Porque te quero no meu sono

Publicado em O resto é mar por Srta. Ka em 12/11/2009

Porque te escolho, neste sussurro sem retorno? Porque te quero no meu sono, se iluminaste sobretudo o que não fui? Morreste-me antes que eu morresse e não consigo morrer sem ti. Nunca consegui. Todos os dias da minha vida estive contigo. Como se todas as amizades anteriores fossem só o caminho para chegar a ti. Como se todas as amizades posteriores fossem apenas a ausência de ti.

Inês Pedrosa, no livro Fazes-me falta

 

 

Há dias que de tão insanos só se tem vontade de morrer. Não, a mim nada aconteceu. Só muito trabalho. Aos trinta e cinco minutos do novo dia bateu aquele cansaço, cuja única vontade (con)sequente é fechar os olhos e ir para o nunca. Dói o corpo. Mas, se pode dormir. E dormir funciona assim como um tipo de morte breve. Dorme, morre, ressuscita no dia seguinte.

Em dias de cansaço, sou instinto. Bicho. Sinto fome, sinto medo e sinto falta. Ando a sentir falta. Da minha família. De algumas memórias. E, às vezes, até de mim. Não é solidão não. Moro sozinha há alguns anos e gosto do silêncio. O que acontece, vez ou outra, é que as cadeiras vazias, os lugares à mesa, a cama perfeitamente esticada e os muitos copos limpos na cozinha ficam mais visíveis. E você se lembra. E sente falta. Até daquilo que não conhece, mas, que quando vê, enxerga, se reconhece.

Me lembrei do trechinho acima de um dos livros de Inês Pedrosa, a escritora portuguesa, porque (embora em outro contexto no livro) é como se, apesar de nunca ter conhecido, estivesse ali todos os dias. E, por isso, fica díficil permitir-se essa morte breve, a do sono, sem a coisa ausente.

 

É assim mesmo, como ela disse: “não consigo morrer sem ti… porque te quero no meu sono”.

 

Já sentiram falta daquilo que nunca tiveram? Coisa doida, né?

Beijos, beijos, beijos. Ah, mas eu também quero a minha mãe! :)

 

Por que é bom ouvir assim, baixinho… e, combina com o dia de hoje.

The Magic Numbers – I See You See Me

 

 

“Mas querido quando eu te vejo, eu me vejo”

 

 

Ai que calor na periquita!

Publicado em Amenidades Cotidianas por Srta. Ka em 10/11/2009

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E fui almoçar agora pouco e cruzei com uma moradora de rua “levemente” alcoolizada. E ela gritava assim: “ai que calor na periquita! ai meu deus! que calor, que calor na periquita”. Achei graça. Comparado aos dias passados, nem está tão calor assim. A mulher estava com uma camiseta rasgada e uma saia, bem larga, na altura dos joelhos. Ela continuou gritando: “ai que calor na periquita! ai meu deus! que calor, que calor na periquita”.

Crente que esse calor todo vinha mesmo da cachaça a mais que ela devia ter tomado, e na possibilidade de me oferecer para comprar uma água gelada, um refrigerante, um sorvete qualquer, perguntei: “muito calor aí?”.

Com um ar gentil, aliviada por alguém ter-lhe perguntado algo, ela me olha e levanta a saia respondendo: “a senhora nem imagina“. O calor, meus caros, tinha origem a uma vastíssima mata entre as pernas da senhoura, que estava sem calcinhas (!). Não, não me ofereci para comprar o Kit Jardinagem, digo, Depilação.

É…sei. Quem manda ser curiosa. Podia ter ficado sem essa, né? :)

e, eu ia – vejam só -  almoçar sushi e sashimi. Fica para a próxima. Vamos ao pão de queijo, novamente.

 

 

beijos, beijos, beijos

Tá calor aí também?????  

“ai que calor na periquita! ai meu deus! que calor, que calor na periquita” :P

 

Ah sim! Sobre estar, ultimamente, filosofando demais tem um trecho de um livro de Rilke que responde perfeitamente a isso, que diz assim: “Estou aprendendo a ver. Não sei o que provoca isso, tudo penetra mais fundo em mim e não pára no lugar em que costumava terminar antes”. Acho que estou aprendendo a ver mais do que via e isso gera essa “onda” de questionamento e filosofia. É mais forte do que eu. Por isso disse que minha “alma” anda esquizofrênica. Ela não sossega e cria mundos. Não é a mente não, é a “alma” mesmo. A mente anda bem tranquila esses tempos (o que é, diga-se de passagem, uma raridade).

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Só um detalhe: pensando bem… com o “sucedido” hoje com a moça “calorenta”, acho que este trecho de Rilke ficou meio comprometedor, né? Essa coisa de que tudo penetra mais fundo e não pára no lugar em que costumava…. sei não! rs rs rs

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Ok. Ok. Eu sei. Estou terrível hoje. :? Tenham paciência! (ou não!)

Beijo. 

 

Por que, em se tratando de calor na periquita, ela é minha Diva.

Madonna - Erotica

 

Homens-lobo

Publicado em Pequenas Maluquices por Srta. Ka em 08/11/2009

amos oz

Foi até a banca de jornal e trouxe a revista que lhe trazia informações sobre os “Abraços Partidos“, de Almodóvar. Ela se satisfaz com o melodrama debochado, quente, de cores berrantes e cenários espalhafotosos do espanhol. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. Assim como o calor da terra da garoa.

Jogou-se no sofá de calcinha e sutiã, acompanhada de uma bebida de maçã em garrafa congelante. Leu que o cineasta que criou e recriou mulheres complexas, loucas, inesquecíveis – agora – reabilita a figura do macho. Cínico. Gostou. A alma masculina segundo Almódovar.

Virou, em meio ao suor da tarde, mais algumas páginas. Deu de cara com outro, o escritor, que dá de ombros para os heroísmos ou grandes acontecimentos. Gosta dos dramas cotidianos. A reportagem diz que esse homem – que a encara em foto meio-homem, meio-lobo – gosta mesmo de falar da vida que teima em escorrer lenta e viscosa. Para ele, o que existe é solidão, frustração, arrependimento, preconceito, incapacidade de se abrir às outras pessoas.

Achou triste, mas, fazia sentido com as cores de Almódovar que há pouco havia lido.  “Homo homini lupus”. O homem é o lobo do homem. Lembrou-se do pensamento antigo, de 1600 e pouco porém tão atual, do filosófo inglês Thomas Hobbes. O homem é o lobo do homem… Frio. Coisa de inglês? Ou, coisa de gente? “Ninguém está protegido; o estado natural é, para todos, um estado de insegurança e de angústia”. Homo homini lupus.

Ninguém está protegido. E ela continuou hipnotizada pelo olhar daquele – meio-homem, meio-lobo. Para ele, lembra, a vida escorre lenta e viscosa. Sentiu calor. Tomou mais um pouco da maçã em garrafa que agora não estava assim tão gelada, equilibrada e segura em meio às coxas da menina que lia. Aproximou a revista do rosto, bem perto que mal respirava. Aqueles olhos, de lobo que é, a estremeceu. Enxergou a alma do homem. Do macho que Almódovar tenta decifrar agora.

E ela sentiu toda a ferocidade manifestada de um indivíduo para outro. Gostou. Lembrou-se de novo do inglês. Não mais de que o homem é o lobo do homem. Mas de que A origem de todo conhecimento é a sensação. Olhou de novo nos olhos do escritor-lobo. Repetiu: sentir é a base de todo o conhecimento. Quente. Descongelava a garrafa com a maçã entre suas pernas. “A vida teima em escorrer lenta e viscosa”. Sentiu o líquido que escorria pela garrafa tocar a calcinha. A origem de todo conhecimento é a sensação.

 

Sim. Sentiu e entendeu. Porque ela gosta da alma de certos homens. Qual será a alma do homem?

Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. Maybe.

 

…. e antes que me pergunte: sim, eu consigo misturar numa mesma tarde, num único pensamento, e bebendo tão e somente H20, Pedro Almódovar, Thomas Hobbes e Amós Oz. Coisa de alma esquizofrênica. Pardon.

 

 

Por que Almodóvar nem estreou ainda e já estou tão dramática vestida em suas cores. Celebra, menina, o kitsch.
E a música, que é a trilha sonora de “Abraços Partidos”… bom, a música, não poderia ser mais perfeita.
Ouça porque esse texto não teria o mesmo efeito (para mim) sem ela.

 

Werewolf – Cat Power

 

 

I saw the werewolf, and the werewolf was crying
Cryin’ nobody knows, nobody knows, body knows
How I loved the man, as I teared off his clothes

 

Por que nem tudo é o que parece (ou, intervenção às avessas)

Publicado em eu, eu mesma e irene por Srta. Ka em 06/11/2009

Então. Você já parou para pensar qual é a ideia que as pessoas fazem de você? A imagem que elas têm de sua ilustre figura? Não digo só de pessoas estranhas, daquelas que mal te conhecem e podem, por assim dizer, fazer “mau” juízo. Falo dos amigos mesmo. Das pessoas mais próximas, que trabalham, estudam, ou compartilham alguns momentos de sua vida. Eu me assusto, às vezes, com algumas dessas “impressões”. Até mesmo aqui, no blog.

Ontem sofri uma espécie de “intervenção” dos amigos. Do tipo que quando você faz muita bobagem seguida e os conhecidos, familiares, vizinhos, papaguaio, cachorro se reúnem e te botam em cheque-mate. Só que no meu caso foi uma intervenção às avessas. Os amigos reclamaram que ando “certinha” demais. Achei engraçado porque não foi combinado entre eles (já que alguns não se conhecem). Foi acaso mesmo. Ou, coisa dos espírito das trevas, né? 

Tudo começou quando fui almoçar – para variar – no café que tem próximo a minha casa. E, encontrei um vizinho-amigo. Ele ficou feliz em me ver porque queria falar e era coisa urgenteeeeeeeeeeeeee. Vida ou morte. Perguntei do que se tratava. Achei que ia me pedir dinheiro emprestado ou que alguém tinha morrido. E ele me explicou que abriu uma casa do swing em nosso amistoso e tranquilo bairro. “Veja, que sorte!”, disse. E, claro, está MORRENDO de curiosidade de saber como é. Afinal, os “vizinhos” têm que dar boas-vindas aos novos empreendedores locais. Obviamente, ele precisa de companhia porque homens solteiros não são muito bem-aceitos nestas casas. E, clarooooooooooo, eu fui a escolhida para acompanhá-lo na averiguação. “Kzinha, diz a placa que é The Secret of Satisfaction“. What? The secret of o quê? Depois de explicar a ele que não ando muito amistosa para essas coisas da “putaria” (no ótimo sentindo, claro, porque não tenho nada contra putarias!) ele saiu frustrado comigo.

Depois veio a ligação de outro querido amigo, companheiro fiel das horas impróprias. Reclamou da ausência de porres, orgias e poesias. Ok. reconheci que ando “precisada” de umas boas garrafas de vinhos. Mas, que estou relax. Não faltaram outros queridos que – adivinhem! – ligaram também dizendo que não acreditam em minha beatificação! O Bob diz que duvida do meu bom comportamento. Ora ora, como assim? Sempre fui quietinha! E, durante o dia, duas outras pessoas repetiram a prosa de que estou “certinha demais”. Até um dos meus chefes! 

Será? Certinha demais?

Acho engraçado a imagem que as pessoas têm normalmente de mim. Mesmo que eu fique o mais comportada possível sempre acham o contrário… e esperam o pior! rs rs Vocês mesmo! Vivem repetindo aqui no blog que sou “louca de amarrar no poste”. Não que eu ache isso ruim, mas, sou bem “comunzinha”. Então, por quê? :)

Claro, a imagem que os outros têm da gente – geralmente – é responsabilidade nossa. E, no meu caso certamente é. Mas, o que acho curioso é que muitas vezes eu não me acho do jeito (ou na intensidade) que as pessoas acham que eu sou. Sempre penso assim: “será que estão falando mesmo de mim?”

Nem tudo é o que parece… Ou… vai ver sofro de algum tipo de distorção da minha própria imagem! :P

E vocês? O que as pessoas acham sobre você corresponde à realidade?

 

beijos, beijos, beijos – boa sexta!

 

Por que, ora ora, os leitores deste blog – segundo nossa enquete – são tementes a Deus! Dos 59 amigos que responderam, 47% acreditam fielmente em Deus. 15% estão decidindo e ainda têm suas dúvidas. 10% são do tipo cara de pau que só acredita quando a coisa fica feia. E, 27% são descrentes e acreditam que viemos dos micróbios oriundos das galáxias. :)  Em homenagem aos amigos fiéis, a música de hoje é religiosa (ao meu modo, claro).

 

U2 – Wake Up Dead Man

 

 

O beijo (ou, o ar que falta)

Publicado em Ai!, Os outros por Srta. Ka em 04/11/2009

Toco a tua boca. Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha. Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.

Julio Cortázar, O Jogo da Amarelinha

 

Por que, muitas vezes, tudo o que se precisa é de um beijo. E eu vi a imagem e lembrei do texto. E li o texto e lembrei da música. E da imagem, do texto e da música me lembrei de vocês. Talvez, a descrição mais bela que li até hoje sobre o beijo. Resolvi postar porque hoje me faltam as palavras e o ar. Chegou o período de calor, e do calor vem a pressão baixa, que vem o autismo obrigatório e a morte quase necessária. Vamos torcer para que haja [esta] sobrevivente ao final do verão.

E já que o tema hoje é “beijo”, eu que já sou a beijoqueira de plantão, só me resta enviar mais beijos ainda! :)

Beijos, beijos, beijos!

 

A música, bom, sei lá… eu tenho costume de ler trechos em voz alta [e, não porque minha voz é bonita - tenho certeza absoluta que não é]. É que gosto de conjugar textos, imagens e músicas. E, lendo o texto e vendo a imagem, é a música que me passou a mente. Todo esse “suspense delicado” casa, pra mim, com Cortázar. Quem sabe a vida não seja, de certa forma, um tipo de suspense delicado, não é mesmo? 

 

Philip Glass – Facades

 

 

Do extraordinário do óbvio às pequenas violências

Publicado em eu, eu mesma e irene por Srta. Ka em 03/11/2009

 Do simples da vida

E agora pouco vi um ponto vermelho, um mini-botão, em minha parede branca. Ué? Que será aquilo? Corri para olhar. Era quase meio-dia. Uma joaninha! Gigante! Quer dizer, não tão gigante assim, mas, perceptível aos meus olhos que teimam em ficar mais fracos a cada dia. Quase tive vontade de perguntar: “a que devo a honra de uma visita tão ilustre?”, mas, deixei para lá porque vai que ela responde, né. Joaninhas são visitas ilustres. Não aparecem sempre. Para fazer às honras da casa resolvi seguir o seu rastro. E ela ficou quase duas horas circulando pela tintura branca e, eu, circulando junto. Só observando e ganhando um torcicolo. O que será que pensam os pequenos seres? Será que pensam? Sentem? Veem?  

Sei. Você deve estar pensando agora: “hã?! endoidou srta K.? me poupe dessa coisa de joaninha pensadora andando pela parede”. E eu respondo: “não consigo!”. É como li esses dias no livro “Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, da Clarice Lispector, que diz assim: “na minha aprendizagem falta alguém que me diga o óbvio com um ar tão extraordinário”.

Sou viciada em ver o extraordinário no óbvio, no vulgar. Por isso falo de joaninhas hoje, e, do extraordinário dela visitar minha casa. Sabe, dizem, que o óbvio é a verdade mais díficil de se enxergar. Eu eu acredito nisto. Acredito que a gente esquece de enxergar certas coisas justamente porque elas estão lá, não temos que procurar. Uma joaninha é só uma joaninha, afinal. Que de tão extraordinário há?

 

“De algum modo já aprendera que cada dia nunca era comum, era sempre extraordinário. E que a ela cabia sofrer o dia ou ter prazer nele. Ela queria o prazer do extraordinário que era tão simples de encontrar nas coisas comuns: não era necessário que a coisa fosse extraordinária para que nela se sentisse o extraordinário”

 

A joaninha foi o prazer do extraordinário hoje. O fator que permitiu deixar meu dia não-comum. Os momentos mais extraordinários em nossas vidas começam justamente em dias – aparentemente – comuns, óbvios. Mas, nenhum dia é comum, certo?

Mas, é preciso saber também que nem todo dia óbvio se transforma em prazer. E, depois da seguir a Joaninha, fui ao café da esquina “almoçar” pão-de-queijo e café-com-leite. E, o café veio morno. Sabe, eu não ligo para cheque-especial, para telemarketing, para porteiro chato, atrasos, nada disso. Mas, eu me aborreço profundamente com café-com-leite morno. Vai saber por quê? Me tira do sério! Por isso, em qualquer lugar que eu vá, sempre digo: BEM QUENTE, POR FAVOR. Mas, hoje, a atendente do lugar que frequento há quase quatro anos fez – por conta e risco – morno. Por que não faria? É óbviooooo que eu queria morno, afinal, o dia em São Paulo está quente demais. E eu me aborreci. E fiz cara feia. E devolvi o café. E, fiquei chateada. Coisa feia!

Pra que tanto? Clarice diz que é preciso não esquecer e respeitar a violência que temos, também, dentro da gente porque são as pequenas violências que nos salvam das grandes. Uffa. Alívio. É provável que eu não mate nenhuma joaninha, ou “seres maiores”, nem bata, nem brigue, nem xinge ninguém, mas, me aborreço profundamente com o café morno. E é isso, justamente, que talvez me salve. 

Mas, o dia hoje foi para pensar no extraordinário do óbvio, e, especialmente que o “extraordinário” e o “óbvio” mudam de pessoa a pessoa. Mas, eles estão ali. Todos os dias. E é preciso enxergá-los porque nenhum dia é (ou deveria) ser comum.

 

Pronto. Que tal me dizer uma obviedade extraordinária em sua vida? Ou, quem sabe uma pequena violência que te salva das grandes?

 

beijos, beijos, beijos. Um dia extraordinariamente óbvio para você. E, adeus… a joaninha me atrasou. Mas, eu gosto de joaninhas mesmo assim. :)

 

Por que é trilha sonora do filme In My Father’s Den (Um Refúgio no Passado) que de tão triste é bom, e de tão bom é feliz. E, eu, definitivamente adoro a combinação da voz (doce) da moça e da (violência) da guitarra.

 

Mazzy Star – Take Everything

 

 

 

Sagrado coração de menina

Publicado em Da série: eu vou pro inferno por Srta. Ka em 01/11/2009

Deusa

Desde muito cedo aprendi a rezar. Ajoelhava-me, baixava os olhos e pedia. Coitado! Quanto trabalho tinha. Tradição de família. Vovó faz parte do Sagrado Coração de Maria. Quando o Deus que me surgia era bom, conseguia. Mas, quando só dava o ar da graça o Deus que temia, nada adiantava, nada conseguia. O milagre também dependia de mim. Não era só business do “todo poderoso”. Mas, tudo Ele via. Especialmente quando eu não acreditava e, por consequência, não alcançava. Deus não era vizinho, morava em mim. Passei, então, a acreditar na onipresença divina. Bem que vovó dizia. Redobrei minha fé. Afinal, 50% do trabalho era Dele, 50% da tarefa era minha. Continuei a rezar. E a tese se provava todos os dias. O milagre dependia dos olhos com que eu o via. Cansado de estar em todos lugares, Deus tirou férias. E, um dia, esqueci de rezar. Só que a fé que brotara - no espelho - resistia. E toda vez que acreditava em mim, conseguia. Fiquei orgulhosa. Ora ora, sozinha, cumpri a minha parte e a parte Dele. 100% de responsabilidade minha? Ótimo. Tive um trabalhão para me entender com o “divino”, mas, deus que me perdoe: a partir dali sou eu quem opero agora os meus pequenos milagres do dia-a-dia. Despejei deus. É a fé no Sagrado Coração de Menina. Porque deus sou Eu. E, você.

 

***

Só um pequeno texto de apoio a Saramago que está sendo fuzilado com seu “Caim“. Que coisa… deixem o homem brigar com Deus em paz! É “coisa” deles! Por que tanta gente fica brava quando se depara com aqueles que gostam mais de outras pessoas do que de Deus? 

  

Cada um tem a fé que deseja. Á propósito: onde mora a sua fé? 

Curiosa. Será que os leitores deste blog são fiéis? Digam-me (lembrem-se, Deus está de férias e não irá te castigar)

 

Por que, claro, foi a reza dos adolescentes da década de 90!

Legião Urbana - Travessia do Eixão 

 

 

Nossa Senhora do Cerrado
Protetora dos pedestres
Que atravessam o eixão
Às seis horas da tarde
Fazei com que eu chegue são e salvo
Na casa da Noélia

 

 

 

Bicicleta Rosa

Publicado em Das coisas da belezura por Srta. Ka em 30/10/2009

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Até hoje, eu só tive uma bicicleta na vida. Era uma Caloi Cecizinha, rosa, com cestinha na frente. Tinha uns 8 anos quando ganhei de presente de Natal. Custei a aprender. Tomei vários tombos, mas, quando finalmente aprendi, nossa! o que era aquela sensação de vento no rosto? de cabelo voando e coração pulsando? O mais próximo, talvez, de ser feliz. Quando cresci, desaprendi. A andar de bicicleta e, às vezes, também, de ser feliz.

Quem disse que a gente não desaprende? Mas, eu e a minha Cecizinha éramos imbatíveis. Todas as tardes esperava meu pai chegar do trabalho, embaixo de um Salgueiro “Chorão” que avançava e destruia a calçada de casa.  Diziam que eu não podia esperar ali porque dava azar. Árvore chorona, menina chorona. Sempre desobedeci. Morava em uma rua extensa e larga onde raramente passavam carros.

Era uma maravilha de calle perdida na grande cidade. Quando avistava meu pai, lá na outra ponta distante, voava com minha bicicleta. Chegava a faltar o ar e as costelas doíam, mas não perdia por nada o meu trajeto mágico de pouco mais que 500 metros. Na volta o ritmo era outro. Lento e cheio de conversa com o meu super-herói, que completou há poucos dias 60 anos. Quem diria, heróis envelhecem. Pois!

E, no comentário do texto passado, o sempre provocador Calzito (merci, cheri!) disse assim: Você faz tantas perguntas, meu Deus. O que há contigo?…

Para responder este “enigma” é impossível que eu não me lembre desses momentos com meu pai. Ele dizia – e, não me lembro de onde tirou – que não importam as respostas porque elas mudam o tempo todo, mas, sim as perguntas. O importante na vida é saber fazer as perguntas certas e, de preferência, nos momentos adequados. A resposta é sempre uma espécie de prêmio ou consequência. Mas, o que interessa mesmo é saber fazer as perguntas corretas.

Talvez, por isso, até hoje não paro de fazer perguntas. Se desaprendi a andar de bicicleta nunca mais me esqueci de perguntar, perguntar, perguntar. Pergunto aos outros, pergunto a mim. Até me esqueço da importância da resposta, aprendo mesmo no ato de perguntar. É ali que reflito e aprendo… cavocando bem no fundo d´alma, minha e dos outros. Coisa incômoda, né?

E… claro, só para não perder o costume… e irritar um pouquinho mais o Calzito e todos vocês, qual pergunta gostaria de fazer hoje? Por quê? Pra quem (ok, ok… já sei, aí já é demais!). Mas, se responder – de boazinha que sou (ho ho ho), você ganhará o íncrivel direito à resposta, ou melhor, a uma pergunta para esta blogueira. E, prometo que respondo…! (aqui nos comentários mesmo). Só não vale perguntar meu endereço, meu telefone, e, para mostrar a minha cara – ou qualquer outra parte comprometedora do meu corpicho porpeta!  

Uma resposta, uma pergunta. É justo, não é? :?
Se bem que, pensando melhor, do jeito que falo/escrevo aqui, duvido que vocês tenham perguntas!!!

 

beijos, beijos, beijos! Boa sexta-feirapra nóis“. E, eu queroooo muitooo andar de bicicleta!!!!! Alguém tem uma bicicleta para me emprestar?! Não prometo devolver intacta! - ainda sou ruim-demais-da-conta na direção! :) – hummm… será por isso que toda vez que vou estacionar aqui no prédio os porteiros saem correndo para a garagem, solícitos, para “me ajudarem”?! Ow, god.

 

Por que é música antiguinha e bonitinha… que serve para ouvir enquanto se anda de bicicleta e se é feliz.

Dire Straits – Why Worry

 

 

Why worry, there should be laughter after pain
There should be sunshine after rain
These things have always been the same
So why worry now

 

Mentiras sinceras te interessam?!

Publicado em Deixa de retórica menina! por Srta. Ka em 28/10/2009

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“O que foi a vida? Uma aventura obscena, de tão lúcida” – Hilda Hilst

 

Na esquina da minha casa tem um mercadinho, desses tipo quitanda. E, lá, trabalham dois jovens – na faixa dos 25 anos. São primos e tocam o “negócio da família” sozinhos. Gente simpática. Tem pão quentinho todas as tardes. Gente curiosa. Sempre perguntam coisas sobre a minha vida (vejam só, como se ela fosse interessante para alguém). Acho graça. Os temas são variados. Vão desde a perfeita bobagem cotidiana a filosofias de vida.

Ás vezes digo o que realmente penso, outras só concordo – não por consentimento, mas, para o pão não esfriar. E, hoje, foi um desses dias. Enquanto dava meus sagrados e suados reais, em troca do amado carboidrato, eles me fizeram uma pergunta que entrou feito flecha no peito. Nada demais mas tudo a ver com minhas inconfessáveis fragilidades. Respondo ou não respondo? A verdade é que eu queria responder com sinceridade, mas, do outro lado – não sei – poderia ser complicado. Meninos inteligentes, but, será que os conheço para tanta honestidade?

Nesse dilema de Irene, me lembrei de um amigo que diz que sofro de “sincerocídio”. Diz que a sinceridade é o meu principal defeito e que  ele gostaria que eu não fosse, o tempo todo, tão sincera. Queria algo como proseou Cazuza: ”mentiras sinceras me interessam!”. Meu amigo tem (ou não?) razão. Já me encrenquei muitas vezes por achar que tudo pode ser dito de braços abertos. Não é assim. Logo cedo senti – literalmente – na pele. Recordo-me de minha mãe me perguntando, aos 13 anos, durante o Jornal Nacional, se eu já tinha beijado na boca. Antes, claro, fez um discurso liberal, “somos amigas”, “você pode me dizer tudo”, etc, etc. Caí feito patinho. Quando minha resposta foi um honesto “clarooooooo que jáaaaa” ela quase me estrangulou, me deixou de castigo por 10 dias e disse que se me pegasse “pelos muros do colégio” com qualquer garoto eu ficaria sem pescoço.

A questão é: deve-se falar sempre, com sinceridade, o tempo todo para qualquer pessoa que passe o seu caminho? SER e aguentar as consequências. Ou, às vezes, a melhor solução é escolher as pessoas certas (e a dedo) para as quais vamos abrir as nossas mais impublicáveis opiniões? NÃO SER e ter um pouco de paz nessa vida.

Tem uma frase no livro “A Insustentável Leveza do Ser”, do Milan Kundera, que diz assim: “na frente estava a mentira inteligivel e atrás a incompreensível verdade”. Kundera diz que nesse mundo tudo é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente permitido. Será?

E, você? Prefere – na maioria das vezes – dizer uma mentira intelígivel ou manda, sem dó, suas incompreensíveis verdades?

 

beijos, beijos, beijos! Muito trabalho por aqui! Saudade de visitar os blogs amigos… mas, eu, uma operária das letras, também preciso dormir! :)

 

Por que adoro as cordas da música e também porque o video traz cenas de Grey’s Anatomy e ando meio viciada em seriados médicos. Aliás, um desafio aos psicanalistas: como alguém com tanto medo de médico e hospital escolhe justamente ver esse tipo de cena?

By the Way – Hinder

 

Apesar de.

Publicado em Amenidades Cotidianas por Srta. Ka em 26/10/2009

 self-portrait

Fim de semana agitado por aqui. Conheci, na sexta, uma senhora de 78 anos adorável. Eu (quase) agarrei-a. Só não fiz porque tratava-se de “cousas do trabalho”, e, em se tratanto de cousas do trabalho é melhor me comportar porque eu aindo pago aluguel. Mas, o que gostei mesmo nesta mulher é que ela teve (vejam só) a audácia de buscar um sonho nesta idade. Foi reconhecida. Ganhou prêmio (destes famosos) e agora pretende viver mais uns dez anos para continuar o seu destino desviado pelos anos passados. 

Não é legal isto? (Eu que já me acho uma velha aos 30) ver alguém com 78 anos (muito mais jovem que moi) com disposição e coragem para dizer: “hei, espera ai senhor sonho! Pode me esperar que vou te alcançar”. É bom começar a semana com esta inspiração. Faz com que a gente não corte os pulsos com Bolacha Maria – pelo menos não antes do meio-dia! :) Meu deu vontade de buscar à laço os meus próprios sonhos.

E eu tinha prometido que ia me afastar um pouco de Clarice Lispector. O homem da livraria me disse que só quem tem útero é capaz de entender Clarice. Será? Achei tão engraçado!!! :) A verdade é que ando muito exigente com outras leituras. Quando se habitua a algo que te exige muito (como é o caso de Clarice) tudo o que vem depois fica fácil demais. E, coisa fácil demais me desestimula. E a você? Mas, então, não aguentei e sem querer (hã hã) o livroUma aprendizagem ou o livro dos prazeres” brotou misteriosamente em minha bolsa. E, lá, tem um trecho que diz assim: “havia algo em seus olhos pintados que dizia com melancolia: desafia-me, meu amor, ou serei obrigada a devorar”.

Ás vezes, o que não me desafia, me dá vontade de – literalmente – triturar com os dentes. Seria eu uma reencarnação – ou versão moderna – de um canibal? Nhac! Sei lá. Só sei que o personagem diz assim: “uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida”.

Poucas pessoas reconhecem o desafio que é prosseguir Apesar de. Tudo.  É este tipo de coisa que me estimula - apesar de. amedrontar e muito. Quando tudo está perfeitinho a coisa desanda. Como equilibrar? Sei lá! Se soubesse eu não teria um blog, né! E, sim, um consultório!

Ah sim, falando em mrs. equilíbrio, na minha bolsa, também brotaram outros livros e três albuns remasterizados do Beatles. Ow god. Eu vou à falência. Por que inventam este tipo de coisa, né? Claro, pra gente falir e ir parar no SPC. Só para “engrossar” a massa e os dilemas tupiniquins da classe média. Sai pra lá cruz-credo-ave-maria.

Fui ao teatro também. Vi “As pontes de Madison” (sim, aquela história do livro que depois virou filme). Mas, este é assunto para outro texto porque fala de sonhos x renúncia. Coisa díficil de ser falada. Díficil mesmo foi explicar ontem à minha mãe que eu a amo, mesmo não aparecendo por lá há três meses… Comi arroz, feijão, bife, batata frita e salada. Sou uma mulher (gastronomicamente) feliz. Apesar de, claro, ter um quilo a mais hoje que ontem. Quem se importa?

Enquanto isso, a segunda-feira continua apesar de. Diga-me, pra você, os “apesar de” da vida lhe incentivam ou te fazem ter vontade de cortar os pulsos com Bolacha Maria? Eu ainda sou bipolar neste assunto e oscilo (e muito).

 

Não respondi os comentários do post passado por pura falta de tempo. Perdão! E, mesmo este post foi escrito de forma sem-vergonha, em 15 minutos. Eu volto mais tarde, se der, para comentar os comentários!

beijos, beijos, beijos, boa semana. :P

 

 

 Por que, claro, foi o que rolou durante todo o fim de semana

The Beatles- She Loves You

 

 

Sapatos vermelhos versus o Segundo Sexo

Publicado em Esse é o nosso mundo por Srta. Ka em 23/10/2009

Sapato_Vermelho

Caríssimos, hoje o dia foi estranho! Podemos dizer que rolou por aqui uma verdadeira luta. De um lado do ringue: o conhecimento. Do outro: os poderes do sapato plataforma vermelho de não-sei-quantos-centímetros. Explico: para quem acompanha meu blog há algum tempo sabe que de vez em quando eu (até) sou “boa samaritana”. Em outras palavras, desvirtuo algumas pobres crianças – com trabalho voluntário de ”fefessora” de leitura e redação. E essas adoráveis criaturinhas ( já falei delas aqui) agora estão escrevendo suas próprias histórias. Ow, quanto orgulho! E, claro, querem colocar isso num livro! owwww, quanto orgulho [2]. O problema é: quem é que paga?! Claro, a entidade que tem 100% de funcionários voluntários é que não é. Então, como euzinha dei a ideia, euzinha tenho que me virar (quem manda inventar!). Ou seja, tenho que esmolar para algum empresário rico, impiedoso e poderoso.  O que na prática significa: estou ferrada.

Bem, nem preciso dizer que já tomei com a porta na cara umas trinta e cinco vezes né? Quem é que quer bancar livro de criança deficiente cuja professora sou eu? Pois está mais fácil ganhar na loteria. Juro, meu São Bundinha (lembra dele aqui? meu santinho protetor, amado e querido?) está até estressado de tanto que esfreguei o fiofó do porpeta com pedidos de “graça”. Nenhuma graça recebida até o momento. Maldito!

Se nenhuma solução milagrosa cai dos céus (ou do rabicó do elefantinho), melhor me planejar para a reunião. Então, ontem, passei à tarde definindo as estratégias, os slides, os argumentos, o discurso, tudo, tudinho para convencer o sujeito desalmado que não quer liberar a verba. Bem ao modo: mulher-independente-e-inteligente-procura. Na verdade, aquilo tudo já estava me enchendo a paciência porque não sou muito boa em pedir nada.

Foi aí que vi a luzzzzzzzzzzzzzzzzz! A luz Carolyne! Um amigo ligou e me contou uma história meio trash. Algo como: uma antiga namorada o procurou pedindo emprego, e usou as velhas táticas femininas da carência, da insinuação sexual, da fragilidade, e, pimba! ele fez sexo com ela por dó (?!?). E, depois – obviooooooooo - ficou penalizado com a situação da moça, se sentindo culpado e devedor do tal emprego. E me disse a emblemática frase: “que homem resistiria???”.

Refletindo depois…pensei: se esse meu amigo que é tão lindamente inteligente caiu na “golpeta” feminina mais antiga do mundo será que uma versão mais lightdo tipo, bota um saltão para a reunião e faz cara de pobrezinha – ajudaria minhas crianças? Será que o empresário que já tinha me dito NÃO 3 VEZES se comoveria assim como o meu amigo?

óooooooooooooooooooooooo dúvida cruellllllllllllllllllllllllllllllllllll!!!!!!!!

A manhã hoje foi “tensa”. Botei na minha frente a pilha de livros (para lembrar que sou uma pessoa inteligente) versus minha plataforma vermelha do estilo “vem-que-eu-tô-facinha“. Ow São Bundinha, help me!

Meu santinho fio-da-puta me aconselhou e lá fui eu para a reunião sem nenhum slide em mãos mas munida de um vestidinho preto à moda comissária de bordo (pra que respirar gente?), cintão vermelho, e a sagrada plataforma. Ah, claro, não antes de fazer a promessa que QUEIMARIA o Segundo Sexo se o homem caisse no meu teatro.

Resumindo:

No modo mulher-independente-e-inteligente-procura, eu chegava, apresentava mil telas sobre o projeto social, explicava a importância de uma grande companhia se atrelar a projetos desse porte, dos benefícios, do ganho que a marca da empresa teria, bla bla bla bla bla.

No modo mulher-carente-indefesa-procura, eu cheguei – sem nenhum slide, of course – cruzei as pernas, fiz cara de cãozinho abandonado, mostrei minha poderosíssima plataforma vermelha, fiz um discurso comovente, lacrimejei um pouquinho mas sempre com o ar de “mantenha a distância senão te denuncio no programa da Márcia Goldschmit“. Tirando o fato que o cidadão quase lacrimejou junto comigo, ele se comportou bem, mantendo distância mínima recomendada. Mas, claro, antes que ele resolvesse cuidar mais de mim do que das crianças fui embora, com o mesmo ar de coitadinha e de “preciso muito de você”.

 

Quem adivinhar se saí de lá com o cheque ou não eu dou um doce. Como diz minha pobre vó: homem é homem em todo lugar e tempo. Não mudam nunca. (E eu, juro, achei que as coisas não funcionavam mais assim há muitooooooooooooo tempo. Santa ingenuidade!)

Meninos: eu imploro! digam-me que não é tão fácil assim manipular vocês??? :) Basta o saltão, mesmo?

Meninas: vocês já usaram desse artíficio antes???? Sejam honestas com esta novata! 

 

Enfim…………………… bem ou mal, o importante é que os bontinhos dos meus aluninhos vão ter o sonho deles realizado. Mas, dá uma licencinha que vou ali fazer uma fogueira com Simone de Beauvoir e já volto, ok? :P

 .

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ENQUANTO ISSO… NA SALA DE ESPERA….

um velhinho andava na rua à minha frente

e ele não percebeu que a blusa de frio estava presa na calça, o que deixou seu bumbum à mostra de forma ridícula quando andava

Velhinho

enquanto ele rebolava – sem perceber – eu fotografava o popozão dele

mas, a cena estava tão bizarra que não aguentei…

bati no ombro do velhinho, e como monja-de-beauvoir que (ainda) sou disse: “senhor, sua blusa está presa na calça. Com licença, sim?”.

Claro, dei um puxão e a blusa voltou para o lugar onde deveria estar (cobrindo a bunda porque ninguém merece ver tal cena!)

O pobre me olhou com cara de assustado, como se eu fosse uma maníaca.

Imaginaaaaaaaaaaaaaaaa! Eu? Por quê??? hã?

Era para o bem dele!!!!!

(Espero que não me processe)

Amém. E, viva, São Bundinha!

por que não dá para (des)virar feminista de um dia para o outro né!

Eu quis puxar a blusa do velhinho e puxei.

e tenho dito!

 

beijos, beijos, beijos… e está bom de encrenca para um dia só, né? boa sexta! :)

 

 

 

Por que ela já cantou sobre “garotas estúpidas” mas, essencialmente, porque sabe ser gostosa

Pink – Sober

Auto-retrato

Publicado em ET por Srta. Ka em 20/10/2009

Hoje, num ato falho esbarrei em uma fotografia que estava na estante. O grande porta-retrato estatelou no chão. O vidro que protegia a imagem espalhou-se todo pela sala. Não me aborreci porque vivo tropeçando em coisas que, não por acaso, se quebram. Quando me abaixei para arrumar o estrago vi que a foto estava virada para cima com um cínico close do meu rosto, cercado de madeira em volta e pedaços de vidro cortantes. Paralisei por um instante. Olhei, olhei, olhei de novo para aquela pessoa ali, em pedaços. Não me reconheci. Quanto mais olhava mais estranha a figura se tornava. Resolvi então não juntar os cacos. Nem a foto. Deixe ali, no chão da sala, por algumas horas buscando uma inútil familiaridade. E, fiquei a perguntar: qual será a falsa? a que observa ou a que é observada?

Estranho estranhar a gente. Olhar sua imagem (ou seria só semelhança?) e não se ver ali. Estranho. Passado algum tempo nada mais pude fazer. Peguei a pá, a vassoura, a imagem que me olhava e disse: “desculpe-me, mas, também se quebra”. Tive que dizer “para a foto” porque no fundo a gente nunca acha que quebra. Pensa ser inteiro, sempre. Deve ser isto, também, um tipo de morte!? Aquela da foto, juro, não era eu. Sabe quando vamos a um velório e olhamos para o defunto e, por mais parecido que lhe pareça, não é mais a pessoa que você conheceu?

Foi assim. Mais ou menos o que houve comigo hoje. Já te aconteceu isso alguma vez? Se olhar numa foto, num vídeo, num espelho e não se reconhecer? Eu sei… Esquizofrênico demais, não? Enfim. Espero não ter recolhido com a pá a pessoa errada. Afe. Como diria Clarice, “antes era perfeito. ter nascido me estragou a saúde”.

Só pode! :)

 

beijos, beijos, beijos.

 

 

Porque, em situações de auto-estranhamento, o “pobre” Robert me apetece muito

Lullaby- The Cure

 

Para quando o amor chegar à tardinha

Publicado em O resto é mar por Srta. Ka em 16/10/2009

Dali - menina na janela

“Eu ficaria no esconderijo daquela moradia afastada de tudo,
toda preparada para quando o amor chegasse à tardinha,
abrindo o portão com seu lirismo natural”
(João Gilberto Noll)

 

Todos os dias, ao final da tarde, ela se dirigia ao toca-disco e colocava um LP de Elvis. Assim que a música começava corria para a janela e sentava-se à poltrona de veludo bege-desbotado, quase escondida pela cortina. Estava sempre acompanhada de uma xícara de chá ou um cálice de licor. Era professora de lingua portuguesa e minha vizinha. Cinquenta e tantos anos e sempre ocupada, de andar apressado. De muito o que fazer e muito a pagar. Seu salário complementava a renda da casa. O marido, funcionário público, não ganhava essas coisas. Mesmo assim, dispensou a última aula diária para a turma da 5ª série, agitada, do colégio estadual. Dinheirinho sagrado!, dizia. Mas, não queria saber. Precisava chegar cedo em casa – para o seu ritual de “espera”. Eu acompanhava tudo, sempre, do outro lado da rua, em minha casa.

Das 18h00 às 18h30 lá ficava a professora-minha-vizinha de olhar grande para a esquina. Ora impaciente, ora tranquila, ora serena, ora preocupada, ora nervosa, e, muitas vezes, distraída. Mas, sempre à espera.  Ao término de dois quartos de hora vinha um suspiro e um sorriso. Ela despertava, levanta-se rapidamente e rumava para a porta. Recebia o marido com um beijo, um carinho e um cheiro no colarinho – só para garantir que não havia ali nenhuma fragância intrusa, de qualquer outra mulher.

Uma vez eu disse à ela que a observava. Ela respondeu: “eu sei, eu sei”. E não deu muita bola. Perguntei se ela não se cansava ou não se angustiava de ficar todos os dias à espera. A resposta foi imediata: “NÃO! CLARO QUE NÃO!”. Quis saber o por quê. Me disse que era justamente desta forma que demostrava que amava muito aquele homem. Assim, de coração acelerado, enquanto os minutos passavam. Se acaso ele atrasasse sentia-se nervosa, com medo de que, por qualquer razão ou fatalidade, não chegasse. Mas, todos os dias, por anos e anos, ela sentia-se aliviada quando o via apontando na esquina, de passos lentos, arrancando uma folha ou outra de algum galho, e, por vezes, assobiava. Era assim, para ela, que era o amor. E, passado tantos anos dessa conversa, para mim, essa “espera” ficou arquivada em minhas lembranças na “caixinha amor”. Me convenceu.  

Sei que o amor tem muitas “imagens”, “formas”, “jeitos” de se demonstrar. Mas, são nestas sutilezas do dia-a-dia que me apego mais. As grandes declarações ou “celebrações” têm seu espaço, claro. Mas, me emociona tão mais o “pequeno” da vida. Talvez minha vizinha tivesse razão. Talvez o texto do Noll (acima) tenha muito sentido. Talvez o amor seja exatamente isso. Ficar escondida, num canto qualquer de uma morada, se preparando para quando o amor de nossa vida chegue à tardinha… cheio de lirismo coloquial, como abrir o portão de casa. Sem dúvida, para mim, essa é uma das “imagens” do amor. 

 

E você, lembra-se de outra “imagem do amor”, assim, descompromissada?

 

beijos, beijos, beijos! boa sexta-feira… aiiiiiiiiiii que estou tão românticaaaaaaaaaaaa! culpa da música abaixo, que escutei hoje e me lembrei da professora-vizinha. :)

 

  

 

Por que só me lembrei desta história ouvindo a canção no rádio. Apesar de achar que a outra música, a do versinho abaixo, que pode ser escutada clicando no link, “combina” mais.

Elvis Presley – Always On My Mind

 

 

Meu coração e meus passos
Andam em círculos atrás do seu rastro
Meus pés e meu peito
E no meu pulso direito
Bate o seu atraso
Será que você, meu bem
Será que você não vem?

Segundos – Adriana Calcanhoto

 

 

… porque viver é tão desconfortável

Publicado em Garçom! traz a cicuta por Srta. Ka em 14/10/2009

M.T

Ah viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não pára,
viver parece ter sono e não poder dormir – viver é incômodo.
Não se pode andar nu nem de corpo nem de espírito.
Eu não te disse que viver é apertado?

 

Clarice Lispector dizia que não era necessário se preocupar em “entender” porque viver ultrapassa todo entendimento. Por outro lado, de forma tão dilacerante, contou também que viver é desconfortável. Incômodo.    IN-CÔ-MO-DO. Essa é palavra da vez.

Me lembrei do trecho acima porque tenho sono, mas, não durmo. Só quem briga com o sono entende. Sabe aqueles bebês que esfregam o olho, esperneiam, se irritam de tanta sonolência, mas, não dormem? Lutam ferozmente para permanecerem acordados? Sou eu: aos 30 anos.

Como disse Clarice: o espírito não pára. A mente não deixa. E o corpo… chora.  Eu nasci do avesso, de horário trocado. Acordo cedo, mas, desperto tarde. Já fui insone. Não é mais o caso, hoje… só luta intensa entre minhas ideias e meu corpo. Eles não se ajustam. Ok, eu sei, sou toda desajustada, mas, o que fazer se é assim que faz sentido? Gosto do silêncio notívago das coisas. “Quero a desarticulação, só assim sou eu no mundo. Só assim me sinto bem”.

Desarticulada, mas, ainda não me sinto bem. Tudo aperta. Desalinhada. Preciso de um alfaiate. Viver é tão desconfortável. E, olha, que só estou falando do sono (ou não).

E, você, o que te incomoda? aperta? O que deixa sua vida desconfortável?

 

beijos, beijos, beijos.

Às 2h35, ouço passarinhos,  o guarda-noturno, e o som do teclado do computador. Calzito disse no comentário que eu devo ter alguma forma de carência afetiva: Respondo: (depois de pensar dois dias – mesmo não precisando de dois minutos para saber a resposta) Não, Calzito. Não tenho alguma forma de carência afetiva. Tenho 365. Uma para cada dia do ano. Combino, assim, com o óculos de sol. Tem cura? Almost, você tem alegrado esse pobre priorado com suas traduções de “K.”! :0)  Adoro.  Peixinha-zarolha, se você estivesse perto eu ia te apertar. De tanto que gosto. É isso. Tá bom por hoje se não começo a destilar amores, o que é sempre perigoso… Andarilho, traz a torta de limão, amadinho. Preciso de acúçar. Que se %$#X!*&%% o regime! Uma torta de limão ia ser tudooooo para a minha carreira artística :P (de modelo GG, of course). Ciao! chega por hj. “Penso que agora terei que pedir licença para morrer um pouco. Com licença – sim? Não demoro. Obrigada”

VI-VA-CLA-RI-CE.

 

 

 Por que não me incomoda ouvir as músicas que gosto, sempre, muitas, todas, mais, fecundas.

 

Open Your Eyes – Snow Patrol

 

Mãe, por que não aprendi a nadar?

Publicado em eu, eu mesma e irene por Srta. Ka em 13/10/2009

Feriado

Eu não sei nadar. Portanto, aqui vai uma super dica: se você, por qualquer razão que o destino nos reservar, decidir me matar, me jogue numa piscina, no mar, ou numa bacia. Morte certa. Believe me. Dica dada vamos ao que interessa: feriado numa segunda-feira é ótimo, não? Mesmo quando se está ruinzinha de uma gripe e tossindo mais do que bulldog asmático depois da quinta volta no quarteirão.

E, já que minha “forma” não estava das melhores hoje, resolvi ficar de “molho” e ver televisão. E, CLARO, coloquei num canal sobre SAÚDE (minha santa ingenuidade pensou que poderia dar uma “animadinha”). Faz tempo que não vejo televisão. Ainda mais numa segunda-feira à tarde, então, estou completamente desatualizada desses assuntos televisivos. Me digam, o que é aquele maldito canal Discovery Health? Sério. Aprendi TUDO sobre TODAS as síndromes do mundo…

Síndrome de Aagenaes, síndrome de Aarskog-Scott, síndrome de Aase-Smith, Síndrome de Abruzzo-Erikson, Síndrome de Aicardi, Síndrome de Alagille, Síndrome de Alport, Síndrome de Bartter, Síndrome de Cockayne, Síndrome de Ehlers-Danlos, Síndrome de Ellis-van Creveld, Síndrome de Klinefelter, Síndrome de Marfan, Síndrome de Miller-Dieker, Síndrome de Moebius, Síndrome de von Hippel-Lindau, Síndrome de Waardenburg, Síndrome do X Frágil, Síndrome XYY, Síndrome de Zellwegger, Síndrome de Zollinger-Ellison…

Uffa. É síndrome que não acaba mais. Eu que NÃO sou – imagina! – uma pessoa facilmente influenciável pensei que minha gripezinha era uma dessas coisas feias que tem nome de gringo. Meus sintomas foram piorando, piorando, comecei a ter novos sintomas, ficar verdinha, amarelinha, azulzinha… e, antes que ficasse (mais) paranóica resolvi ir ao supermercado… comprar TODOS os brócolis que meus braços pudessem carregar. Claro, dica do Discovery Health. A salvação do mundo está na comilança de brócolis! Juro! A paz mundial também. Obama deve ter comido muito Brócolis… isso sim!

Pois, decidida a ser saudável e a salvar o mundo com brócolis, rumei ao hortifruti mais próximo. Sol lindo, dia lindo. Até eu pagar a compra. Os “opositores” ao brócolis jogaram muito, muito sujo e mandaram uma verdadeira tempestade para acabar com meus planos brocolísticos. O resultado? Eu, o brócolis e meu guarda-chuva de bolinhas brancas, sentadinhos no degrau de um prédio por uma hora, esperando – em vão – sermos resgatados por alguma Arca de Noé. Esperei tanto que deu para fazer – pelas minhas contas – umas quatrocentas e sessenta e cinco imagens como a acima. :)

Alowwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwwww, alguém se lembra? Eu não sei nadar! Sortuda do jeito que sou, certamente, ia escorregar ali, no meio daquela água toda, e morrer numa poça de água. Pensou? E tudo por causa do maldito Discovery Health que fica mandando o povo comer brócolis! Há! Na-não.

No final, tudo ficou bem e todos foram salvos: eu, o guarda-chuva e o brocólis. Quer dizer, minha mãe não ficou muito bem não… Explico: em meio ao tédio das águas, fotinhos, celulares, mandei a imagem acima para o celular da mama com os seguintes dizeres:

Mãe, por que não aprendi a nadar? Seria muito útil neste momento saber nadar. Se eu morrer, a senhora me explica na próxima vida… Vou ser valente e atravessar as águas. Glup! Adeus.

Sim, eu não atendi o telefone por alguns longos minutos depois da mensagem enviada. E, foi a vez dela ficar verdinha, amarelinha, roxinha (leia: pavor, preocupação, ódio) . Ah, claro, ela prometeu me afogar repetidas vezes quando me encontrar.

 

Chega de Discovery Health. E de brócolis também.

Espero que o feriado de vocês não tenha tido nenhum episódio mal-feito de “Indiana Jones vegetariano”, e que tenha sido muito, muito melhor que o meu! :) beijos, beijos, beijos.

 

Por que enquanto água ia, água vinha… eu só conseguia cantar repetidamente o refrão dessa música! Acalmem-se, desta vez tenho a explicação: TOC – Transtorno Obssessivo Compulsivo… aprendi no Discovery Health também :) Hummm… ou será que estou possuída pelo “espírito Pulp Fiction”… ? Girl, You’ll Be A Woman Soon…. Será???

Urge Overkill – Girl you’ll be a woman soon