mentiras sinceras te interessam?!

Publicado em Deixa de retórica menina! por Srta. Ka em 28/10/2009

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“O que foi a vida? Uma aventura obscena, de tão lúcida” – Hilda Hilst

 

Na esquina da minha casa tem um mercadinho, desses tipo quitanda. E, lá, trabalham dois jovens – na faixa dos 25 anos. São primos e tocam o “negócio da família” sozinhos. Gente simpática. Tem pão quentinho todas as tardes. Gente curiosa. Sempre perguntam coisas sobre a minha vida (vejam só, como se ela fosse interessante para alguém). Acho graça. Os temas são variados. Vão desde a perfeita bobagem cotidiana a filosofias de vida.

Ás vezes digo o que realmente penso, outras só concordo – não por consentimento, mas, para o pão não esfriar. E, hoje, foi um desses dias. Enquanto dava meus sagrados e suados reais, em troca do amado carboidrato, eles me fizeram uma pergunta que entrou feito flecha no peito. Nada demais mas tudo a ver com minhas inconfessáveis fragilidades. Respondo ou não respondo? A verdade é que eu queria responder com sinceridade, mas, do outro lado – não sei – poderia ser complicado. Meninos inteligentes, but, será que os conheço para tanta honestidade?

Nesse dilema de Irene, me lembrei de um amigo que diz que sofro de “sincerocídio”. Diz que a sinceridade é o meu principal defeito e que  ele gostaria que eu não fosse, o tempo todo, tão sincera. Queria algo como proseou Cazuza: ”mentiras sinceras me interessam!”. Meu amigo tem (ou não?) razão. Já me encrenquei muitas vezes por achar que tudo pode ser dito de braços abertos. Não é assim. Logo cedo senti – literalmente – na pele. Recordo-me de minha mãe me perguntando, aos 13 anos, durante o Jornal Nacional, se eu já tinha beijado na boca. Antes, claro, fez um discurso liberal, “somos amigas”, “você pode me dizer tudo”, etc, etc. Caí feito patinho. Quando minha resposta foi um honesto “clarooooooo que jáaaaa” ela quase me estrangulou, me deixou de castigo por 10 dias e disse que se me pegasse “pelos muros do colégio” com qualquer garoto eu ficaria sem pescoço.

A questão é: deve-se falar sempre, com sinceridade, o tempo todo para qualquer pessoa que passe o seu caminho? SER e aguentar as consequências. Ou, às vezes, a melhor solução é escolher as pessoas certas (e a dedo) para as quais vamos abrir as nossas mais impublicáveis opiniões? NÃO SER e ter um pouco de paz nessa vida.

Tem uma frase no livro “A Insustentável Leveza do Ser”, do Milan Kundera, que diz assim: “na frente estava a mentira inteligivel e atrás a incompreensível verdade”. Kundera diz que nesse mundo tudo é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente permitido. Será?

E, você? Prefere – na maioria das vezes – dizer uma mentira intelígivel ou manda, sem dó, suas incompreensíveis verdades?

 

beijos, beijos, beijos! Muito trabalho por aqui! Saudade de visitar os blogs amigos… mas, eu, uma operária das letras, também preciso dormir! :)

 

Por que adoro as cordas da música e também porque o video traz cenas de Grey’s Anatomy e ando meio viciada em seriados médicos. Aliás, um desafio aos psicanalistas: como alguém com tanto medo de médico e hospital escolhe justamente ver esse tipo de cena?

By the Way – Hinder

 

Apesar de.

Publicado em Amenidades Cotidianas por Srta. Ka em 26/10/2009

 self-portrait

Fim de semana agitado por aqui. Conheci, na sexta, uma senhora de 78 anos adorável. Eu (quase) agarrei-a. Só não fiz porque tratava-se de “cousas do trabalho”, e, em se tratanto de cousas do trabalho é melhor me comportar porque eu aindo pago aluguel. Mas, o que gostei mesmo nesta mulher é que ela teve (vejam só) a audácia de buscar um sonho nesta idade. Foi reconhecida. Ganhou prêmio (destes famosos) e agora pretende viver mais uns dez anos para continuar o seu destino desviado pelos anos passados. 

Não é legal isto? (Eu que já me acho uma velha aos 30) ver alguém com 78 anos (muito mais jovem que moi) com disposição e coragem para dizer: “hei, espera ai senhor sonho! Pode me esperar que vou te alcançar”. É bom começar a semana com esta inspiração. Faz com que a gente não corte os pulsos com Bolacha Maria – pelo menos não antes do meio-dia! :) Meu deu vontade de buscar à laço os meus próprios sonhos.

E eu tinha prometido que ia me afastar um pouco de Clarice Lispector. O homem da livraria me disse que só quem tem útero é capaz de entender Clarice. Será? Achei tão engraçado!!! :) A verdade é que ando muito exigente com outras leituras. Quando se habitua a algo que te exige muito (como é o caso de Clarice) tudo o que vem depois fica fácil demais. E, coisa fácil demais me desestimula. E a você? Mas, então, não aguentei e sem querer (hã hã) o livroUma aprendizagem ou o livro dos prazeres” brotou misteriosamente em minha bolsa. E, lá, tem um trecho que diz assim: “havia algo em seus olhos pintados que dizia com melancolia: desafia-me, meu amor, ou serei obrigada a devorar”.

Ás vezes, o que não me desafia, me dá vontade de – literalmente – triturar com os dentes. Seria eu uma reencarnação – ou versão moderna – de um canibal? Nhac! Sei lá. Só sei que o personagem diz assim: “uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida”.

Poucas pessoas reconhecem o desafio que é prosseguir Apesar de. Tudo.  É este tipo de coisa que me estimula - apesar de. amedrontar e muito. Quando tudo está perfeitinho a coisa desanda. Como equilibrar? Sei lá! Se soubesse eu não teria um blog, né! E, sim, um consultório!

Ah sim, falando em mrs. equilíbrio, na minha bolsa, também brotaram outros livros e três albuns remasterizados do Beatles. Ow god. Eu vou à falência. Por que inventam este tipo de coisa, né? Claro, pra gente falir e ir parar no SPC. Só para “engrossar” a massa e os dilemas tupiniquins da classe média. Sai pra lá cruz-credo-ave-maria.

Fui ao teatro também. Vi “As pontes de Madison” (sim, aquela história do livro que depois virou filme). Mas, este é assunto para outro texto porque fala de sonhos x renúncia. Coisa díficil de ser falada. Díficil mesmo foi explicar ontem à minha mãe que eu a amo, mesmo não aparecendo por lá há três meses… Comi arroz, feijão, bife, batata frita e salada. Sou uma mulher (gastronomicamente) feliz. Apesar de, claro, ter um quilo a mais hoje que ontem. Quem se importa?

Enquanto isso, a segunda-feira continua apesar de. Diga-me, pra você, os “apesar de” da vida lhe incentivam ou te fazem ter vontade de cortar os pulsos com Bolacha Maria? Eu ainda sou bipolar neste assunto e oscilo (e muito).

 

Não respondi os comentários do post passado por pura falta de tempo. Perdão! E, mesmo este post foi escrito de forma sem-vergonha, em 15 minutos. Eu volto mais tarde, se der, para comentar os comentários!

beijos, beijos, beijos, boa semana. :P

 

 

 Por que, claro, foi o que rolou durante todo o fim de semana

The Beatles- She Loves You

 

 

Sapatos vermelhos versus o Segundo Sexo

Publicado em Esse é o nosso mundo por Srta. Ka em 23/10/2009

Sapato_Vermelho

Caríssimos, hoje o dia foi estranho! Podemos dizer que rolou por aqui uma verdadeira luta. De um lado do ringue: o conhecimento. Do outro: os poderes do sapato plataforma vermelho de não-sei-quantos-centímetros. Explico: para quem acompanha meu blog há algum tempo sabe que de vez em quando eu (até) sou “boa samaritana”. Em outras palavras, desvirtuo algumas pobres crianças – com trabalho voluntário de ”fefessora” de leitura e redação. E essas adoráveis criaturinhas ( já falei delas aqui) agora estão escrevendo suas próprias histórias. Ow, quanto orgulho! E, claro, querem colocar isso num livro! owwww, quanto orgulho [2]. O problema é: quem é que paga?! Claro, a entidade que tem 100% de funcionários voluntários é que não é. Então, como euzinha dei a ideia, euzinha tenho que me virar (quem manda inventar!). Ou seja, tenho que esmolar para algum empresário rico, impiedoso e poderoso.  O que na prática significa: estou ferrada.

Bem, nem preciso dizer que já tomei com a porta na cara umas trinta e cinco vezes né? Quem é que quer bancar livro de criança deficiente cuja professora sou eu? Pois está mais fácil ganhar na loteria. Juro, meu São Bundinha (lembra dele aqui? meu santinho protetor, amado e querido?) está até estressado de tanto que esfreguei o fiofó do porpeta com pedidos de “graça”. Nenhuma graça recebida até o momento. Maldito!

Se nenhuma solução milagrosa cai dos céus (ou do rabicó do elefantinho), melhor me planejar para a reunião. Então, ontem, passei à tarde definindo as estratégias, os slides, os argumentos, o discurso, tudo, tudinho para convencer o sujeito desalmado que não quer liberar a verba. Bem ao modo: mulher-independente-e-inteligente-procura. Na verdade, aquilo tudo já estava me enchendo a paciência porque não sou muito boa em pedir nada.

Foi aí que vi a luzzzzzzzzzzzzzzzzz! A luz Carolyne! Um amigo ligou e me contou uma história meio trash. Algo como: uma antiga namorada o procurou pedindo emprego, e usou as velhas táticas femininas da carência, da insinuação sexual, da fragilidade, e, pimba! ele fez sexo com ela por dó (?!?). E, depois – obviooooooooo - ficou penalizado com a situação da moça, se sentindo culpado e devedor do tal emprego. E me disse a emblemática frase: “que homem resistiria???”.

Refletindo depois…pensei: se esse meu amigo que é tão lindamente inteligente caiu na “golpeta” feminina mais antiga do mundo será que uma versão mais lightdo tipo, bota um saltão para a reunião e faz cara de pobrezinha – ajudaria minhas crianças? Será que o empresário que já tinha me dito NÃO 3 VEZES se comoveria assim como o meu amigo?

óooooooooooooooooooooooo dúvida cruellllllllllllllllllllllllllllllllllll!!!!!!!!

A manhã hoje foi “tensa”. Botei na minha frente a pilha de livros (para lembrar que sou uma pessoa inteligente) versus minha plataforma vermelha do estilo “vem-que-eu-tô-facinha“. Ow São Bundinha, help me!

Meu santinho fio-da-puta me aconselhou e lá fui eu para a reunião sem nenhum slide em mãos mas munida de um vestidinho preto à moda comissária de bordo (pra que respirar gente?), cintão vermelho, e a sagrada plataforma. Ah, claro, não antes de fazer a promessa que QUEIMARIA o Segundo Sexo se o homem caisse no meu teatro.

Resumindo:

No modo mulher-independente-e-inteligente-procura, eu chegava, apresentava mil telas sobre o projeto social, explicava a importância de uma grande companhia se atrelar a projetos desse porte, dos benefícios, do ganho que a marca da empresa teria, bla bla bla bla bla.

No modo mulher-carente-indefesa-procura, eu cheguei – sem nenhum slide, of course – cruzei as pernas, fiz cara de cãozinho abandonado, mostrei minha poderosíssima plataforma vermelha, fiz um discurso comovente, lacrimejei um pouquinho mas sempre com o ar de “mantenha a distância senão te denuncio no programa da Márcia Goldschmit“. Tirando o fato que o cidadão quase lacrimejou junto comigo, ele se comportou bem, mantendo distância mínima recomendada. Mas, claro, antes que ele resolvesse cuidar mais de mim do que das crianças fui embora, com o mesmo ar de coitadinha e de “preciso muito de você”.

 

Quem adivinhar se saí de lá com o cheque ou não eu dou um doce. Como diz minha pobre vó: homem é homem em todo lugar e tempo. Não mudam nunca. (E eu, juro, achei que as coisas não funcionavam mais assim há muitooooooooooooo tempo. Santa ingenuidade!)

Meninos: eu imploro! digam-me que não é tão fácil assim manipular vocês??? :) Basta o saltão, mesmo?

Meninas: vocês já usaram desse artíficio antes???? Sejam honestas com esta novata! 

 

Enfim…………………… bem ou mal, o importante é que os bontinhos dos meus aluninhos vão ter o sonho deles realizado. Mas, dá uma licencinha que vou ali fazer uma fogueira com Simone de Beauvoir e já volto, ok? :P

 .

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.

 

ENQUANTO ISSO… NA SALA DE ESPERA….

um velhinho andava na rua à minha frente

e ele não percebeu que a blusa de frio estava presa na calça, o que deixou seu bumbum à mostra de forma ridícula quando andava

Velhinho

enquanto ele rebolava – sem perceber – eu fotografava o popozão dele

mas, a cena estava tão bizarra que não aguentei…

bati no ombro do velhinho, e como monja-de-beauvoir que (ainda) sou disse: “senhor, sua blusa está presa na calça. Com licença, sim?”.

Claro, dei um puxão e a blusa voltou para o lugar onde deveria estar (cobrindo a bunda porque ninguém merece ver tal cena!)

O pobre me olhou com cara de assustado, como se eu fosse uma maníaca.

Imaginaaaaaaaaaaaaaaaa! Eu? Por quê??? hã?

Era para o bem dele!!!!!

(Espero que não me processe)

Amém. E, viva, São Bundinha!

por que não dá para (des)virar feminista de um dia para o outro né!

Eu quis puxar a blusa do velhinho e puxei.

e tenho dito!

 

beijos, beijos, beijos… e está bom de encrenca para um dia só, né? boa sexta! :)

 

 

 

Por que ela já cantou sobre “garotas estúpidas” mas, essencialmente, porque sabe ser gostosa

Pink – Sober